Descoberta

Pesquisadores acreditam que hormônios femininos podem ter papel protetor contra o coronavírus

Hipótese é endossada por pesquisas que avaliam a atividade inibidora do estrogênio; levantamento de dados mostram que a taxa de mortalidade dos homens pela doença pode superar a das mulheres

Vanessa Moura
Vanessa Moura
Publicado em 19/05/2020 às 10:25
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Profas. Juliana Maricato, Carla Braconi e Roberta Stilhano, realizando experimento com SARS-CoV2 em laboratório NB3 coordenado pelo Prof. Mario Janin - FOTO: Cortesia
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No mundo, mais de 318 mil pessoas já morreram vítimas do novo coronavírus. De acordo com a observação destes casos, foi detectado que homens, quando infectados pela Covid-19, tendem a morrer mais do que mulheres na mesma condição. Essa tendência pôde ser observada em diversos países, como China, França, Alemanha, Itália e até mesmo no Brasil. Baseados nessa constatação epidemiológica, pesquisadores do Estado de São Paulo começaram a analisar a possibilidade de hormônios femininos exercerem papel protetor contra o coronavírus.

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O projeto “Avaliação de compostos com potencial terapêutico para SARS-CoV-2: enfoque em compostos com atividade estrogênica, moduladores da autofagia e ECA2”, coordenado pelo professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Rodrigo Portes Ureshino, têm investigado a possível atividade inibidora dos estrogênios na evolução da Covid-19 dentro do organismo, e caso chegue em resultado conclusivo, o próximo passo do estudo será desenvolver fármacos com potencial terapêutico para o tratamento da doença.

De acordo com Ureshino, trabalhos realizados há um tempo foram capazes de comprovar que o vírus causador da síndrome respiratória aguda grave teve maior eficiência em progredir no organismo dos homens infectados. Agora, seu estudo tem o objetivo de descobrir se o mesmo se aplica em relação ao novo coronavírus, causador da pandemia atual. “Baseado em dados da literatura científica, acreditamos que os estrógenos podem participar da proteção fisiológica contra o coronavírus. Como exemplo, estudos anteriores realizados com coronavírus SARS-CoV (o coronavírus anterior), apontaram diferenças de gênero na infecção e progressão da doença, com maior suscetibilidade de indivíduos do sexo masculino, e estudos em modelo animal indicaram que os estrogênios podiam estar associados à maior proteção fisiológica no sexo feminino. Assim, queremos testar se o mesmo ocorre na COVID-19, visando selecionar compostos com potencial para estudos clínicos”, contou o professor à reportagem do Jornal do Commercio.

O estudo em modelo animal que indicou a associação do estrógeno com a proteção fisiológica, do qual Ureshino se refere, é o experimento feito em ratas ovarectomizadas (que tiveram a remoção cirúrgica dos ovários, e consequentemente diminuição dos níveis de estrógeno), onde as mesmas apresentaram maior taxa de mortalidade em animais infectados pelo SAR-CoV.

A pesquisa comandada por Ureshino já foi aprovada na fase de revisão literária, e agora entrou na fase experimental, onde linhagens de células “com cepas [grupo de descendentes com um ancestral comum que compartilham semelhanças morfológicas ou fisiológica] selvagens de coronavírus” foram infectadas. “Vamos testar nesse modelo mais de 40 compostos com atividade estrogênica para observar os resultados”, revelou o pesquisador.

Dentre os compostos que serão testados nesta fase do projeto, Ureshino destacou três: o 17-estradiol (o estrógeno mais abundante no organismo), o tamoxifeno (um modulador seletivo dos receptores estrogênicos) e a agenisteína (um fitoestrógeno). Tais hormônios já apresentaram triunfo ao serem usados em modelos de outras doenças virais. "O 17ß-estradiol, estrógeno mais abundante em nosso organismo, que está presente tanto em homens como em mulheres, e o Tamoxifeno foram testados em infecção pelo vírus da hepatite C, gerando bons resultados. Já a genisteína, foi utilizada em modelo de infecção pelo vírus da Herpes B", disse o professor.

Questionado sobre os possíveis frutos de sua pesquisa, Ureshino afirmou que após os devidos testes, "poderá focar no reaproveitamento de fármacos já em uso para outras terapias". Para ele, "este método tem grande potencial de ser utilizado como alternativa terapêutica para pacientes infectados com o novo coronavírus."

Todos esses procedimentos têm sido realizados em um laboratório de nível de biossegurança 3 (NB3) da Unifesp e acompanhado pelo professor Mário Janini, que também é um colaborador da pesquisa.

