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Novo vazamento indica que Lula relutou em aceitar o cargo de ministro

Diálogos interceptados pela Lava Jato mostram que Lula disse a diferentes interlocutores que só aceitou o cargo após pressão de aliados

JC Online, com informações da Folha de S. Paulo
JC Online, com informações da Folha de S. Paulo
Publicado em 08/09/2019 às 15:00
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Diálogos interceptados pela Lava Jato mostram que Lula disse a diferentes interlocutores que só aceitou o cargo após pressão de aliados - FOTO: Foto: Reprodução
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Registros inéditos de conversas atribuídas ao atual ministro da Justiça, Sergio Moro, e aos procuradores da Lava Jato, indicam que outros diálogos, interceptados pela polícia em 2016 e não divulgados pela Operação, entre os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT), põem em xeque a hipótese adotada por Moro de que Lula pretendia ocupar o cargo de ministro da Casa Civil, à época, a fim de travar as investigações contra ele.

Os diálogos incluem conversas de Lula com políticos, sindicalistas e o então vice-presidente Michel Temer (MDB), e revelam que o líder petista disse a diferentes interlocutores que relutou em aceitar o cargo de ministro, e só aceitou após pressão de aliados. É o que consta o novo capítulo da série ‘Vaza Jato’ de reportagens produzidas pelo site The Intercept Brasil em parceria com a Folha de S. Paulo.

O grampo

No ano de 2016, Sergio Moro tomou uma das decisões mais controversas enquanto juiz da Lava Jato. Após a Polícia Federal grampear uma série de ligações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o atual ministro da Justiça quebrou o sigilo e tornou público um diálogo entre ele e a então presidente, Dilma Rousseff, em que tratavam sobre a posse de Lula como ministro da Casa Civil.

A gravação de 1min35s incendiou a opinião pública e levou o Supremo Tribunal Federal (STF) a anular a posse de Lula pouco antes da abertura do processo de impeachment contra Dilma. A Lava Jato considerou que a nomeação do ex-presidente tinha como objetivo travar as investigações sobre ele e transferir seu caso de Curitiba para o STF. 

Após a divulgação, o então juiz mandou interromper a escuta ao telefone do líder petista, porém, as operadoras de telefonia demoraram a cumprir a ordem e seguiram captando às ligações. O jornal teve acesso aos comentários feitos pelos agentes que monitoravam Lula, com resumos das 22 ligações grampeadas após a ordem de interrupção, em maio de 2016.

A única menção de Lula às investigações em curso foi para orientar seu advogado a dizer aos jornalistas que o procurassem que o único efeito de sua nomeação seria mudar seu caso de jurisdição, pela garantia de foro especial para ministros no Supremo.

Mensagens que os integrantes da força-tarefa trocaram no aplicativo Telegram indicam que um dos policiais responsável pela escuta avisou aos investigadores sobre o telefonema a Dilma e foi instruído a fazer um relatório sobre as conversas.

Em conversas entre Lula e Temer, o petista disse ao emedebista que as manifestações pró-impeachment afetavam todos os partidos, não só o PT. Em outra ligação, após discutir a situação de um aliado de Temer no governo, o ex-presidente afirmou que ambos deveriam atuar como ‘’irmãos de fé’’. 

O material obtido por meio de fonte anônima sugere que o grampo permitiu aos procuradores que soubessem do convite de Dilma para Lula uma semana antes.

Desde o início das gravações, conversas mostram que Lula e seus aliados estavam preocupados com os avanços das investigações e, por temerem que ele fosse preso, buscaram apoio de autoridades do governo e ministros de tribunais superiores.

No dia 9 de março, o agente Rodrigo Prado ouviu Lula confirmar a indicação numa conversa com o ex-ministro Gilberto Carvalho. Prado fala, aos procuradores, que a intenção do petista era ‘nao só por causa da LJ [Lava Jato] mas para salvar o Governo dela [de Dilma]’.

9 de março de 2016:

Rodrigo Prado: Ela ofereceu mesmo pra ele

E ele esta pensando

Talvez aceite

Nao só por causa da LJ [Lava Jato] mas para salvar o Governo dela [de Dilma]

Cai isso numa conversa dele com Gilberto Carvalho

O áudio anexado pela Polícia Federal sugere que Lula tinha dúvidas sobre a aceitação e temia que sua ida para o governo fosse associada a uma tentativa de escapar da operação.

Depois disso, Moro retirou o sigilo das gravações. Após duas horas, a GloboNews noticiou a transcrição conversa entre Lula e Dilma. 

Os procuradores da força-tarefa repercutiram a reportagem no grupo do Telegram. Carlos Fernando Santos Lima escreveu: “Tá na GloboNews”, ao que Deltan Dallagnol respondeu: “Ótimo dia rs”. “Caros, vamos descer a lenha até terça [data prevista para a posse de Lula]”. 

Lula

A defesa de Lula afirmou que os novos vazamentos "expõem as grosseiras ilegalidades praticadas pelo ex-juiz Sergio Moro e pelos procuradores da Lava Jato contra o ex-presidente Lula, contra os seus advogados, e também contra o Supremo Tribunal Federal". Ainda defendeu que os procuradores "selecionaram conversas telefônicas mantidas por Lula, escondendo dos autos e do Supremo Tribunal Federal aquelas que deixavam claro que o ex-presidente aceitou o cargo de Ministro de Estado para ajudar o governo e o país e não para qualquer outra finalidade ligada às investigações da Lava Jato".

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