COLUNA ENEM E EDUCAÇÃO

Educação pós-pandemia: combate à evasão escolar e melhorias na aprendizagem na lista de prioridades

Trazer de volta o estudante que abandonou o colégio e proporcionar mecanismos que recuperem o que não foi possível aprender no ensino remoto. Esses são dois problemas que gestores e professores têm enfrentado nesta reta final de ano letivo

Margarida Azevedo
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Margarida Azevedo
Publicado em 29/10/2021 às 6:00
BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Professores da rede estadual de Pernambuco terão piso salarial reajustado - FOTO: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Stheffany Vitória, 11 anos, aluna do 5º ano do ensino fundamental e Pedro Lucas Santos, 17, estudante do 3º ano do ensino médio, não estudaram no primeiro semestre deste ano. Ela porque não tinha equipamento para acompanhar as aulas remotas. Ele por ter trocado a escola pelo trabalho. Mais de 5 milhões de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos estavam fora da escola ou sem atividades escolares no Brasil, segundo levantamento do Unicef, no final do ano passado. Trazer de volta o estudante que abandonou o colégio durante a pandemia de covid-19 e proporcionar mecanismos que recuperem o que não foi possível aprender no ensino remoto. Esses são dois problemas que gestores e professores, sobretudo de escolas públicas, têm enfrentado nesta reta final de ano letivo. As ações de combate à evasão e melhorias na aprendizagem estão na lista de prioridades e devem continuar no planejamento do próximo ano escolar.

Em Pernambuco, de acordo com o estudo do Unicef Cenário da Exclusão Escolar no Brasil, divulgado em abril, 13% de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos não frequentaram a escola em 2020, o que significa 230.500 pernambucanos. Na rede estadual o índice de evasão no ensino médio, considerado o mais baixo do Brasil, 1,5%, triplicou e chegou a 4,5%. Na rede municipal de Recife, a Secretaria de Educação informou não dispor desse dado. Nas escolas privadas, o sindicato patronal não considera evasão, mas afirma que percebeu migração de alunos para colégios com mensalidades menores ou saída para a rede pública.

"Só tem o celular do meu padrasto e ele saía pra trabalhar às 5h e voltava à noite. Muitas vezes o celular estava descarregado. Então eu não fazia as tarefas. Às vezes chorei porque queria voltar a estudar, sonhei que estava na escola. Pedi muito a Deus para voltar, estava com saudade dos meus colegas", conta Stheffany, aluna da Escola Municipal Norma Coelho, que fica em Peixinhos, Olinda, no Grande Recife. A menina só voltou a estudar quando as escolas olidenses reabriram, em agosto passado. "Fiquei muito contente quando ligaram para minha mãe. Arrumei logo a bolsa. Na escola é melhor, a gente presta mais atenção", afirma a estudante.

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
SAUDADE Stheffany Vitória sentiu falta da rotina escolar - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

Para encontrar os alunos que deixaram de acompanhar as atividades remotas ou presenciais - um índice de 30% hoje na rede municipal de Olinda - o diretor da escola, Francisco Oliveira, contou com apoio do Conselho Tutelar, líderes comunitários e religiosos e rádios comunitárias. Outra estratégia foi usar as redes sociais. "Pedimos ajuda a estabelecimentos do bairro para divulgar, no Instagram, a necessidade dos alunos voltarem para escola", explica Francisco. De 580 alunos, ele identificou 160 que deixaram de estudar. Até o final de setembro tinha resgatado 80.

DRAMA SOCIAL

"O quadro é dramático. Antes da pandemia o grande desafio da educação brasileira era a questão da baixa aprendizagem, principalmente nos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio. A desigualdade também era muito grande. Com a pandemia, essa desigualdade ficou escancarada. Crianças e jovens que estudam em escolas particulares com duas, três semanas já estavam tendo atividades escolares, na maioria dos casos. Enquanto nos colégios públicos até hoje, passados mais de três semestres letivos, há milhões de estudantes que não tiveram nenhuma atividade", observa o professor pernambucano Mozart Ramos, membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e titular da cátedra Sérgio Henrique Ferreira do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP).

"As primeiras avaliações diagnósticas, como a de São Paulo, mostraram que no 5º ano do ensino fundamental os alunos tiveram um retrocesso em português de 10 anos atrás, chegando, portanto, a resultados de 2011. Em matemática foi pior. Uma volta a indicadores de 2007, ou seja, de 14 anos atrás", explica Mozart.

Um outro estudo, Perda de aprendizagem na pandemia, realizado pelo Instituto Unibanco e o Insper, a partir de evidências nacionais e internacionais, revela o tamanho do desafio. Ao estimar a perda da aprendizagem provocada pela pandemia entre estudantes das redes estaduais que vão concluir o ensino médio no Brasil em 2021, a pesquisa constatou que eles iniciaram este ano com proficiência em matemática 10 pontos abaixo do que iriam alcançar caso não tivessem tido a necessidade de trocar o ensino presencial para o remoto. Em português, a perda estimada foi de 9 pontos.

