Polêmica

Autora de espetáculo com Jesus trans publica carta de repúdio ao FIG

'Vocês se intitulam seguidores de Cristo, mas vocês são os piores inimigos dele', escreveu a dramaturga Jo Clifford aos censores do espetáculo

JC Online
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Publicado em 30/07/2018 às 15:07
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'Vocês se intitulam seguidores de Cristo, mas vocês são os piores inimigos dele', escreveu a dramaturga Jo Clifford aos censores do espetáculo - FOTO: Foto: Divulgação
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Depois de convidado, cancelado, reintegrado e de última hora cortado da grade oficial do 28º Festival de Inverno de Garanhuns, o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu, foi apresentado na cidade sob forte tensão na última sexta-feira (27), sem estrutura de som e iluminação. Em função disso, a dramaturga escocesa Jo Clifford, autora do texto da peça, publicou nesse domingo (29) em seu blog pessoal uma carta de repúdio aos censores da apresentação, criticando diretamente o prefeito de Garanhuns Izaías Regis, a Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e a organização do FIG.

Um dia antes dessa nova proibição, a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (Fundarpe) resolvera acatar a recomendação do Ministério Público e do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) de reintegrar a peça à programação oficial do FIG. Antes do festival, o secretário de Cultura de Pernambuco, Marcelino Granja, foi obrigado a cancelar o convite ao espetáculo em função da pressão liderada pelo prefeito de Garanhuns, Izaías Regis. Ele alegou que a montagem atacava "a família cristã" e ameaçou vetar o uso de quaisquer espaços municipais para o festival caso a peça não fosse cancelada.

Confira a íntegra da carta, postada originalmente em inglês:

"Epitáfio a um festival que colabora com seus censores

Ontem fiquei muito aliviada e feliz que minhas queridas amigas e colegas Renata Carvalho e Natalia Mallo e nossa companhia de teatro irmã tenham escapado em segurança do perigo que corriam quando apresentaram minha peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu no festival de inverno da cidade brasileira de Garanhuns (PE).

E eu estava orgulhosa por elas terem se saído tão bem em meio ao caos e ao perigo de sua performance final. Elas se posicionaram de forma incrivelmente poderosa e corajosa em nome dos direitos humanos e da liberdade artística de expressão.

Eu ainda estou muito orgulhosa delas hoje. Orgulhosa, também, de que trabalhemos juntas e de que a versão brasileira da peça seja nossa criação conjunta. Mas também estou furiosamente raivosa. A maneira como elas foram tratadas por este festival e esta cidade é uma desgraça total.

Que tipo de festival é este, eu me pergunto, que opera sob o slogan "Um Viva à Liberdade"; que convida uma peça a fazer parte dela, e então retira abruptamente o convite no último minuto porque supostamente ofende a igreja cristã. É assim que se celebra a liberdade?

E que tipo de festival é este que, tendo sido informado de que sua retirada de convite é ilegal, cancela seu cancelamento, reinsere a peça em seu programa e, em seguida, retira-a novamente, assim que a sessão está começando?

Que tipo de festival é este, que então fica parado enquanto a polícia armada chega em vans blindadas, corta a energia do sistema de som da produção, corta a eletricidade de sua iluminação? Uma força policial que primeiro tenta bloquear o acesso do público ao teatro, e que, não conseguindo, tira os assentos do público e remove a cobertura do teatro, forçando platéia e intérprete a suportarem a chuva torrencial?

Que tipo de festival é este, que não só não protege suas artistas, mas também literalmente desmonta seu espaço de performance enquanto elas estão se apresentando?

Este festival tem um nome. Chama-se Festival Internacional de Garanhuns, FIG. E nenhum artista que se respeite jamais deveria concordar em se apresentar lá novamente.

E que tipo de prefeito, eu me pergunto, tendo a oportunidade de receber artistas e público no festival de arte de sua cidade e a oportunidade de apresentar sua cidade como um lugar diverso, seguro e acolhedor... Escolhe, ao invés disso, transmitir e celebrar preconceito e ódio?

Este prefeito tem um nome: Izaías Regis. E ele cobriu sua cidade de ignomínia e vergonha.

E que tipo de juiz de uma alta Corte, eu me pergunto, concede uma liminar proibindo a performance de uma peça e mostra em seu julgamento uma total ignorância do significado e do conteúdo da peça?

Que tipo de juiz de uma alta Corte distribui um julgamento que contradiz as leis e a Constituição de seu próprio país? O país cujo sistema legal ele deveria estar sustentando?

