Blues/Rap

Baco sobre 'Bluesman': 'Um preto falando de amor é muito ofensivo para várias pessoas'

'Bluesman', novo álbum do baiano Baco Exu do Blues, reflete identidade e psicológico do rapper, além de gerar debates nas redes sociais

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 03/12/2018 às 9:50
Foto: Alex Takaki/Divulgação
'Bluesman', novo álbum do baiano Baco Exu do Blues, reflete identidade e psicológico do rapper, além de gerar debates nas redes sociais - FOTO: Foto: Alex Takaki/Divulgação
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Diogo Moncorvo adotou para si a alcunha de Baco Exu do Blues, usando a música para externar suas percepções sobre esse três nomes. Em 2017, trouxe ao mundo Esú e, entre outras diversas temáticas, passeou pelas significações das divindades de seu nome artístico. Já na sexta-feira (23), foi a vez da parte terrena, o blues, ganhar seu aprofundamento com o álbum Bluesman. "Ele foi um processo que vem desde quando eu escolhi esse nome, já estava bem encaminhado o que ia ser e foi se criando a partir de teorias que eu fazia com o blues", confirma o rapper baiano.

Para começar a jornada de reflexões sobre vivências negras, das mais globais às regionais, Baco cede os primeiros segundos do disco para a guitarra e a voz de Muddy Waters para, em seguida, discorrer sobre sua percepção do surgimento do ritmo negro norte-americano como uma ferramenta pioneira de emancipação do povo preto. "Eu sou primeiro ritmo a formar pretos ricos, o primeiro ritmo que tornou preto livres (...) a partir de agora considero tudo blues (...) Tudo que quando era preto era do demônio e depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues", diz seus primeiros versos na faixa homônima.

Há constâncias e variações em Bluesman quando comparado com os trabalhos anteriores de Baco. Se, por um lado, ele continua a entrar pelos meandros de sua psique e seus relacionamentos, há uma nova busca por sonoridades mais plurais sem perder o encaixe com sua voz rouca e seu flow. "Eu estava mais artisticamente maduro do que em relação quando entrei para gravar Esú. Como já tinha o disco lançado havia pouco tempo, as coisas puderam ser feitas com mais calma, sem pressão. Mas mentalmente eu estava ruim igual, só que por motivos diferentes", explica.

Contando com esse ambiente mais calmo, começaram as pesquisas para trazer uma musicalidade que considera única. A busca acabou por encontrar pessoas novas para a construção desse projeto, resultando nas participações encontradas em um número bem maior do que no primeiro disco.

Assim, entra voz de Tim Bernardes, da banda O Terno, em Queima Minha Pele, uma das intensas love songs do projeto, 1LUM3 em Me Desculpa Jay-Z, o trio curitibano Tuyo em Flamingos, além de Bibi Caetano e DKVPZ em Kanye West da Bahia. "Eu escolhi pelo dom da voz e da forma como soaria diferente dentro do projeto. Quando eu pego alguém como o Tim, desenvolvemos algo que não fique parecido com o trabalho individual dele, então acabou sendo tudo muito natural", relata.

Assim, com esse virtuosismo mais plural, Baco continua seus gritos e meditações, que vão dos afetos às resistências. Em Kanye West da Bahia, canta uma vivência de uma negritude bem pessoal e específica, em que se autoafirma, mas também se indigna, traçando um comparativo com o polêmico, mas consagrado rapper norte-americano que está no nome da canção. Faz algo parecido com isso também em Minotauro de Borges, também abraçando sua instabilidade psicológica.

Cantando o amor

Um dos pontos mais debatidos sobre Bluesman nas redes sociais foi a quantidade das ditas love songs, as canções mais românticas, dentro do projeto. Em Esú, a faixa que mais causou fuzuê foi justamente uma delas, intitulada Te Amo Disgraça e teve quem dissesse que o baiano tentou repetir a temática para o sucesso, mas Baco não enxerga isso. "Elas têm um sentido mais profundo do que apenas uma love song. Eu falo da saúde mental do jovem negro, tento burlar o tapinha nas costas que dão. Um preto falando de amor é muito ofensivo para várias pessoas", conta.

Exu do Blues também faz questão de dar uma forte alma visual para sua obra. A começar pela capa, uma fotografia cedida por João Wainer em que um negro toca guitarra com uma pose bem imponente na frente de um dos pavilhões do extinto Carandiru. Também trouxe junto um filme oficial, com cerca de oito minutos, de mesmo nome do álbum, em que faz um mosaico poético de uma vivência e evolução negra que dialoga com as faixas do álbum. O projeto teve o esqueleto do roteiro feito pelo próprio Baco e direção de Douglas Ratzlaff Bernardt.

 

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