COLUNA ENEM E EDUCAÇÃO

Com adiamento das aulas presenciais, desafio é manter ensino remoto com qualidade nas escolas públicas

Governo de Pernambuco adiou a autorização para retorno das aulas presenciais em escolas municipais e estaduais da educação infantil e ensino fundamental para a partir de 15 de março

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 28/02/2021 às 12:24
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YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
Márcia Lima com os filhos Lucas (E) e Lázaro, alunos da rede municipal de Olinda. Diariamente ela recebe as tarefas dos filhos pelo WhatsApp - FOTO: YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Depois de quase um ano fisicamente longe das escolas, fechadas para os alunos desde 18 de março do ano passado por causa da covid-19, 1,1 milhão de crianças e adolescentes da educação infantil e do ensino fundamental de colégios públicos de Pernambuco poderiam voltar para aulas presenciais a partir desta segunda-feira (1°), por etapas. Mas diante do aumento de casos da doença - já são quase 300 mil pessoas infectadas e cerca de 11 mil mortes no Estado - o governo estadual adiou a liberação para o dia 15 de março. Com perspectiva de recrudescimento da pandemia, o que pode postergar ainda mais o retorno para as escolas, cresce o desafio para gestores públicos assegurarem meios adequados para que estudantes e docentes mantenham o ensino remoto com qualidade.

“As condições de equipamentos e conectividade para professores e alunos, na escola e em suas casas, são passos importantes para que possamos reduzir as desigualdades educacionais que já existiam antes da pandemia e que aumentaram no ano passado”, destaca a gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social, Patrícia Mota Guedes.

“Tantos meses de afastamento do ambiente escolar deixarão marcas no desenvolvimento dos alunos, com a intensificação de problemas antigos, como a distorção idade-série, o abandono e a evasão, especialmente entre os mais vulneráveis”, observa. Entre as estratégias para diminuir esses problemas, ela cita busca ativa dos alunos, avaliação diagnóstica do aprendizado e mais apoio aos professores.

Pesquisa Datafolha “Educação não presencial na perspectiva dos estudantes e suas famílias”, encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Imaginable Futures, realizada com 1.015 pais de estudantes da rede pública entre novembro e dezembro de 2020, revelou que 80% deles temem que os filhos fiquem para trás por terem mais dificuldades para estudar em casa. A taxa dos que receiam que as crianças e adolescentes desistam da escola chega a 35%.

Pelo novo cronograma anunciado pelo governo estadual semana passada, as turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental podem voltar para escola no dia 15. Do 1º ao 5º ano será a partir do dia 22. Para educação infantil é dia 29.

No Recife, o ano letivo começa quinta-feira (04) de forma remota e ainda sem definição, por parte da prefeitura, se vai seguir o calendário liberado pelo Estado para as atividades presenciais. Na capital há, na rede municipal, 95 mil alunos em 319 creches e escolas.

Outras sete cidades do Grande Recife não planejam aulas presenciais em março: Olinda, Paulista, Igarassu, Itamaracá, Abreu e Lima, Araçoiaba e Itapissuma. “Nós, secretários de Educação dessas sete cidades, nos reunimos e decidimos que não teremos aulas presenciais em março. Estamos organizando a estrutura física das escolas, comprando máscaras e outros insumos", diz o secretário de Educação de Itapissuma e articulador regional da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), Jesanias Rodrigues.

"Mas foi consenso que o momento da pandemia não é seguro ainda para receber alunos e professores nas escolas”, complementa. Esses municípios definiram um cronograma para voltar em abril, por etapas, com novas turmas a cada duas semanas. Mas vai depender de nova avaliação do cenário epidemiológico.

SEM CONEXÃO

A baixa conectividade dos alunos está entre os desafios para as redes públicas. Para quem não tem internet nem equipamentos, a saída é receber material impresso, entregue aos pais. Em Olinda, a dona de casa Márcia Lima, 36 anos, reside na zona rural de Ouro Preto. Diariamente os dois filhos, Lázaro, 6, do 2º ano do ensino fundamental, e Lucas, 8, do 4º ano, alunos da Escola Municipal Izaulina de Castro e Silva, recebem as atividades enviadas para o celular dela, pelo WhatsApp. “Tem vezes que a internet cai. E o celular fica descarregando. Mas tem dado certo, fazem as tarefas e estão aprendendo”, conta Márcia.

Segundo o secretário de Educação de Olinda, Paulo Roberto Souza, não há verbas para apoiar os estudantes, mas os professores da rede municipal terão pacote de dados móveis bancado pela prefeitura. Outra estratégia para o ensino remoto será ampliar as aulas pela televisão. “Já havia transmissão de atividades pela TV Alepe, 30 minutos por dia. Conseguimos ampliar com a TV Nova e por duas horas diárias. Temos também duas plataformas digitais”, explica.

A rede municipal de Olinda tem 26.400 alunos, 1.800 docentes e 73 escolas. Ano passado 67% dos alunos conseguiram realizar atividades pelo celular ou pelo computador e 33% com material impresso. “O engajamento das famílias foi muito bom”, assegura a diretora da Escola de Base Rural Margarida Alves, Roberta Barros.

Para reconhecer o empenho dos pais, o colégio entregou, semana passada, certificados para pais e mães que mais se destacaram no acompanhamento dos filhos. Mãe de Luiz Eduardo, 9, do 4º ano, Karina Souza, 25, foi uma das que recebeu o diploma.

“Ele não deixou nenhum dia de fazer as tarefas ano passado. Eu chegava à noite do trabalho e o ajudava. Na maioria das vezes mandava para a professora tarde da noite”, conta Karina, que trabalha com o marido comprando e vendendo material reciclável.

DOCENTES

Professora de português nas rede estadual e municipal do Cabo de Santo Agostinho, Fátima Alves, 48, adquiriu um celular com mais espaço de memória para receber diariamente as tarefas enviadas pelos alunos. Ela tem quatro turmas do 6º ao 9º ano na Escola Estadual Joaquim Amazonas (em Camaragibe) e quatro na Escola Municipal Professor Manoel Davi (em Ponte dos Carvalhos, no Cabo).

“Divido o computador com meu filho caçula, que também tem aulas virtuais. Acho que faltou suporte tecnológico das Secretarias de Educação para os professores em 2020. Eu não tive dificuldade porque na minha rotina em sala de aula o digital fazia parte antes da pandemia. Mas não houve apoio para equipamentos ou internet”, diz Fátima.

Segundo o secretário executivo de Educação de Pernambuco, João Charamba, o governo planeja uma ação para apoiar os docentes com equipamentos que deve ser lançado até junho. “Sabemos da necessidade dos professores e estamos empenhados em dotá-los com condições para melhorarem as aulas remotas”, destaca Charamba, sem adiantar detalhes.

Matrículas na rede pública - Pernambuco

Educação infantil e creches

2.262 alunos nas escolas estaduais
206.361 alunos nas redes municipais
208.623 é o total de estudantes nesta etapa

Anos iniciais - ensino fundamental

7.081 estudantes na rede estadual
482.416 estudantes nas escolas municipais
489.497 é o total de alunos nessa etapa

Anos finais - ensino fundamental

135.905 alunos nos colégios estaduais
301.083 estudantes na rede municipal
436.988 é o total de matrículas nessa etapa

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