Que tipo de juiz de uma alta Corte poderia ser tão ignorante e tão preconceituoso a ponto de fazer isso?

Este juiz também tem um nome: [o desembargador] Roberto da Silva Maia. Ele é uma total desgraça para sua profissão.

E que tipo de líder religioso, eu me pergunto, tão manifesta e descaradamente falha em proteger e defender as vítimas do preconceito em sua diocese? Então, desgraçadamente, engana seu rebanho, ao falhar em defender o único mandamento que Jesus disse estar no centro de todo o seu ensino?

É o mandamento de amar o próximo como a si mesmo, dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa, bispo de Garanhuns. Por favor, pense nisso.

E quanto a você, Ordem dos Pastores Evangélicos de Garanhuns e Região, Jesus conhecia os semelhantes a vocês.

Ele conhecia o seu tipo muito bem. Ele nunca denunciou pessoas como eu ou Renata Carvalho. Mas ele denunciou tipos como vocês. Muitas e muitas vezes. Doutores da lei, fariseus, hipócritas. Sepulcros caiados. Corações de pedra.
Vocês e seu semelhante Jesus crucificado. Assim como vocês ameaçaram crucificar Renata se ela se apresentasse no palco.

Vocês se intitulam seguidores de Cristo, mas vocês são os piores inimigos dele.

Mas obrigada, artistas e público de Garanhuns que levantaram fundos para permitir que nossa peça fosse executada apesar da censura. Obrigada por assistir às duas performances. Obrigada por ficar até o final da segunda apresentação e dar a essas corajosas artistas de teatro as boas-vindas, o apoio e a proteção que o festival tão vergonhosamente não conseguiu dar a elas.

Vocês representam o melhor da sua cidade.

Quanto a você, FIG... Você se lembra da história do evangelho, da figueira em Betânia que não deu a Jesus nenhum fruto? Ele a amaldiçoou e isso fez com que ela murchasse e nunca desse frutos novamente.

Você vai levar essa desgraça ao redor de seu pescoço como uma pedra de moinho.

E na sua forma atual você também murchará e morrerá.

Nenhum bem jamais virá de você novamente.

Jo Clifford"

Apresentações sob forte tensão

Apesar da retirada do apoio oficial do Festival, o espetáculo teve uma sessão realizada de forma independente pelos produtores e organizadores. Enquanto a sessão acontecia, iniciada às 21h da sexta-feira (27), cerca de 40 policiais em sete viaturas de polícia foram ao local do espetáculo acompanhados de um oficial informar da nova proibição. Houve exaltação de ânimos e discursos inflamados entre os presentes. A atriz Renata Carvalho foi obrigada a interromper o espetáculo que acontecia debaixo de uma grande tenda montada pela Fundarpe numa casa da cidade e deu continuidade ao monólogo numa área aberta, sob chuva.

Antes de ser removida da grade, a peça havia contado com uma primeira sessão alternativa, às 17h30 da sexta-feira, viabilizada através de arrecadação de dinheiro desde a primeira proibição. Numa mansão cujo endereço só foi revelado por mensagem de celular ao público cerca de uma hora antes, a peça teve sua primeira sessão apresentada sob um esquema de segurança com mais de uma dezena de agentes de proteção, quatro viaturas da Polícia Militar e revista minuciosa do público, com detecção de metal para evitar armas. Os organizadores temiam algum atentado contra a atriz Renata Carvalho. No intervalo das duas sessões, uma bomba-rojão foi estourada por trás do imóvel em que acontecia o espetáculo.

Na manhã do sábado (28), o presidente em exercício do TJPE determinou cancelamento do mandado de segurança anterior, em favor da Associação Dos Pastores Evangélicos de Garanhuns, e determinou nova volta do espetáculo à grade oficial - mesmo com o festival praticamente tendo chegado ao fim. Não houve uma terceira sessão.

A reportagem procurou a assessoria de comunicação social do TJPE a respeito da menção ao desembargador Roberto da Silva Maia na carta, mas não obteve retorno até o momento da publicação desta matéria. Segundo a Ascom, não foi possível emitir nota pois o magistrado encontra-se em sessão do Órgão Especial desde às 14h.

A peça

No espetáculo, a atriz transexual Renata Carvalho interpreta Jesus, numa reflexão sobre como seria a volta de Cristo à terra no mundo atual encarnado num corpo diferente. Na plateia das duas sessões do espetáculo, jovens usavam camisetas com frases de militância pela diversidade sexual.

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