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Reinfecção pelo coronavírus provoca reação da classe médica e gera polêmica

Estudo documenta, pela primeira vez, dois pacientes do Recife que apresentaram um segundo quadro do novo coronavírus com resultados positivos de RT-PCR

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 02/10/2020 às 23:20
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MIVA FILHO/SES-PE
Estudo de pesquisador pernambucano traz evidências de reinfecção pelo novo coronavírus em dois médicos (uma mulher e um homem) que atuam na linha de frente de combate à doença no Recife - FOTO: MIVA FILHO/SES-PE
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A publicação de dois casos que despontam como evidência de reinfecção pelo novo coronavírus no Recife tem provocado reações e opiniões diversas na classe médica. O trabalho, divulgado em revista científica internacional na quinta-feira (1º), documenta pela primeira vez dois pacientes da cidade que apresentaram um segundo quadro do novo coronavírus com resultados positivos de RT-PCR (teste que faz a detecção direta do vírus em secreção respiratória e é o padrão-ouro para diagnóstico da infecção aguda). O autor principal do estudo, o médico e pesquisador Carlos Brito, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), não tem dúvidas sobre a hipótese: "são reinfecções". Desde a publicação do estudo, ele tem dito que um novo adoecimento por covid-19 não é frequente, mas esse achado é importante do ponto de vista epidemiológico porque as pessoas que já tiveram covid-19 podem se achar protegidas e relaxar diante dos cuidados de prevenção.

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Para o pneumologista Murilo Guimarães, ainda não existe consistência para se afirmar que são casos de reinfecção. "Há pessoas que permanecem mais tempo com o RT-PCR positivo. Tive um paciente que, passada a fase aguda da doença, ficou assintomático, mas só negativou no 41º dia após o início dos sintomas. O ideal seria termos conhecimento do resultado de um teste RT-PCR entre os dois episódios de sintomas, a fim de saber se, nesse meio tempo, o exame negativou", acredita Murilo. Ele acrescenta que, sem esse exame intermediário, não dá para saber se o paciente se infectou novamente pelo novo coronavírus ou se o vírus, detectado no primeiro quadro sintomático, permanece no organismo.

Os casos do estudo coordenado por Carlos Brito são dois médicos: um homem e uma mulher. Após a primeira infecção detectada pelo RT-PCR, ele se submeteu também ao teste sorológico (verifica a resposta imunológica em relação ao vírus), que deu negativo. "Isso sugere que o paciente não produziu anticorpos, na primeira infecção, para evitar a segunda. E só após essa, a sorologia foi positiva", afirma. A mulher também passou pelo sorológico, que detectou anticorpos. "Certamente eles não foram o suficiente para eliminar o vírus e, assim, evitar a segunda infecção. O fato de ter anticorpos não garante que o indivíduo está completamente protegido contra o coronavírus, que pode ter sofrido alterações. Outra situação é que o título de anticorpos pode cair após a doença."

O médico virologista Ernesto Marques, professor de doenças infecciosas da Universidade de Pittsburgh (EUA) e pesquisador da Fiocruz Pernambuco, reconhece como adequado o protocolo seguido no estudo em questão para relatar os segundos episódios de covid-19. "Estou certo de que é possível a reinfecção, e estes não seriam os únicos casos. A questão é que provar uma nova infecção pelo novo coronavírus é bem difícil, mas se tornará fácil demonstrá-la daqui a um ou dois anos, quando se imagina que mais pessoas que já adoeceram tenham queda no título de anticorpos", esclarece o virologista.

Em artigo publicado, nesta sexta-feira (2), neste JC, o médico Sérgio Gondim escreve que, "em relação à reinfecção, existem critérios para defini-la, exatamente para não permitir que um falso-positivo ou negativo em testes tão problemáticos, resultem em conclusão errada". Ele complementa que, para afirmar que houve reinfecção, não basta ter duas gripes, não basta ter dois testes positivos em tempos diferentes. "O sequenciamento genético, demonstrando cepas diferentes é exigência fundamental para comprovar a reinfecção. Se não for feito, continua sendo caso suspeito, deve ser publicado, mas não é uma evidência científica de reinfecção."

