CRISE

Falta de liderança explica ruas sem protesto

Protestos contra a corrupção deixaram de existir, apesar da turbulência que vivemos

Saulo Moreira
Saulo Moreira
Publicado em 02/07/2017 às 9:43
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Desde que a delação da JBS veio à tona e atingiu em cheio o presidente Michel Temer (PMDB), uma pergunta se faz presente nas rodas de conversas políticas. Cadê aquelas pessoas que foram às ruas lutar por uma país mais ético e justo? Sem uma liderança que possa catalisar tanta insatisfação, a letargia impera.

Não faz tanto tempo assim. Em março de 2016, quando o governo Dilma Rousseff enfrentava denúncias de corrupção e o País amargava uma crise que resultaria numa retração econômica de 3,6%, tivemos a maior manifestação pública da nossa história.

“O gigante acordou”, bradavam patriotas vestidos com a camisa da Seleção Brasileira. Dilma caiu e Temer assumiu em agosto de 2016.

Infográfico

Crise política: A falta que faz um líder

Na semana passada, fragilizado por denúncias de corrupção, o atual presidente se tornou o primeiro da história do Brasil denunciado por corrupção no exercício do cargo. Apenas 7% da população aprovam sua gestão, segundo o Datafolha.
E o que acontece nas ruas? Praticamente nada. Na última sexta-feira, no Recife, sem a paralisação de rodoviários, o trabalhador foi trabalhar, o estudante foi estudar, o consumidor foi consumir. E tudo seguiu o rumo normal. De protesto, apenas espasmos de sindicatos ligados a servidores públicos. Algo bem distante da greve geral prenunciada nas redes sociais.

Engana-se quem pensa que a explicação é econômica. Em que pese o Brasil, com Temer, ter parado de piorar , não há, ainda, nenhum fator econômico que leve o brasileiro a perceber que a vida melhorou. Tarcísio Patrício de Araújo, professor de economia da UFPE, afirma que a ausência de um líder é o principal fator para o marasmo atual. E se debruça sobre dados do mercado de trabalho para chegar a uma soma preocupante.

Hoje o Brasil tem 13,8 milhões de desempregados, segundo o IBGE. Mas é preciso juntar a este número o contingente de desalentados (quem simplesmente parou de procurar emprego) e as pessoas que, embora desempregadas e sem procurar emprego, dizem que trabalhariam na primeira oportunidade. Considerando as três parcelas, são 26 milhões de brasileiros mergulhados na desesperança.

“Quem tem ânimo para ir para rua?”, questiona Tarcísio. É natural, segundo o professor, que tanta gente sem perspectiva esteja mais preocupada em achar uma ocupação e fugir da violência. Em Pernambuco, vale lembrar, quase 2.500 pessoas foram mortas nos últimos cinco meses, segundo a própria Secretaria de Defesa Social. Mas e quanto à classe média? “Está cansada, aborrecida com a situação”, crava Tarcísio.

Na prática, a classe média, que, historicamente, é o grande indutor das mudanças percebeu que não há mocinhos no jogo. Em 2015 e 2016, quando o PT e Luiz Inácio Lula da Silva, estavam sob bombardeio por causa da corrupção e da má administração do governo Dilma (que colocou o Brasil na recessão), políticos como Aécio Neves, José Serra e Geraldo Alckmin recebiam o apoio de vários setores empresariais e de movimentos organizados, como o Vem para a Rua e o Movimento Brasil Livre (MBL). Hoje, os tucanos são alvos da Lava Jato e os movimentos civis estão calados. “Estar nas ruas não é viver sempre nas ruas. Fomos para a rua quando foi necessário e vamos de novo em agosto próximo”, defende-se Maria Dulce Sampaio, da seção recifense do Vem para a Rua. Na última sexta, o grupo não participou do mini-protesto que se pretendia uma greve geral.

É como se houvesse uma vergonha coletiva. Quem simpatizava com o PT quer distância da estrela vermelha porque, além da frustração, vê o partido envolvido em práticas criminosas que outrora condenava. Quem sempre atacou o PT não quer mais vestir a camisa amarela da Seleção porque percebeu que a corrupção é apartidária.

Professor do Instituto de Ciências Políticas da UnB, Pablo Holmes, a exemplo de Tarcísio Patrício, também observa um certo esgotamento na população. “Agora não existe mais dois grupos distintos, como em 2015. Não há mais aqueles a favor e aqueles contra o impeachment de Dilma. Os interesses dos agentes são diferentes. Há setores, como a Firjan e Fiesp, que apoiam Temer neste momento só por causa das reformas, que eles entendem ser importantes para o País. Há movimentos civis que, mesmo com vergonha, apoiam porque acreditam que uma renúncia ou outro impeachment seria ruim para o Brasil. Cada segmento tem uma pauta”, analisa.

Pablo diz que o governo Temer está caindo pelas tabelas em matéria de aprovação popular, mas destaca o apoio que o presidente tem no Congresso. Trata-se de uma situação bastante diferente daquela vivida pelo governo Dilma, que, inábil politicamente, sempre teve uma base frágil. “Vivemos um quadro esdrúxulo. Eles dizem: ‘vamos usar a impopularidade para fazer o que é necessário fazer.’ Isso não é normal numa democracia porque o político quer vencer as eleições. Ele não quer ser impopular.”

Como exemplo das distorções causadas por este pensamento, Pablo cita o PSDB, principal aliado do governo Temer. “Os tucanos mais jovens, preocupados com sua carreira política, não querem ficar neste governo.” E por que, então, não vãos às ruas para liderar, para pedir mudanças? Fidelidade partidária? Nada. “Simplesmente não querem ser vistos ao lado dos movimentos sociais que defenderam e defendem o PT e Lula”, responde. Eis a complexidade da nossa atual conjuntura.

Organização da base

A economista Tânia Bacelar observa outro fator para justificar a atual ausência da classe médias nas ruas. “Ela se sentiu prejudicada no governo do PT. Teve de compartilhar com o povão serviços e espaços que antes era só dela. O governo Temer tem o apoio das elites econômicas”. Certo, mas então como explicar a ausência do povão nas ruas neste momento? “A esquerda se encantou com o poder e esqueceu da organização de sua base”, analisa.

Sem organização, com vergonha, cansada, frustrada e sem uma liderança política que a conduza, a população brasileira segue sem perceber o quanto a acomodação é nociva.

“Quem aceita o mal sem protestar coopera com ele”, disse Martin Luther King (1929-1968), um dos principais líderes populares da história da humanidade.

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