"A pandemia provocou, na educação, um abismo muito grande para baixo no aprendizado, aumento da desigualdade e perspectiva muito forte de abandono escolar. Se nada for feito de maneira eficiente e eficaz isso será um desastre social", destaca Mozart. Ele defende que as redes organizem seus planejamentos considerando o triênio 2020, 2021 e 2022 e observando a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

VÍNCULO

"Garantir a aprendizagem é importante, mas sabemos que a defasagem vai existir. Acho que o mais urgente é resgatar esse aluno que abandonou a escola, não deixar que ele perca o vínculo. Muitos saíram porque necessitam trabalhar. Mas tem aqueles que não enxergam o papel da educação em suas vidas. É nesses que precisamos focar", diz a diretora da Escola Erem Escritor Paulo Cavalcanti, Patrícia Mesquita. "Ouvi de um adolescente de 15 anos que ele ganharia mais dinheiro sendo influencer digital do que estudando. Nosso desafio é sensibilizar esses alunos, principalmente porque eles vivem na periferia, onde a realidade social é mais difícil", conta Patrícia.

O colégio que ela dirige fica em Rio Doce, Olinda, no Grande Recife. É lá que Pedro Lucas estuda. De um universo de 256 alunos do 9º ano do fundamental ao 3º ano do ensino médio, 50 sumiram no início do ano. De porta em porta, telefonando, buscando, Patrícia e sua equipe já recuperaram 33. O trabalho de busca ativa virou uma ação estadual. Duas semanas atrás a Secretaria de Educação de Pernambuco lançou o Programa Monitoria PE cujo foco é justamente trazer os estudantes de volta para escola e investir nas lacunas de aprendizagem em português e matemática. Dos cerca de 544 mil discentes matriculados na rede estadual, cerca de 9 mil abandonaram os estudos.

"A evasão de 4,5% é ainda muito elevada quando comparamos com a média histórica, que era 1,5%. Uma das consequências mais nefastas da pandemia é o desestímulo dos alunos. É importante a gente conscientizar os estudantes que é preciso retornar sim às salas de aula", ressalta o secretário de Educação de Pernambuco, Marcelo Barros. No Monitoria PE, 7.128 alunos dos 9º anos do ensino fundamental e do 3º ano do ensino médio estão recebendo R$ 200 por mês para ajudar os colegas a aprenderem assuntos de português e matemática. Para ir atrás daqueles que abandonaram a escola há 237 monitores que recebem bolsas de R$ 800.

TRABALHO

Pedro desistiu da escola porque preferiu trabalhar. O pai é porteiro e a mãe, empregada doméstica. "Fiquei desmotivado por causa da pandemia, mas acabei o 2º ano. Só que este ano perdi meu celular, então não tinha como acompanhar as aulas remotas. E arrumei um emprego num lava jato. Só voltei agora em agosto porque os professores insistiram", diz Pedro, que também optou por não participar do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). A avaliação, porta de entrada para o ingresso em cursos de graduações ofertados em mais de cem universidades públicas, teve o menor número de inscritos desde 2005. Estão inscritos 3,1 milhões de candidatos, sendo 178.777 em Pernambuco.

"O Brasil não pode se dar ao luxo de perder jovens hoje. Antes da pandemia, 500 mil deles abandonavam o ensino médio por ano, o que dá mais ou menos um estudante deixando a escola por minuto. Isso representa perda só na educação na ordem de 3,5 bilhões de reais", diz Mozart. Uma das saídas para minimizar as lacunas de aprendizagem é investir em turnos escolares extra. Pernambuco, nesse sentido, tem uma vantagem pois possui a maior rede de colégios integrais no ensino médio entre as redes estaduais. São 470 escolas onde estudam 197 mil alunos (61% do total de estudantes do ensino médio estadual).

"A maioria das escolas brasileiras, mais de 80%, são de tempo parcial. Para suprir déficits, através de um planejamento pedagógico, as escolas podem se organizar para ter o que estou chamando de aluno em tempo integral. Num turno ele teria aula presencial e no outro atividades que podem ser síncronas ou assíncronas", sugere Mozart.

Opinião compartilhada pelo secretário de Educação do Recife, Fred Amancio. "Mesmo com a retomada total das aulas presenciais, vamos precisar de atividades extras para fazer a recuperação de aprendizagem. Por isso, toda estrutura de transmissão de aulas pela TV ou pela internet será importante no pós pandemia para permitir um trabalho de reforço escolar para os estudantes", observa Fred.

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