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Coronavírus: "Pernambuco tem que parar; tem que fechar tudo mesmo", alerta médica epidemiologista

Pesquisadora Ana Maria de Brito, da Fiocruz Pernambuco, é entrevistada por Cinthya Leite sobre o novo coronavírus e traça um panorama profundo de uma pandemia sem precedentes na história da humanidade

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 20/03/2020 às 22:55
Entrevista
Divulgação
Médica epidemiologista, Ana Maria de Brito é pesquisadora da Fiocruz Pernambuco e tem pós-doutorado em Epidemiologia pela Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA) - FOTO: Divulgação
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Médica epidemiologista, a pesquisadora Ana Maria de Brito, da Fiocruz Pernambuco, 66 anos, já trabalhou no enfrentamento de diversas epidemias ao longo de 42 anos de profissão. Sobre a pandemia do novo coronavírus, ela conversou com a jornalista Cinthya Leite, titular desta coluna, e explicou por que a população precisa respeitar as orientações de isolamento social. “Nós temos que parar de circular”, destaca Ana Brito, que também chama a atenção para a importância de se criar um sistema de proteção social. “O grupo que será mais afetado por esta doença é o mais pobre, que continua exposto”, frisa a médica, que tem pós-doutorado em Epidemiologia pela Universidade de Berkeley, na Califórnia (EUA). 

JC – Como a sua experiência acumulada, como médica epidemiologista e cientista social, ajuda a analisar a escalada do coronavírus no mundo e no Brasil?

ANA BRITO – Vamos começar a discussão falando que, diante de uma situação como esta, imaginamos que o problema nunca nos alcançará. E sabe por quê? Porque é a primeira reação diante de certas situações que podem nos colocar em risco imediato. Vêm a negação e o pensamento de que se trata de algo distante a nós mesmos. Vivemos algo parecido com a infecção pelo HIV, com o enfrentamento da aids no nosso Estado, que começou em 1983 e só foi debatido nacionalmente a partir da explosão dos casos em São Paulo, a partir de 1986. Naquele momento, parecia ser uma condição associada a homossexuais e que nada teria relação com a população em geral. As pessoas achavam que HIV/aids ficaria restrito a pessoas com comportamentos considerados desviantes, como as pessoas que usavam drogas injetáveis e os homossexuais masculinos. Óbvio que uma doença mediada pelo comportamento humano, que tem uma taxa de infectividade muito mais baixa, como o HIV, e que precisa ter trocas íntimas (para se manifestar), realmente demora a atingir uma outra parcela da população, que não inclui só aqueles considerados desviantes. No caso de infecção de transmissão respiratória, a história é uma outra. Este (SARS-CoV-2, causador da covid-19) é o sétimo coronavírus que circula no mundo. Quatro deles anteriores não causaram impacto algum na população. Outros dois foram importantes: o Sars-CoV, de 2002, que também afetou a China, e o Mers-CoV, de 2012. De lá para cá, o SARS-CoV-2 é o terceiro coronavírus de expansão populacional e que, desta vez, a expansão veio em proporções gigantescas que atingem todas as grandes aglomerações.

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JC – Foi um erro não ter cancelado o Carnaval no Brasil?

ANA BRITO – O que posso dizer é que, naquele momento (pré-Carnaval), a gente já tinha indícios que o cenário da Itália estava perdendo o controle. As autoridades italianas já apontavam para a necessidade de se fazer o que a China tinha feito. Como médica e epidemiologista com atuação na gestão em saúde e na pesquisa, eu sempre me preocupei com essas ocorrências de agravos inusitados. Então, isso me inquietou, e eu fiquei mais atenta ao fluxo daquela situação sanitária. Naquele momento, eu já dizia que o mundo precisava levantar as mãos e agradecer ao que transcendesse, considerando que esse vírus eclodiu num país de controle absoluto da população (China). Se esta epidemia do novo coronavírus tivesse eclodido em qualquer cidade dos Estados Unidos ou do Brasil, o mundo todo já estava infectado.

