declaração

Fundação Palmares: 'cultura tem de estar de acordo com maioria', diz Bolsonaro

Ele fez a afirmação ao ser questionado sobre declarações do novo presidente da Fundação Palmares, que afirmou que a escravidão foi "benéfica para os descendentes"

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 29/11/2019 às 11:22
Notícia
Foto: Agência Brasil
Ele fez a afirmação ao ser questionado sobre declarações do novo presidente da Fundação Palmares, que afirmou que a escravidão foi "benéfica para os descendentes" - FOTO: Foto: Agência Brasil
Leitura:

O presidente Jair Bolsonaro defendeu que a cultura do País tem de estar "de acordo com a maioria da população, não de acordo com a minoria". Ele fez a afirmação ao ser questionado sobre declarações polêmicas do novo presidente da Fundação Palmares, Sergio Nascimento de Camargo, que afirmou que a escravidão foi "benéfica para os descendentes".

Na entrevista, Bolsonaro voltou a se esquivar sobre declarar se concorda ou não com as bandeiras defendidas pelo novo chefe da fundação e atribuiu ao secretário especial de Cultura, Roberto Alvim, a responsabilidade pela nomeação de Camargo.

"O secretário é um tal de Roberto Alvim. Dei carta branca para ele. A cultura nossa tem de estar de acordo com a maioria da população, não de acordo com a minoria. Ponto final. Ele que decide", disse Bolsonaro.

O presidente afirmou que recebe semanalmente Alvim para despachar. "Só vou responder algo sobre o novo presidente da Palmares depois de ouvi-lo", disse.

'Racismo nutella'

O novo presidente da Fundação Palmares, instituição ligada à Secretaria Especial de Cultura, afirmou em suas redes sociais que o Brasil tem um "racismo nutella". Camargo defendeu a extinção do feriado da Consciência Negra e declarou apoio irrestrito ao presidente Jair Bolsonaro. Camargo também atacou personalidades como a ex-vereadora do Rio Marielle Franco e a atriz Taís Araújo.

A nomeação faz parte de uma série de mudanças promovida por Roberto Alvim. O novo secretário da Cultura defende o engajamento de artistas conservadores em pautas do governo. No final de setembro, quando ainda era diretor da Funarte, Alvim chamou a atriz Fernanda Montenegro de "intocável" e "mentirosa", o que provocou a reação da classe artística.

Bolsonaro lembrou que já foi acusado de racismo. "Eu já fui acusado de racista. Lembra o que o CQC fez comigo?". A acusação foi, segundo Bolsonaro, resultado de uma edição distorcida de uma entrevista concedida por ele ao programa de humor.

"Três anos depois a verdade veio à tona. CQC informou à Polícia Federal que não tinha mais a fita. Foi reutilizada. Aquilo seria um troféu na imprensa. Por que foi reutilizada? Segundo eles porque era uma mentira. Supremo entendeu arquivar o processo", disse.

"Como passei três anos respondendo por racismo. Como passei dois anos respondendo por crime ambiental e foi arquivado. Como tentaram agora me envolver no caso Marielle. O tempo todo assim", reclamou Bolsonaro.

As declarações de Bolsonaro foram dadas em frente ao Palácio da Alvorada. "Deixa eu responder para vocês. Você não vai conduzir a minha resposta. Você não aprendeu ainda?", disse Bolsonaro a um jornalista. A fala do presidente foi acompanhada de aplausos e gritos de seus apoiadores.

Perfis conservadores

As mudanças promovidas pelo secretário de Cultura, Roberto Alvim, em sua pasta acentuaram o perfil mais conservador para a área, o que colocou produtores de conteúdo em alerta.

"Projetos que tratam de assuntos como diversidade cultural ou mesmo que tenham artistas trans terão mais chances de serem vetados com essa nova administração", comentou um poderoso produtor ao jornal O Estado de S. Paulo, sob a promessa de anonimato. "Além da dificuldade em conseguir aprovação para as leis de incentivo, esse mesmo projeto terá dificuldade em obter patrocínio, pois muitas empresas temem associar sua marca a produtos que não agradam ao governo."

O comentário refere-se principalmente à mudança na Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura, órgão que dita as diretrizes gerais dos mecanismos de fomento, como a Lei Rouanet. O novo responsável é Camilo Calandreli, professor e cantor de ópera e um dos fundadores do Simpósio Nacional Conservador de Ribeirão Preto. "Ele é do meio artístico, entende dos problemas da área, mas têm uma visão conservadora, o que deverá refletir na escolha de projetos com conteúdo mais conservador", continua o produtor

Calandreli é um dos nomes anunciados oficialmente nessa quinta-feira, 28, pela Secretaria da Cultura, agora vinculada ao Ministério do Turismo. Todos são mais alinhados com o perfil ideológico cristão e conservador de Alvim que, por sua vez, é coerente com o pensamento do presidente Jair Bolsonaro - antes, era um perfil mais técnico que definia a escolha dos nomes.

Assim, além de Calandreli, outros nomes tomaram posição: Katiane de Fátima Gouvêa é a nova secretária do Audiovisual; o jornalista Sérgio Nascimento de Camargo é o novo presidente da Fundação Palmares, órgão responsável pela promoção da cultura de matriz africana; Janicia Ribeiro Silva, nova secretária de Diversidade Cultural, está ligada a uma empresa chamada Associação Cristã de Homens e Mulheres de Negócios; o doutor na área econômica Reynaldo Campanatti Pereira assume a secretaria da Economia Criativa.

Katiane é membro da Cúpula Conservadora das Américas que já pregou, entre outras questões, a promoção de filmes que destaquem valores patrióticos e de preservação da família - ela também esteve ligada a um documento que incentivou Bolsonaro a extinguir a Agência Nacional do Cinema (Ancine).

Já o novo presidente da Fundação Palmares utilizou as redes sociais para divulgar opiniões polêmicas, como atacar o movimento negro e minimizar o racismo no Brasil, considerado por ele como "nutella": "Racismo real existe nos EUA. A negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda", escreveu Sérgio Camargo, que defendeu ainda a extinção do Dia da Consciência Negra ("É uma vergonha e precisa ser combatido incansavelmente até que perca a pouca relevância que tem .").

Tais comentários repercutiram entre partidos políticos. O PSOL, por exemplo, apresentou uma representação na Procuradoria-Geral da República a fim de solicitar a anulação da nomeação de Camargo. No documento, o partido alega que a nomeação é "absolutamente antijurídica e contrária ao interesse público, uma vez que sua trajetória, historicamente, é radicalmente contrária aos interesses que a Fundação busca defender".

Também contrária à nomeação do jornalista colocou-se a Fraternidade Universalista da Divina Luz Crística, que abriu um abaixo-assinado, na manhã de quinta-feira, 28, pedindo a anulação da nomeação - até o meio-dia, já havia mais de 20 mil assinaturas.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias