Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Governo entra em modo desespero ao achar que poderia segurar preços até a eleição

Não é uma questão de torcer contra. É se curvar à realidade dos fatos de classe mundial

Fernando Castilho
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Publicado em 17/06/2022 às 10:45 | Atualizado em 17/06/2022 às 12:09
Foto: André Nery / JC Imagem
O Governo Bolsonaro pressiona para que a Petrobras não aumente os preços dos combustíveis. - FOTO: Foto: André Nery / JC Imagem
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Qualquer pessoa razoavelmente informada sabe que até outubro, a força da inflação vai eliminar parte do benefício concedido pelo Congresso eliminando a cobrança de ICMS dos combustíveis. E, portanto, que o impacto nos preços será menor com os reajustes da Petrobras. E ainda faltam 107 dias para a eleição.

Então, quando a enchente da inflação chegar no posto da esquina, o Governo vai ver que jogou água e energia fora. Não é uma questão de torcer contra. É se curvar à realidade dos fatos de classe mundial. E tentar soluções que reduzam o impacto na ponta, como os demais países estão fazendo.

As reações do governo ao reajuste anunciado nesta sexta-feira (17) são um bom exemplo desse comportamento. A Petrobras anunciou reajuste a partir deste sábado (18): a gasolina passará a custar R$ 4,06 o litro nas refinarias da estatal, um aumento de 5,2%. O diesel, há 39 dias sem aumento, passou a custar R$ 5,61 o litro; alta de 14,2%. 

Mas dentro do Governo Bolsonaro tem muita gente que acredita que pode tudo, inclusive, revogar a lei da gravidade. Ao ignorar a pressão dos preços internacionais do barril do petróleo, desrespeitou até mesmo Isaac Newton.

O presidente da Câmara, Arthur Lira, está no grupo. O telefonema dele ao presidente da Petrobras foi num tom que nem mesmo Jair Bolsonaro se atreveu.

Num telefonema no final da noite de ontem, ele elencou três possíveis consequências do reajuste, as mesmas que, logo depois, ele levaria aos líderes dos partidos num grupo de WhatsApp:

  • Reavaliação da política de preços da Petrobras por parte da Câmara;
  • Uma lei para dobrar a tributação sobre os lucros da empresa;
  • E a abertura de uma CPI para apurar a gestão da atual diretoria da Petrobras. Lira considera temerária a decisão de hoje de reajuste. Avalia que cria instabilidade.

Conversa. Ele sabe que isso não tem o efeito na bomba, e a Petrobras iria mesmo reajustar os preços. Mas ele ameaçou. Embora, neste final de semana, esteja mais preocupado com as festas de São João em sua querida Alagoas.

Mas o governo entrou numa realidade paralela. Ele esquece da alta no câmbio e nos preços de referência do óleo diesel e da gasolina no mercado internacional em relação ao fechamento do dia anterior.

Na verdade, os cenários das defasagens, tanto para gasolina como para o óleo diesel, afastaram-se muito da paridade, e isso, hoje, já inviabiliza as operações de importação. Pelas contas dos importadores, até o aumento anunciado nesta sexta-feira (17), havia uma defasagem média de -21% no óleo diesel e de -13% para a gasolina.

Então, se não reajustasse agora, o que aconteceria daqui a três meses? Isso já aconteceu em 2014, no Governo Dilma Rousseff, que depois de ganhar a (re)eleição viu os preços dos combustíveis explodirem.

Na engenharia hidráulica existem algumas leis que não podem, jamais, serem desrespeitadas. Uma delas é que toda barragem tem que ter vertedouro para que a enchente do rio não leve o paredão junto. Tudo muito bem calculado, embora para um leigo, seja só um lugar para a água escorrer.

Não é. E a lei serve para a inflação quando ela vira torrente. Não dá para represar preço porque ele vai acumulando e, se atrasa muito, ameaça o vertedouro e a própria barragem. Até porque, como diz a sabedoria popular, "água de morro abaixo, ninguém segura".

Infelizmente chegou a hora de “sangrar” a barragem dos preços dos combustíveis, usando o vertedouro corretamente, e ajustar os preços à realidade global para preservar a barragem da economia.

O Governo teve a chance de desviar boa parte da água, dissipando a energia por benefícios a quem, de fato, precisa e sofre com a inflação dos combustíveis. Poderia adotar medidas diretas para as populações mais pobres.

Tipo ajuda maior no botijão de gás, aumentar o números de pessoas no CadÚnico que passariam a receber ajuda financeira para comprar comida. E até mesmo ajudar o pessoal de aplicativo, taxista e caminhoneiro autônomo com vale diesel.

Mas optou por deixar a água subir para liberar benefício dos preços, via ICMS, beneficiando a quem não precisa.

Quando o governo retira o ICMS dos estados, o preço pode baixar para todo mundo. Vai do motorista de aplicativo e o carro do ovo ao dono de carro de luxo. E como quem tem carro de luxo bota mais gasolina, o beneficio é para quem tem maior renda.

Na verdade, Bolsonaro é um Robin Hood ao contrário: ele retira dos estados para dar a quem tem renda para pagar mais. O que esperar de um presidente que, pela manhã, dispara um post no Twitter dizendo: “A Petrobras pode mergulhar o Brasil num caos. Seu presidente, diretores e conselheiros bem sabem do que aconteceu com a greve dos caminhoneiros em 2018, e as consequências nefastas para a economia do Brasil e a vida do nosso povo.”?

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