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JC – O que mais chama a sua atenção neste vírus sem precedentes na história da humanidade?

ANA BRITO - Impressiona o fato de o novo coronavírus ser extremamente infectivo. Ele tem mais capacidade de infectar outras pessoas do que outros vírus com os quais estamos acostumados a lidar, como o influenza. A capacidade de propagação dele é, em média, de três a quatro pessoas. Veja só a escala de infecção: se cada pessoa infecta de três a quatro, na mais modesta das contas, entre três e quatro outros indivíduos infectarão outras e por aí vai. Acontece que as pessoas, que são os vetores de infecção (os infectados), nem sempre desenvolvem sintomas; estão assintomáticas ou oligossintomáticas (condição em que os sinais se confundem com os de outras doenças). A pessoa tem uma dor de cabeça, febrícula e fica em casa um dia; ou até vai trabalhar, mesmo corizando, pois acredita que não está colocando em risco a vida de alguém. Se um grupo se infecta pelo novo coronavírus e tem sintomas, de 15% a 20% das pessoas podem precisar de assistência especializada. Se isso acontecesse ao longo do ano, ao longo do mês ou ao longo de meses, até seria controlável; chegariam dois ou três casos, e os serviços iriam ter tempo de ser organizar. Mas a demanda não tem sido assim.

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JC – Então, o impacto na Saúde Pública é maior do que se imagina?

ANA BRITO - O problema desta doença é a carga que ela impõe aos serviços de saúde. É uma doença aguda. Então, nesta evolução, ela vai demandar assistências médica e sanitária desproporcional à capacidade que esses serviços têm de atender. As medidas de Saúde Pública são para tentar garantir a proteção dos mais vulneráveis. Ao mesmo tempo, contudo, a doença traduz um certo nível de despreocupação para a população que acha que, como está menos vulnerável, um caso ou dois não farão tanta diferença. Mas são os menos vulneráveis que se tornam os vetores de disseminação, pois eles têm mais força física, energia e vitalidade. Eles estão em todos os espaços, não ficam quietos em casa. E estamos falando de um vírus que tem uma capacidade enorme de infectar novas pessoas. Além disso, a maioria das pessoas doentes não sabe que está infectada nem nunca saberá. Mas elas estão igualmente infectando outras pessoas.

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JC – Seria diferente do sarampo, cujos infectados quase sempre manifestam sintomas?

ANA BRITO – Sim, é diferente. Quando se entra em contato com o vírus do sarampo, a maioria das pessoas adoece, é tirada dos ambientes (onde estão outras pessoas). A expressão do sarampo leva naturalmente o indivíduo a se isolar socialmente. Como a pessoa é sintomática, não está descendo ou subindo pelo elevador, não vai à farmácia, ao supermercado, ao restaurante, nem pegando equipamentos na academia. No caso do novo coronavírus, é toda essa cadeia de disseminação que precisa ser impedida com o isolamento.

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JC - Se pensarmos num cenário de gravidade da doença do novo coronavírus, como ela se comporta?

ANA BRITO – De quatro a cinco dias, em média, de instalados os sintomas, especialmente os idosos a partir de 60 anos e que têm comorbidades (presença de doenças crônicas, como diabetes, hipertensão e câncer) evoluem para insuficiência respiratória grave. Isso significa que é preciso intubar essas pessoas. Então, a ventilação mecânica, na mais promissora das situações, fica de 15 a 20 dias com cada pessoa, ou até por mais tempo. Ou seja, se tivermos um aporte imenso de pessoas infectadas, haverá carga imensa de doença num curto espaço de tempo, precisando de um equipamento que não está em todos os lugares, e sim na UTI (unidade de terapia intensiva). Dessa maneira, é uma assistência médico-hospitalar bastante especializada e que precisa de um aporte grande de profissionais da área de saúde e equipamentos médicos. Nós não temos a quantidade de leitos de UTI e de retaguarda para dar conta de uma epidemia desta dimensão. Além disso, é preciso que haja uma observação da necessidade de isolamento social. Nós temos que parar de circular. Nós temos que ficar dentro de casa.

