FESTIVAL VARILUX

A Revolução em Paris atualiza lutas sociais no Festival Varilux

Filme sobre a história francesa é um dos destaques do evento em cartaz nos cinemas do Recife

Ernesto Barros
Ernesto Barros
Publicado em 11/06/2019 às 6:08
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Bonfilm/Divulgação
Filme sobre a história francesa é um dos destaques do evento em cartaz nos cinemas do Recife - FOTO: Bonfilm/Divulgação
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Em tempos de convulsão política generalizada, com as democracias sob ameaça em vários quadrantes do mundo, um filme sobre a Revolução Francesa, com seu legado de mudanças sociais que reverberam até hoje, tem um grande poder de atração. Não à toa, A Revolução em Paris (Un Peuple et Son Roi, 2018), de Pierre Schoeller, é um dos filmes que mais levaram espectadores no primeiro fim de semana do Festival Varilux de Cinema Francês. Nesta terça-feira (11/6), o longa ganha mais uma sessão, às 14h20, na sala 2 do Moviemax Rosa e Silva. A estreia está marcada para novembro deste ano.


Roteirista que se alçou à direção, Pierre Schoeller demonstrou em dois filmes que é um cineasta preocupado com o papel da política e da necessidade de discussões em torno das questões sociais. Desde a realização de O Exercício do Poder (L’Exercice de l’État), vencedor do Prêmio da Crítica na Mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, em 2011, que ele sonhava trazer a Revolução Francesa para o cinema. “Eu tinha esse desejo há muito tempo e apareceu o momento em que eu podia realizá-lo. Como o assunto é extremamente vasto e complexo, chega a ser um verdadeiro oceano, eu precisava decidir qual ponto da revolução iria focar. Quando comecei a escrever, tinha tanta coisa a ser contada que tive a mesma impressão dos americanos com as histórias do Velho Oeste, que ele transformaram num gênero. Para mim, a Revolução Francesa é também um gênero e o cinema é a melhor linguagem para falar dela”, contou o cineasta, durante uma entrevista no Rio de Janeiro, na última quinta-feira, ao lado de outros cineastas e atores que faziam parte da comitiva do Festival Varilux.

Produzido ao custo 15 milhões de euros (cerca de R$ 66 milhões), A Revolução em Paris têm aparência de afresco histórico, como tantos outros filmes, mas se diferencia bastante de relatos mais genéricos, apoiados unicamente em acontecimentos por demais conhecidos. Para contar o trecho da Revolução Francesa que ele pretendia, o diretor levou quatro anos entre pesquisas e um roteiro pronto para ser filmado. “O filme foi se desenhando como uma ópera, com muitos personagens e vários ponto de vista. No nível audiovisual, é muito particular, com a presença de muitas canções de época. O que eu queria passar com o filme era mostrar o que acontece durante uma revolução e como se vive um tal momento. Não foi uma revolução que durou dois ou três meses, mas sete anos. Não é como filmar uma história qualquer. É como procurar uma pessoa desaparecida, que você vai atrás dela numa cidade e encontra outros vilarejos e outras histórias no caminho”, comentou o cineasta.

A Revolução em Paris obedece a uma cronologia que tem como centro a relação do Rei Luís 16 e seu povo, os cidadãos que se rebelaram contra ele e lutaram para tirá-lo do poder. A primeira cena, bastante irônica, acontece em 9 de abril de 1789, quando o rei lava os pés das crianças pobres, na Quinta-feira Santa. E se estende, por mais quatro anos, até a sua execução, na Praça da Revolução, em 21 de janeiro de 1793. Embora os fatos sejam conhecidos, Pierre Schoeller faz um relato bem diferenciado da revolução ao colocar os cidadãos comuns em primeiro plano, em pé de igualdade com figuras históricas conhecidas como Marat, Robespierre, Saint-Jus e La Fayette. As mulheres têm um participação com bastante visibilidade, outro dos pontos mais interessantes de A Revolução em Paris.

“Céline Sallette não é uma personagem anônima, ela realmente existiu, como outras figuras populares, que deixaram sua marca na história. Devemos relativizar essa questão de personagens históricos e personagens anônimos, porque existiram deputados que ninguém conheceu. A maior parte deles não falava nos debates. Eles discutiam em grupo e apenas um era escolhido para subir e falar na tribuna. Eles não são anônimos, têm nomes, mas são desconhecidos. Até em eventos como a Tomada da Bastilha, vários relatos contam quem eram aquelas pessoas e o que elas fizeram. Numa revolução, os atos de heroísmo podem vir de qualquer pessoa”, afirmou Schoeller.

INTERNET

Embora as fontes de documentação sejam vastas, em bibliotecas e museus, o cineasta disse que se surpreendeu com a quantidade de informações disponibilizadas na internet, algumas delas que sequer apareceram em outros filmes sobre o assunto. “Um dos momentos mais importantes para a realização do filme foi quanto tive acesso aos artigos das assembleias durante a pesquisa. Por causa da internet, foi muito fácil encontrar esses documentos. Eu tive muito trabalho para ler e escrever e depois escolher os personagens e os debates. O mais surpreendente foi ter acesso às canções populares. Com exceção de dois pequenos trechos improvisados, todas elas são da época e foram cantadas pelos atores e atrizes durante as filmagens”.

No vasto elenco de A Revolução em Paris, Pierre Schoeller mais uma vez contou com Olivier Gourmet, seu ator preferido, que interpreta um artesão. Adèle Haenel e Izïa Higelin vivem duas irmãs que lutam por pão e por amor em meio à revolução. Louis Garrel e Denis Lavant vivem personagens conhecidos, como Robespierre e Marat, respectivamente.

Pierre Schoeller disse que não fez um filme para falar dos dia de hoje, porque não acredita que o passado irá resolver os problemas. Por outro lado, não tem dúvidas em afirmar que a história se repete. “Segunda-feira passada, no Sudão, o exército atirou em manifestantes e mais de 100 pessoas morreram. Sabe o que o exército fez? Pegou os corpos e jogou-os no Nilo. Eu filmei corpos sendo jogados no Campo de Marte, ao lado do Sena. A Revolução Francesa expressou essa demanda por direitos, clamou por igualdade, equilíbrio e respeito. A classe que trazia riqueza para o país era extremamente maltratada pela nobreza e pelos religiosos. O rei fazia com que eles ficassem horas esperando debaixo de chuva. Isso era muito chocante. O que hoje estamos vendo é a mesma fibra e demanda por direitos, coisas que temos dentro de nós e que vai continuar”, conclui.

O repórter viajou a convite do Festival Varilux.

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