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João Cabral de Melo Neto e Vinicius de Moraes, amizade poética entre opostos

Apesar das visões distintas de poesia e de mundo, os dois poetas foram amigos próximos

Diogo Guedes
Diogo Guedes
Publicado em 19/10/2013 às 5:15
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Apesar das visões distintas de poesia e de mundo, os dois poetas foram amigos próximos - FOTO: Reprodução
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“Para mim, Vinicius teria sido o maior poeta da língua portuguesa. Se ele levasse a poesia a sério”. A dura frase não é de um desafeto de Vinicius de Moraes, mas sim de um dos seus maiores amigos, o pernambucano João Cabral de Melo Neto. Se o companheiros de Vinicius de Morais com Antonio Maria se dava pela semelhança, com João Cabral acontecia pela absoluta diferença: eram duas visões de vida e poesia completamente diversas, unidas apenas por um imenso respeito e admiração.

O “teria sido” da afirmação de João Cabral se dá por um motivo: ele achava que a dedicação de Vinicius à música popular era um desperdício e orgulhava-se de não ter nenhum seu disco em casa. O poetinha, por sua vez, seguia intencionalmente outro caminho, ignorando os conselhos dados pelo amigo diplomata de fazer uma “dieta poética”. “Pois é, eis um grande poeta (João Cabral). Mas eu não sei se estaria disposto a pagar esse preço” – seja ele qual fosse: a seriedade, a sisudez, a distância.

A amizade nasceu durante uma viagem do carioca pelo Nordeste e pelo Norte, com o americano Waldo Clark. Sobre a jornada, Vinicius diria, depois de conhecer mangues, mocambos e palafitas: “Saí do Rio um homem de direita e voltei um homem de esquerda”. Quando João Cabral se mudou para o Rio, passou a conviver com o colega, e a amizade ainda se intensificou com o trabalho dos dois na diplomacia.

Um dado interessante é que, a despeito das diferentes visões poéticas, Vinicius costumava recorrer à opinião de Cabral sobre seus versos. Em Vinicius de Moraes, o poeta da paixão, Castello conta a reação do pernambucano depois de ler Orfeu da Conceição. “‘Os dois primeiros atos estão ótimos. O terceiro, péssimo’. Como Vinicius não consegue articular uma palavra sequer, o sempre impiedoso João dirá: ‘Vamos, o que está esperando? Reescreva!’”. Apesar da dureza do comentário, é João Cabral que sugere a ele o famoso título da peça.

Para Castello, a mágoa do autor de Cão sem plumas com o amigo carioca se dava por conta da grande expectativa que tinha: não era por cordialidade que dizia que ele poderia ter sido o poeta maior da língua. “A relação entre os dois parece seguir a tendência que temos de buscar o oposto para confirmar o que a gente é. Queremos lidar com pessoas completamente contrárias a nós, que te confirmam que você habita quase um outro mundo”, explica o biógrafo, em entrevista ao JC.

Leia a matéria completa no Jornal do Commercio deste sábado (19/10)

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