* O projeto dispõe de uma equipe de trabalho multidisciplinar formada pelos pesquisadores Rodrigo Portes Ureshino, Luiz Mário Ramos Janini, Juliana Terzi Maricato e Carla Torres Braconi, Nancy Cristina Junqueira Bellei e Ricardo Sobhie Diaz, Soraya Soubhi Smaili e Gustavo José da Silva Pereira, Carla Máximo Prado e Roberta Sessa Stilhano.

Outros fatores

O projeto da Unifesp também têm se dedicado na investigação da enzima conversora de angiotensina 2 (ACE-2 sigla em inglês), que é a responsável por garantir a entrada do coronavírus nas células. Quando o vírus entra no organismo humano, ele se liga com essas enzimas e injeta seu material genético nas células do hospedeiro e se replica, infectando o indivíduo e causando dificuldades respiratórias, febre e demais sintomas da doença.

De acordo com estudos, pacientes hipertensos, que constituem grupo de risco para a Covid-19, tem esta enzima em maior proporção, e por isso são mais suscetíveis a contraírem a doença. A Sociedade Europeia de Cardiologia, em pesquisa no mesmo âmbito, detectou que homens, mesmo não hipertensos, apresentam concentrações maiores de ACE-2 em sua corrente sanguínea. O que também pode explicar o fato dos homens serem mais vulneráveis ao coronavírus do que as mulheres.

Além disso, a testosterona, que é o hormônio sexual mais predominante nos homens, tem tendência a ser imunossupressora. Por este motivo, por exemplo, que homens com níveis mais altos de testosterona geralmente não respondem muito bem à infecções respiratórias. 

Dados


Até 20 de março, o Global Health 50/50, instituto de pesquisas ligado à Universidade College London, no Reino Unido, fez uma análise dos dados públicos disponibilizados pelos 20 países com o maior número de casos confirmados da Covid-19. Na época, apenas China, França, Itália Irã e Coreia do Sul dispunham de dados por gênero tanto para casos confirmados quanto para mortes.

De acordo com Sarah Hawkes, professora de saúde global na Universidade College London, em entrevista à CNN, a observação destes países revelou que “a taxa de mortalidade dos homens por covid-19 pode superar a das mulheres em um patamar que varia de 10% a 90%".

Estatísticas atualizadas da cidade de Nova York, nos Estados Unidos, por exemplo, revelam que mais homens têm morrido vítimas de coronavírus do que mulheres.

Reprodução/Governo de Nova York
Número de óbitos por coronavírus em Nova York dividido por gênero. Dados mais recentes disponíveis. (14/05/2020) - Reprodução/Governo de Nova York

“O sexo masculino é um fator de risco para pior resultado em pacientes com covid-19, independentemente de idade e suscetibilidade”, apontou pesquisa realizada na China. Essa tendência pode ser observada com outras epidemias de coronavírus, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que surgiu em 2002, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), identificada em 2012.


Em Pernambuco


De acordo com Boletim divulgado na última segunda-feira (19) pela Secretaria Estadual de Saúde, do número total de óbitos registrados em Pernambuco, cerca de 56,8% são homens.

Reprodução/SES-PE
Número de óbitos confirmados por coronavírus em Pernambuco por gênero. Dados: 18/05/20. - Reprodução/SES-PE



A hipótese de que os homens sejam mais propensos a desenvolver casos graves da doença ganha respaldo levando em consideração que, no Estado, o número de casos confirmados da doença é liderado pelas mulheres, com 54%. Ou seja, embora mais mulheres tenham sido infectadas pelo novo coronavírus, elas tendem a se recuperar mais do que os homens.

Reprodução/SES-PE
Número de casos confirmados do novo coronavírus em Pernambuco por gênero. Dados: 18/05/20. - Reprodução/SES-PE

 

No Brasil, os dados de casos e óbitos pela Covid-19 divididos por gênero não estão sendo divulgados há algum tempo. Em 4 de abril, há mais de um mês, quando o País registrava 486 mortes pela doença, 228 vítimas (58,8%) eram do sexo masculino, enquanto 160 (41,2%), do sexo feminino. No entanto, apenas com o fornecimento deste balanço atualizado será possível saber se o número de mortes de homens continua sendo superior ao das mulheres no País.

Questionados pela Reportagem do JC sobre a divulgação destes dados atualizados, o Ministério da Saúde comunicou que "informações mais detalhadas estão previstas para serem divulgadas no próximo Boletim Epidemiológico de Coronavírus, que deve ser publicado ainda esta semana". O Brasil registra atualmente (19/05) 254.220 casos confirmados do novo coronavírus e 16.792 óbitos.


 

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