Violência

Opinião: Só Ágatha não tem culpa por sua trágica morte

Qualquer que seja o autor do crime, ele deve ser encontrado e exemplarmente punido, dentro do que prevê a lei

Felipe Vieira
Felipe Vieira
Publicado em 24/09/2019 às 7:06
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Qualquer que seja o autor do crime, ele deve ser encontrado e exemplarmente punido, dentro do que prevê a lei - FOTO: Foto: Reprodução
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Só a menina Ágatha Félix não tem culpa por sua trágica morte. Abatida por um tiro de fuzil, aos oito anos, no Morro do Alemão (RJ), ela padeceu em meio a um ambiente de guerra que é resultado de ações e omissões dos atores mais diversos – e que, no mais das vezes, acham que o problema não tem a ver com eles.

Primeiro, quem puxou o gatilho. Se foi, como garante a família da garota, um agente do Estado, ou ainda na hipótese de ter sido um traficante (as circunstâncias ainda não foram esclarecidas), trata-se da mão mais visível da tragédia. Qualquer que seja o autor, deve ser encontrado e exemplarmente punido, dentro do que prevê a lei.

O mercado consumidor de drogas é outro evidente culpado. Financiar a engrenagem do tráfico, por mais incômoda que seja a ideia para alguns, é perpetuar os conflitos nos morros, que terminam produzindo Ágathas (seis crianças mortas apenas este ano). A romantização do crime e do criminoso, levada a cabo ao longo das últimas décadas por parcelas de artistas e intelectuais, também ajudou a dar certo verniz de respeitabilidade ao tráfico. Ou quem nunca ouviu, em tom de elogio, algo como “o traficante dá à população o que o Estado não dá”? 

A omissão do poder público fluminense com a criminalidade, por sua vez, tem história. E o episódio decisivo foi a política adotada pelo então governador Leonel Brizola no início dos anos 1980, com o famoso lema “no meu governo, polícia não sobe o morro”. A ideia era proibir abusos das forças de segurança, e terminou dando às então recém criadas facções a providencial tranquilidade para se consolidarem nas comunidades mais carentes. De lá para cá, sob o olhar atônito e ações ineficazes de outros sete governadores (Moreira Franco, Marcello Alencar, Anthony Garotinho, Benedita da Silva, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão), esses grupos criminosos e seus derivados – as milícias – viraram entidades tão cariocas quanto o desenho do calçadão da Praia de Copacabana.

Nos dias de hoje, o endosso – com ar canastrão de justiceiro de filme policial americano – do atual mandatário, Wilson Witzel, à lei do abate é outro ingrediente da tragédia. Na falta de uma política ampla para a segurança, o discurso raso do “tiro na cabecinha” de quem andar de fuzil parece ser a pedra fundamental da gestão.

A política também retroalimenta o monstro. Em um infeliz tuíte, na tarde de domingo, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), aproveitou a tragédia de Ágatha Félix para cutucar o pacote anticrime ministro da Justiça, Sergio Moro. Nas redes sociais, o cadáver da menina serviu para colocar combustível no interminável e improdutivo Fla-Flu que opõe as alas mais militantes da esquerda e da direita.

Ágatha não volta. Mas a assunção das culpas de cada um pela tragédia diária do Rio de Janeiro é o ponto de partida para que casos como o dela não se repitam.

*Felipe Vieira é editor executivo do JC e setorista de segurança pública

Números da violência no Brasil

Morte por agente do Estado

2017 - 5.179
2018 - 6.220

Policiais (civis e militares) mortos em serviço

2017 - 373
2018 - 343

Rio de Janeiro

Morte por agente do Estado

2016 - 925
2017 - 1.127
2018 - 1.534
2019* - 1.249

* De janeiro a agosto de 2019. Em comparação com o mesmo período do ano passado há uma um crescimento de 16,2%. Em 2018, entre janeiro e agosto, foram 1.075 mortes por agente do Estado no Rio de Janeiro. Morte de Ágatha ainda não está nesta estatística por ter ocorrido em setembro.

Policiais (civis e militares) mortos em serviço

2016 - 42
2017 - 35
2018 - 32
2019** - 45

** De janeiro a agosto de 2019. Em 2018, entre janeiro e agosto, foram 21 mortes de policiais no Rio de Janeiro. Dado não computa as mortes já confirmadas em setembro.

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