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Coronavírus: Recife suspende uso da cloroquina em casos graves e deixa de recomendar para quadros leves de covid-19

Anúncio foi feito pelo secretário Jailson Correia em coletiva de imprensa nesta segunda-feira (25). Secretaria de Saúde de Pernambuco também sugere que médicos suspendam uso em casos de covid-19

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 25/05/2020 às 19:33
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GEORGE FREY/AFP
A OMS já havia recomendando não usar a hidroxicloroquina no tratamento ou prevenção de infecções pelo coronavírus, exceto como parte de ensaios clínicos. Agora, testes também foram suspensos - FOTO: GEORGE FREY/AFP
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A Organização Mundial da Saúde (OMS) suspendeu os testes com a hidroxicloroquina, medicamento para malária, em pacientes com covid-19, devido a questões de segurança, segundo informou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, nesta segunda-feira (25). Com a decisão da entidade, que levou em consideração uma investigação que associa cloroquina e hidroxicloroquina a um maior risco de morte nas pessoas infectadas, o Recife opta por retirar os medicamentos da assistência aos pacientes com sintomas de infecção pelo coronavírus. 

"Não recomendaremos o uso da hidroxicloroquina e da cloroquina, como também vamos retirar as medicações do protocolo de uso hospitalar e da atenção primária à saúde", disse o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia, em coletiva de imprensa transmitida pela internet na tarde desta segunda-feira (25). Ele destacou que, apenas em casos muito específicos, ambos os medicamentos poderão ser avaliados para utilização em casos de infecção pelo coronavírus. "Essa posição será mantida enquanto não houver novas evidências sobre o uso (da hidroxicloroquina e da cloroquina no tratamento dos pacientes com sintomas de covid-19)." Na visão do secretário, a conduta da Secretaria de Saúde do Recife parte do seguinte pressuposto: primum non nocere - termo, em latim, da bioética que significa "primeiramente, não prejudicar". Para Jailson, trata-se do "princípio da não maleficência". 

Em nota, a Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES) informou que, nas orientações para a rede assistencial sobre o manejo clínico do paciente com covid-19, não recomendava o uso da cloroquina nem da hidroxocloroquina. "No material, apenas orientava o profissional médico a avaliar seu uso de acordo com nota técnica do Ministério da Saúde. Com os novos achados científicos, a SES sugere que os médicos sigam a recomendação da OMS, de suspender o uso das substâncias nos pacientes com covid-19", diz a nota.

Até o último dia 19, quando se estava ainda em vigor o protocolo do Ministério da Saúde que só recomendava a utilização da hidroxicloroquina ou cloroquina no ambiente hospitalar para pacientes com síndrome respiratória aguda grave (srag), o órgão federal já havia realizado o envio de mais de 170 mil comprimidos de cloroquina para Pernambuco, que foram distribuídos para mais de 63 serviços públicos, segundo anunciou o secretário Estadual de Saúde, André Longo, naquela ocasião, em coletiva de imprensa. Além disso, de acordo com o gestor, a SES adquiriu mais 86 mil comprimidos de hidroxicloroquina para atender pacientes com covid-19. Até aquela data, as medicações estavam sendo encaminhados às unidades hospitalares. 

No caso específico do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), que participa de estudo da OMS, em parceria com a Fiocruz no Brasil, para uso da hidroxocloroquina e da cloroquina em pacientes com a doença, a própria OMS já solicitou a suspensão das medicações em novos pacientes, até completar as análises das informações científicas.

"O grupo executivo tem implementado uma pausa temporária do ramo da hidroxicloroquina no estudo Solidarity, enquanto os dados de segurança são revisados pelo conselho de monitoramento de segurança de dados", disse Tedros, em entrevista online. Ele afirmou que os outros ramos do estudo continuam.

Anteriormente, a OMS já havia recomendando contra o uso da hidroxicloroquina no tratamento ou prevenção de infecções pelo coronavírus, exceto como parte de ensaios clínicos. 

Os medicamentos têm sido apontados pelo presidente Jair Bolsonaro, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e por outros como um possível tratamento para a doença causada pelo novo coronavírus. O presidente norte-americano afirmou que estava tomando o medicamento para ajudar a prevenir a infecção.

Estudo

Um artigo científico publicado, na sexta-feira (22), na revista científica The Lancet, afirmou que não houve melhora significativa na condição de saúde de pacientes que seguiram quatro protocolos diferentes de cloroquina e hidroxicloroquina. Conduzida por um grupo de cardiologistas, a pesquisa teve como foco identificar arritmias cardíacas e mortalidade hospitalar em pessoas que usaram os medicamentos.

O estudo foi realizado em um grupo de pacientes de 671 hospitais do mundo. Ao todo, 96.032 pessoas participaram dos testes. Entre eles, 15% total (14.888) foram medicadas.

Os autores da pesquisa revelaram que a mortalidade nos grupos que usaram as diferentes variações de protocolo baseadas na cloroquina ficou em 9,3% - percentual maior do que no grupo controle, formado por outros 81.144 pacientes. Esses não foram medicados da mesma maneira, e a taxa de mortalidade ficou em 0,3%. 

Opiniões 

Pneumologista e alergologista, Antônio Aguiar Filho relatou, em reportagem publicada nesta coluna, no último dia 19, que já atendeu 196 pacientes com sintomas de covid-19. Entre eles, um foi a óbito e três foram internados. “Eles me procuraram na fase de viremia (início dos sintomas), com quadros de leves a moderados. Foi feito tratamento ambulatorial (em consultório, sem necessidade de internamento)”, informa Antônio, que diz ser contra a automedicação e, por isso, não recomenda o uso de cloroquina e hidroxicloroquina por conta própria, sem supervisão de um médico.

“Todos os nossos pacientes assinam um consentimento livre sabendo dos riscos da medicação. Ninguém toma (o remédio) sem querer. As pessoas que não desejam usar (a cloroquina) são respeitadas.” Ele ainda ressalta que o uso da hidroxicloroquina deve ser conduzido por médico, que faz acompanhamento e avaliação dos riscos. "O paciente tem que estar ciente de possíveis efeitos colaterais. Temos conseguido diminuir internamento e mortalidade”, complementou Antônio Aguiar Filho.

Também pneumologista, Alfredo Leite, do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), ressaltou que, até então, os estudos com hidroxicloroquina são de qualidade científica baixa. “Defensores (do medicamento) ignoram os resultados negativos constatados em estudos mais recentes. Reconheço que há dúvida quanto à eficácia, que só será esclarecida de verdade quando tivermos resultados dos primeiros estudos randomizados e controlados, trabalhosos e demorados, mas que são essenciais porque impedem que o entusiasmo de pesquisadores, pela medicação testada, influenciem resultados obtidos”, frisa Alfredo.

Ele acrescenta que a maioria dos pacientes que viu evoluir mal com covid-19 fez uso de hidroxicloroquina na fase inicial da doença. "Não virei a cara para essa medicação ou outra. Torço para que, ao menos, uma delas se mostre eficaz em um dos estudos científicos em andamento”, destacou o pneumologista.

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