VIOLÊNCIA

Dione, Ana, Emelly e Rosana: quem são as vítimas de feminicídio em Pernambuco

Em nove meses, 67 mulheres foram assassinadas pelos homens com quem tiveram alguma relação, apontou a polícia. Houve aumento de 24,1% nos casos em comparação a 2020

Raphael Guerra
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Raphael Guerra
Publicado em 19/10/2021 às 6:30 | Atualizado em 19/10/2021 às 7:37
DAY SANTOS/JC IMAGEM
VÍTIMA Dione Gomes foi assassinada e teve o corpo jogado no rio - FOTO: DAY SANTOS/JC IMAGEM
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Dione Gomes, Ana Victória, Emelly, Rosana... A triste lista não para de crescer. Ao todo, 67 mulheres foram vítimas de feminicídio em Pernambuco nos nove primeiros meses deste ano, revelam estatísticas da Secretaria de Defesa Social (SDS). São mulheres que, mesmo algumas vezes em relações conturbadas, acreditavam que poderiam manter uma relação saudável e construir uma família. Mas, aos poucos, as histórias foram tomando rumos diferentes. Começou com breves discussões, seguiu com ameaças. Em alguns casos, vieram as agressões. Em outros, sem os primeiros sinais, já resultaram em mortes. Nessa escalada da violência, o Estado registrou um aumento de 24,1% nos casos de feminicídio se comparado com o mesmo período de 2020, quando 54 mulheres foram vítimas. A Polícia Civil não se pronunciou sobre esse resultado elevado. 

Na avaliação da secretária estadual da Mulher, Ana Elisa Sobreira, a pandemia da covid-19 contribuiu para o aumento dos casos. "Esse aumento ainda é reflexo da pandemia, porque o agressor passou mais tempo de convívio com a vítima. Muitas perderam emprego ou deixaram de trabalhar para cuidar dos filhos. Com medo de procurarem ajuda, as mulheres acabaram mortas", diz a secretária, que também é delegada.

"Agora, estamos no processo de retomada. Por isso estamos com um projeto de qualificação das mulheres, para garantir a autonomia financeira delas, para que elas entrem no mercado de trabalho e possam sair desse ciclo de violência. Muitas têm medo de não ter como se sustentar", explica Ana Elisa. O projeto deve ser lançado até o final do ano, garante a secretária.

Mesmo com a relação conturbada, segundo amigos e familiares, a manicure Dione Gomes, 40 anos, mantinha o relacionamento com Maurício Andrade, 43. No dia 03 de janeiro deste ano, à noite, ela saiu de casa para encontrá-lo. Nunca mais foi vista. Teve o corpo encontrado, após dias de buscas, no Rio Tejipió, Zona Oeste do Recife. O namorado foi preso e aguarda julgamento.

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EMELLY NAYANE DA SILVA RIBEIRO, 24 anos, foi estrangulada na residência do ex-marido, em Paulista, no Grande Recife, em fevereiro. O acusado, Lívio Quirino de Oliveira Neto, foi preso e aguarda julgamento - REPRODUÇÃO/TV JORNAL

A estudante de odontologia Emelly Nayane, 24 anos, havia colocado um ponto final na relação. Mas o ex-companheiro não aceitava. No dia 22 de fevereiro deste ano ela foi chamada à casa dele, em Paulista, no Grande Recife. Ele teria dito que estava doente. No mesmo dia, a estudante foi retirada da residência dele praticamente morta, com sinais de estrangulamento. Lívio Quirino disse não ter praticado crime algum, mas a polícia, após investigações, garantiu não ter dúvidas: tratava-se de um feminicídio.

Questionada pela coluna Ronda JC, a SDS não informou quantas das 67 investigações de feminicídios foram concluídas pela polícia.

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ESTATISTICAS FEMINICIDIO WEB - ARTES/JC

IMPORTÂNCIA DA DENÚNCIA

"Nos primeiros indícios, as mulheres precisam registrar o boletim de ocorrência. Infelizmente, muitas esperam o mal maior para procurar ajuda. Sabemos que a maioria das vítimas dos feminicídios nunca procurou apoio do Estado. Elas precisam entender que não estão sozinhas. E que contam com centros de referência, com apoio psicológico e jurídico", pontua Ana Elisa Sobreira. O número da Ouvidoria da Secretaria da Mulher é 0800-281-8187. A ligação é gratuita.

Relembre o especial Uma por Uma, publicado ao longo de 2018 pelo JC

MAIS HISTÓRIAS

A empresária Ana Victória Cavalcanti, 29 anos, se apaixonou logo após conhecer o representante comercial Murilo Gomes. Com dois meses de namoro, passaram a morar juntos no apartamento dele, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife. Mas conflitos surgiram e a relação começou a desandar. Na madrugada de 7 de agosto deste ano, vizinhos perceberam a fumaça entrando pelas janelas. Acionaram o Corpo de Bombeiros, que apagou as chamas e encontrou os corpos do casal carbonizados. Investigações concluíram que Murilo matou a namorada a facadas, enquanto ela dormia, e depois tocou fogo no local.

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ANA VICTÓRIA CAVALCANTI, 29 anos, foi morta a facadas e teve o quarto queimado no apartamento onde morava com o namorado, Murilo Gomes, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, em agosto. Ele se matou em seguida - REPRODUÇÃO

Noiva de José Fernandes Nascimento, a estudante de gastronomia Rosana Nascimento Nonato decidiu encerrar o difícil relacionamento pouco tempo antes de escolher o vestido que iria se casar. Mas ele não aceitava. Em 1º de setembro deste ano, o corpo da estudante foi encontrado no canal Lava Tripas, Zona Norte do Recife. Para a polícia, o ex-noivo foi o culpado. Ele foi preso, denunciado pelo Ministério Público e aguarda julgamento.

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ROSANA NASCIMENTO NONATO, 46 anos, foi morta e teve o corpo jogado no canal Lava Tripas, Zona Norte do Recife, em setembro. O ex-noivo, José Fernandes Nascimento, foi preso e aguarda julgamento - REPRODUÇÃO

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VÍTIMA Perícia apontou que Emelly foi morta por esganadura - FOTO:REPRODUÇÃO/TV JORNAL
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ESTATISTICAS FEMINICIDIO WEB - FOTO:ARTES/JC
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ANA VICTÓRIA CAVALCANTI, 29 anos, foi morta a facadas e teve o quarto queimado no apartamento onde morava com o namorado, Murilo Gomes, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, em agosto. Ele se matou em seguida - FOTO:REPRODUÇÃO
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ROSANA NASCIMENTO NONATO, 46 anos, foi morta e teve o corpo jogado no canal Lava Tripas, Zona Norte do Recife, em setembro. O ex-noivo, José Fernandes Nascimento, foi preso e aguarda julgamento - FOTO:REPRODUÇÃO

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