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JC – Será difícil o Sistema Único de Saúde (SUS) atender as demandas?

ANA BRITO – Primeiramente, é preciso ter uma rede forte de retaguarda de assistência ambulatorial e hospitalar articulada e sincronizada. A epidemia exige um sistema único de saúde que felizmente o Brasil tem, mas ele é insuficiente para dar conta dessa demanda por uma razão muito simples: a gente vem assistindo ao sucateamento do sistema, nos últimos anos, e o agravamento desse sucateamento com a PEC do Teto de Gastos Públicos (Proposta de Emenda à Constituição, do governo federal, que tem o objetivo de limitar o crescimento das despesas do governo). Essa PEC, com contingenciamento dos recursos da saúde por 25 anos, é um crime de lesa-pátria. Ou as autoridades políticas desse País descontingenciam esse recurso, de cerca de 20 bilhões de reais, ou nós não temos como enfrentar as consequências da covid-19. Nós já perdemos uma parte preciosa para o controle dessa epidemia, pois era para o governo ter, pelo menos, cancelado eventos importantes, por mais que isso trouxesse prejuízo econômico ao País. Não fizemos, no primeiro momento, também barreiras sanitárias nos aeroportos. A gente não fez sequer barreira das pessoas que estavam vindo da Itália e da China para o Brasil; deixamos essas pessoas entrarem livremente e circularem com vírus.

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JC – A pandemia trará impactos socioeconômicos. Como enfrentar esse colapso?

ANA BRITO – É importante criar um sistema de proteção social para a população mais carente, trabalhadores autônomos e pequenos comerciantes, com criação de linhas de créditos a juro zero ou negativo. O grupo que vai será mais afetado é o mais pobre, o que continua sendo exposto, que continua no meio da rua. Tem que fechar tudo mesmo. A cidade tem que parar, nós temos que parar, Pernambuco tem que parar, o Brasil tem que parar para se diminuir o sofrimento humano. O detalhe é que, para as pessoas pararem, elas precisam ter o mínimo de proteção para a sobrevivência. Já estamos assistindo a uma escalada do empobrecimento do Brasil em anos mais recentes. Então, é necessário que se tenha suporte para as pessoas não terem outro tipo de agravo sério, que é o transtorno mental. Como os governantes devem alertar a população sem que isso traga pânico? Então, é necessário ter uma linha de suporte à saúde mental, pois as pessoas entram em desespero. Isso a gente vê, no Recife, pelo desabastecimento de itens, como álcool em gel, mascaras, luvas e até de medicamento antimalárico que só foi utilizado em pacientes graves, em ambiente hospitalar, associado ao uso de antibióticos. O detalhe é que as pessoas se abastecem de forma desnecessária e esquecem que, se levarem tudo o que é produto, elas deixarão outras sem condições de adquirir os mesmos itens, contribuindo para o aumento de circulação do vírus. A gente tem que exercitar a solidariedade como uma forma de prevenção. Além disso, é necessário que haja transparência do governo na divulgação das informações, principalmente diante do momento em que vivemos, com as redes sociais e as fake news, que têm prestado um desserviço à população.

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JC – Há uma luz de esperança?

ANA BRITO – Desta epidemia, a gente pode sair mais forte do que entrou se tomarmos consciência de que os problemas coletivos não dizem respeito a só uma parcela da população. No caso da covid-19, toda a população, indiscriminadamente e independentemente da idade, é suscetível ao vírus. Isso nos obriga a fazer uma reflexão sobre o nosso comportamento diante da vida, que tem o mesmo valor para mim e para a pessoa mais pobre da periferia do Recife. Precisamos ter esperança: vamos sair dessa travessia mais fortalecido e com menos sofrimento se entendermos que temos que parar; temos que parar mesmo. E temos que proteger aqueles que não podem parar, como profissionais da área de saúde, os fornecedores de alimentos e de todos os serviços essenciais.

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