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"Muitos dizem que a pandemia termina em junho ou julho; ledo engano", alerta pesquisador

Professor do Departamento de Estatística da UFPE, Gauss Cordeiro acredita que a pandemia se estende por meses. Para ele, escolas certamente não devem retomar as aulas este ano ainda

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 27/05/2020 às 1:36
Análise
ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
"Se aulas voltarem ainda este ano, surgirão novos infectados e mortes. Mesmo os jovens, com imunidade maior, chegarão em casa e contaminarão pai, tio, avô e assim por diante. É um jogo difícil de se vencer", diz o professor Gauss Cordeiro - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Enquanto ainda não se tem vacina contra covid-19 nem mesmo um tratamento específico para evitar complicações da doença, o isolamento social é considerado alternativa eficaz para combater a epidemia. No entanto, a forma como ele tem sido aferido tem sido questionada por especialistas. Professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Gauss Cordeiro acredita que se trata de uma medida sujeita a erros.

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“O índice de isolamento social é difícil de ser avaliado. Vamos exemplificar o caso em que uma pessoa, com quatro celulares, passa quatro dias em casa. Ela aumenta assustadoramente essa taxa. Por outro lado, aglomerações que vemos no fim de semana, feitas por pessoas sem celular, não causarão impacto sobre o isolamento. Com base na telefonia móvel, esse índice é extremamente falho. Poderiam existir outras taxas medidas através de radar ou de drones”, destaca Gauss.

Ex-presidente da Associação Brasileira de Estatística e pós-doutor pela Universidade de Londres, Gauss reconhece o quanto é difícil fazer predições nesta pandemia, porque qualquer previsão para um período superior a 15 dias leva a erros graves. “Muitos dizem que essa pandemia chega ao fim em junho ou julho. Eu gostaria era que terminasse amanhã; ledo engano. Ela vai se estender por 2021. Claro que vamos ter que voltar (às atividades) no segundo semestre com medidas rígidas, usando máscaras e fazendo o distanciamento social.”

O professor ainda destaca que as escolas certamente não devem retomar as aulas este ano ainda. “Se voltarem, surgirão novos infectados e mortes. Mesmo os jovens, com imunidade maior, chegarão em casa e contaminarão pai, tio, avô e assim por diante. É um jogo difícil de se vencer.”

As projeções de Gauss apontam que, até 1º de junho, Pernambuco deve alcançar 2,8 mil a 3 mil óbitos por covid-19. “Para evitar aglomerações, sou a favor do Exército atuando, nos fins de semana, nas capitais mais atingidas pelo vírus, como o Recife. Se houver um só infectado nas ruas, mesmo sem sintomas, ele passa (o vírus) para os outros, que poderão entrar nas tristes estatísticas”, diz o professor.

Balanço 

Os números de novas confirmações de pessoas infectadas pelo novo coronavírus, em Pernambuco, caíram nos últimos quatro dias, mas o volume de vítimas fatais permanece alto. Só na terça-feira (26), foram confirmados laboratorialmente 80 óbitos, o que faz o Estado totalizar 2.328 mortes causadas pela covid- 19.

“Esses dias em que observamos uma queda no número de doentes envolveram um fim de semana. Domingo e segunda têm números baixos de testes realizados por razões diversas, incluindo o não processamento de exames nesses dias por redes de laboratórios que apoiam o Lacen-PE (Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco). A manutenção do número alto de mortes é mais uma forma para avaliarmos a possibilidade de termos um ponto de baixa (em relação à queda dos casos), mas não uma descendência”, destaca o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco Jones Albuquerque.

Dos 28.854 casos de covid-19 já confirmados, 12.839 são casos graves que estão distribuídos por 157 dos 184 municípios pernambucanos, além do Arquipélago de Fernando de Noronha e das confirmações, no Estado, de pacientes que moram em outros Estados brasileiros e países. Com relação à testagem dos profissionais de saúde com sintomas sugestivos da doença no Estado, 6.997 dos 13.714 trabalhadores examinados já tiveram diagnóstico laboratorial positivo para covid-19.

As testagens abrangem os profissionais de todas as unidades de saúde, sejam da rede pública (estadual e municipal) ou privada. O Estado foi o primeiro do País a criar um protocolo para testar os profissionais da área da saúde.

 

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