Crowdfunding

Startups descobrem cada vez mais a vaquinha virtual

Startups com faturamento de até R$ 10 milhões anuais estão descobrindo a plataforma de crowdfunding regulada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM)

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 03/09/2019 às 11:58
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Foto: Divulgação/Hara Fotógrafo
Startups com faturamento de até R$ 10 milhões anuais estão descobrindo a plataforma de crowdfunding regulada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - Foto: Divulgação/Hara Fotógrafo
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Captar investimentos no mercado de capitais não é exclusividade das grandes empresas. Startups com faturamento de até R$ 10 milhões anuais estão descobrindo a plataforma de crowdfunding regulada pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Segundo o superintendente de Desenvolvimento de Mercado da CVM, Antônio Carlos Berwanger CVM, as emissões de ofertas nos dois primeiros meses de 2019 já superaram os valores movimentados em todo o ano passado, de R$ 46 milhões.

“Fechamos no ano passado com mais de 1000 investidores e certamente já ultrapassamos esse número”, disse Berwanger em painel realizado durante o 20º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), realizado nesta terça-feira (2) em São Paulo. Segundo ele, há um interesse crescente de investidores que procuram um maior risco em empresas que têm potencial muito grande de crescimento.

“O número de investidores por oferta chega a 195, num valor de R$ 1 milhão médio por oferta. Foram captados R$ 46 milhões no ano passado e, falando apenas das plataformas mais influentes, elas já bateram esse número nos primeiros dois meses de 2019”, comentou. De acordo com Berwanger, o crowdfunding registrou “recentemente” a primeira oferta que chegou ao valor máximo de R$ 5 milhões, além de casos de sucesso em que empresas que utilizaram da plataforma foram adquiridas por fundos de private equity ou venture capital. “Os investidores saíram com lucro bem significativo”, disse.

Segundo ele, esses casos estimulam o crescimento do mercado e o próximo passo nessa direção seria o redimensionamento do tamanho das ofertas, hoje limitadas a R$ 5 milhões. “Mas isso vai exigir novas regulações” resumiu.

No mesmo painel, a diretora de regulação de Emissores da B3, Flavia Mouta, observou que há um vazio no mercado de capitais para empresas que não são pequenas para entrar no crowdfunding e também nem tão grandes para fazer uma oferta pública de ações tradicional. “Temos regras para ofertas de até R$ 5 milhões e para aquelas acima de R$ 400 milhões, que é o número mágico do mercado para uma empresa abrir capital, mas os números mostram que o mercado de capitais está mais perto do que parece”, comentou.

Mouta registrou que, além das grandes empresas da Bolsa, há um universo de 860 companhias de capital fechado que acessam o mercado de capitais, não por meio de ações, mas emitindo notas comerciais, debêntures e também usando seus recebíveis como lastro para securitização. “Falta dar a mão para elas conseguirem atingir os títulos de equity (participação societária)” afirmou.

Citando uma palestra do vice-presidente de Investimentos do grupo cearense M. Dias Branco, Geraldo Mattos Jr., Flávia Mouta observou que é necessário derrubar a segunda lenda do mercado de capitais, que seria é exclusivo das grandes empresas. “Mattos nos deixou claro que uma empresa familiar e o mercado de capitais não são coisas antagônicas, podem viver em harmonia e ser a mesma pessoa jurídica. Agora, a nossa missão é tentar derrubar a segunda lenda, que mercado de capitais brasileiro é construído exclusivamente para as grandes empresas e que as empresas de menor porte não conseguem acessá-lo.”

SANDBOX

Segundo a CVM, o Crowdfunding de Investimento permitiu a captação de R$ 46.006.340,00 em 2018, um crescimento de mais de 451% em relação aos R$ 8.342.924,00 registrados em 2016, quando não havia regulamentação específica pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Neste período, o número de investidores na modalidade registrou uma alta de, aproximadamente, 716%: de 1.099 para 8.966, enquanto as ofertas fechadas com sucesso evoluíram de 24 para 46. Já o valor médio de captação por oferta passou de R$ 347.621,82 para R$ 1.000.137,83, no mesmo intervalo de tempo.

As regras foram estabelecidas pela Instrução CVM 588. O Crowdfunding de Investimento é uma alternativa que possibilita que empresas com receita anual de até R$ 10 milhões realizem ofertas por meio de financiamento coletivo na internet com dispensa automática de registro de oferta e de emissor.

De acordo com Carlos Berwanger, o crowdfunding, a vaquinha virtual, vem sendo laboratório para CVM, que passou a utilizar na modalidade, por exemplo, o blockchain (tecnologia por trás das bitcoins) para escrituração dos valores mobiliários ofertados pela plataforma. “Foi o grande sandbox informal da CVM”, comparou, para falar das medidas que estão sendo tomadas para ampliar o mercado de capitais às empresas que podem captar menos dos R$ 400 milhões.

“Faltava o elemento da plataforma, que une os emissores ávidos em captar, àqueles investidores que têm perfil em aplicar em empresas de risco maior, mas com grande potencial de crescimento.”

O sandbox permite que uma empresa possa, dentro de uma licença temporária, desempenhar uma atividade regulada pela CVM, como administração de carteiras, consultoria, estruturação, intermediação de de ofertas, entre outras. “A ideia é replicar, testar uma inovação por um período com nosso monitoramento, para ganhar experiência e entender as inovações e riscos que elas trazem para o mercado. Com isso, temos aperfeiçoamento regulatório com a incorporação de inovações”, disse Berwanger.

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