Conflito

No leste da Ucrânia, sobreviver é mais importante que ser ou não pró-russo

"Era favorável às ideias pró-europeias durante a contestação de Kiev e sempre fui uma patriota ucraniana. Mas hoje já não me importo com nada, dá no mesmo me tornar russa ou ser ucraniana, desde que a guerra termine", diz um habitante da cidade de Donetsk

Da AFP
Da AFP
Publicado em 11/02/2015 às 13:17
Foto: AFP
"Era favorável às ideias pró-europeias durante a contestação de Kiev e sempre fui uma patriota ucraniana. Mas hoje já não me importo com nada, dá no mesmo me tornar russa ou ser ucraniana, desde que a guerra termine", diz um habitante da cidade de Donetsk - FOTO: Foto: AFP
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"Pró-ucranianos ou separatistas, dá no mesmo, a única coisa que eu quero é que exista novamente a paz", afirma uma médica do hospital Dokuchaivsk, no leste da Ucrânia, sob controle rebelde, esgotada por meses de bombardeios.

Irina não quer fornecer seu sobrenome. "Era favorável às ideias pró-europeias durante a contestação de Kiev e sempre fui uma patriota ucraniana. Mas hoje já não me importo com nada, dá no mesmo me tornar russa ou ser ucraniana, desde que a guerra termine", explica esta habitante da República Popular de Donetsk (DNR), dirigida por separatistas pró-russos.

Irina trabalha no hospital desta cidade de 24.000 habitantes situada 40 km ao sul de Donetsk. 

A maternidade precisou ser evacuada e fechou após a queda de foguetes Grad no pátio do hospital no último sábado, que lançaram pelos ares os vidros ao redor. "Havia cinco mulheres naquele momento no edifício e um bebê", conta Irina mostrando as janelas cujos vidros foram substituídos por plásticos.

Dokuchaivsk ficou na linha de frente e as primeiras posições ucranianas encontram-se agora a uma dezena de quilômetros dali.

"Os bombardeios começaram no outono (do hemisfério norte) e se intensificaram desde janeiro. É a terceira vez que nosso hospital é atingido por morteiros", afirma o médico chefe do hospital, Sergei Petrovich.

Sessenta doentes seguem no hospital. "Recebemos ajuda humanitária, sobretudo da Médicos Sem Fronteiras e da Cruz Vermelha Internacional. Também temos dois geradores no departamento de cirurgia", acrescenta.

Vários jornalistas da AFP no local ouviram na terça-feira vários disparos de forças ucranianas com lança-foguetes múltiplos Grad.

"Temos um porão grande que pode servir de refúgio, mas não nos avisam quando os morteiros vão cair", protesta Sergei Petrovich.

Quase todos os dias

Nadejda Jdanova, de 76 anos, é uma das pacientes que ficou no hospital. "Chegou em 5 de fevereiro, depois de ter sido ferida em um bombardeio", explica o médico.

"Minha casa ficou completamente destruída. Ouvi um enorme ruído e depois não me lembro de nada", conta a idosa, que não pode andar.

Perto do hospital, Vladimir Ivanovich, de 47 anos, instala lonas de plástico nas janelas.

"Disparam contra nós quase todos os dias. Quando podemos, nos refugiamos no porão, mas nem sempre temos tempo", conta Vladimir. Todas as janelas de seu edifício de quatro andares, no centro de Dokuchaivsk, estilhaçaram pelos morteiros lançados no sábado passado.

"Felizmente não houve registro de mortos. Isso também se deve ao fato de não ter quase ninguém no edifício. Muitos moradores foram embora após os bombardeios do fim de janeiro que deixaram mortos em nosso bairro", acrescenta.

"Resta cerca de um terço da população em comparação à existente antes da guerra em Dokuchaivsk. Os outros fugiram da cidade", afirma Irina.

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