Priscilla Alcântara foge do padrão gospel no disco 'Gente'

Em seu quinto disco de estúdio, a jovem cantora apresenta um trabalho consistente e bastante ousado para evangelizar nos dias atuais

Robson Gomes
Robson Gomes
Publicado em 26/11/2018 às 5:00
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Em seu quinto disco de estúdio, a jovem cantora apresenta um trabalho consistente e bastante ousado para evangelizar nos dias atuais - FOTO: Foto: Divulgação
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No último dia 30 de outubro, um telefone tocou no Instagram da apresentadora, hoje cantora gospel, Priscilla Alcântara. Do outro lado da linha, era Jesus. Na conversa telepática, apenas de expressão facial, a jovem paulista de 22 anos se disse preocupada com algo: “Se a sua mensagem não era só para os de dentro, porque a minha arte não tem se preocupado em comunicar com os de fora”? Toda a inquietação dela foi transformada em Gente (Sony Music, 2018), um álbum lançado no último dia 8 de novembro nas plataformas digitais.

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O teaser impactante, com quase dois milhões de visualizações no Instagram, foi um importante epílogo para entender a gênese deste que é o seu quinto disco de estúdio. Afinal, em Gente, Priscilla busca comunicar-se além de “seu próprio gueto”, leia-se: os crentes. E isso fica claro em todas as 12 faixas autorais, compostas pela cantora onde, em nenhum momento, ela usa de palavras óbvias, de lugar comum, como “Senhor”, “Deus”, “Pai” ou “Jesus” nas canções, mas a evangelização está ali, acertadamente, de forma subjetiva.

A ousadia nas letras também se reflete na produção musical assinada por Johnny Essi, trazendo arranjos pop ora densos, ora demasiadamente eletrônicos – com direito a efeitos de autotune na voz de Priscilla – a ponto de algumas faixas poderem tocar tranquilamente numa balada qualquer sem nenhuma perda na qualidade da batida ou até mesmo na animação.

Gente (De Zero a Dez), a faixa que abre o disco, é repleta de reflexões para quem ouve, mas também para a própria Priscilla enquanto pregadora da palavra. “Se é difícil pra você que só assiste/ Imagina pra mim que nem consigo/ Dar nome ao que sinto”, diz uma parte da letra, gerando uma identificação nas possíveis angústias do ouvinte, seja ele evangélico ou não.

Em seguida, com uma pegada R&B, a faixa Florescer fala mais diretamente de um ser superior, sem mencioná-lo diretamente. O arranjo traz Priscilla Alcântara em várias nuances vocais. A busca de acolher o ouvinte se evidencia novamente em Empatia. Mesmo com uma letra mais forte, a faixa acaba numa “cristoteca” trazida pela batida eletrônica nos minutos finais.

Solitude chega em seguida com uma mensagem urgente sobre a solidão, principalmente para os jovens, ainda que soe como a mais gospel do álbum até então. Mas frases fortes como “É só você dizer sim ou não/ E transformar em solitude a solidão” e “Eu fiz do silêncio meu maior aliado/ E fiz um jardim no meu quarto fechado” dão mais beleza à canção de tom aconselhador.

A conversa de Priscilla Alcântara com Jesus feita no teaser se materializa em forma de música em Sem Querer. Nessa forma “moderna” de dialogar com o Superior, a faixa com batida pop também soa coerente com o projeto. Já a balada Me Refez tem um dos arranjos mais graciosos do disco, além de narrar aquilo que seria um primeiro encontro com Deus.

Liberdade também abusa das batidas eletrônicas, ainda que mescle com a delicadeza de momentos de voz e piano. Na sequência, Alegria eleva a temperatura do disco com uma letra engajada que parece ter vindo da tradução de Where’s The Love?, do Black Eyed Peas, e que poderia ser facilmente cantada por uma Iza, por exemplo, devido à batida tropical e um refrão pegajoso onomatopeico.

Priscilla ainda segue com suas indagações ao Superior na faixa Eles. Em Real, a cantora faz uma bonita declaração ao criador. No refrão da música, os melismas vocais da cantora se destacam novamente.

A batida R&B volta mais forte em Tanto Faz, a penúltima faixa do disco. Inteiro então, encerra o álbum com a letra mais explícita, onde fala do sacrifício de Cristo na cruz, ainda que não seja nominalmente citado.

ACERTO

Após 43 minutos ouvindo todo o álbum, uma palavra que pode definir Gente é, de fato, ousadia. Priscilla Alcântara entrega um álbum que sai dos padrões gospel atuais e grita para tocar fora das igrejas. Com letras de evangelho implícito e que se confundem facilmente com qualquer hit pop do momento em virtude dos bons arranjos, talvez a jovem consiga mesmo despertar não só o público “de dentro”, mas principalmente, tocar o coração dos “de fora”, que também é gente como ela.

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