Já para Ernesto Marques, não há necessidade de sequenciamento viral. "A reinfecção não ocorre porque há mutação, e não há demonstração de sorotipo de covid-19. Até agora, as reinfecções demonstradas foram homotípicas (ou seja, mesma cepa causadora da primeira infecção). Por isso, é irrelevante essa questão de sequenciamento. O detalhe maior é demonstrar a infecção por RT-PCR e, em seguida, caracterizar a resposta imune (pela sorologia). Depois, se o mesmo paciente apresentar sintoma, e o vírus for detectado, não duvido de reinfecção."

A Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES), que havia optado por não se pronunciar sobre o trabalho publicado na quinta-feira (1º), divulgou nota, nesta sexta-feira (2), em que informa que "é preciso analisar com cautela, e sem precipitar conclusões, os estudos sobre a reinfecção pela covid-19. Nesse sentido, ainda não existe protocolo definido no Brasil para análise de casos de reinfecção pelo novo coronavírus". A SES acrescenta que "dois testes RT-PCR positivos de uma mesma pessoa não são suficientes para afirmar que se trata de um caso de reinfecção".

Saiba mais

Intitulado Segundo episódio de covid-19 em profissionais de saúde: relato de dois casos (em tradução livre), o trabalho foi publicado na quinta-feira (1º), na revista científica International Medical Case Reports Journal, e documenta casos, pela primeira vez no Recife, de segundo quadro do novo coronavírus com resultados positivos de RT-PCR (teste que faz a detecção direta do vírus em secreção respiratória e é o padrão-ouro para diagnóstico da infecção aguda).

O primeiro caso é um homem de 40 anos que apresentou febre e sintomas respiratórios no dia 10 de abril, com teste RT-PCR positivo e melhora completa dos sintomas em cinco dias. Após 44 dias, ele apresentou os mesmos sinais, além de anosmia (perda do olfato) e disgeusia (paladar alterado). Dois dias depois, ele foi submetido ao teste de RT-PCR, que novamente detectou o novo coronavírus.

O outro caso relatado no estudo é de uma mulher de 44 anos com atuação em uma unidade de referência para covid-19 no Recife. Ela teve início dos sintomas sugestivos da doença em 30 de abril, com teste de RT-PCR positivo. O quadro melhorou em seis dias. Mas em 24 de maio, ela apresentou febre, tosse e dor de garganta acompanhada de dor de cabeça, fadiga, dor muscular e diarreia. Além disso, nesse segundo episódio, a médica teve anosmia e disgeusia. Ela fez um novo teste RT-PCR, que detectou o novo coronavírus.

"O estudo permite confirmar que um segundo episódio de infecção pelo novo coronavírus não é usual, mas esse achado é importante do ponto de vista epidemiológico porque as pessoas que já tiveram covid-19 podem se achar protegidas e relaxar diante dos cuidados de prevenção, expondo-se sem medidas de proteção ao vírus", destaca Carlos Brito. Para ele, se esses casos fossem frequentes, certamente saltariam bastante aos olhos. O médico salienta que os dois casos de segunda infecção têm como importante diferencial, em comparação a outros trabalhos semelhantes no Brasil e em outros países, o fato de os pacientes apresentarem sintomas em ambas situações que testaram positivo para covid-19. "E no segundo episódio, as manifestações clínicas foram ainda mais específicas para a doença, com a presença de anosmia e disgeusia."

O médico explica que as evidências de reinfecção pelo novo coronavírus são fortes nos dois casos analisados. Ele conta que o homem, após a primeira infecção detectada pelo RT-PCR, submeteu-se também ao teste sorológico (verifica a resposta imunológica em relação ao vírus), que deu negativo. "Isso sugere que o paciente não produziu anticorpos, na primeira infecção, para evitar a segunda. E só após essa, a sorologia foi positiva", afirma.

A mulher também passou pelo teste sorológico, que detectou presença de anticorpos. "Certamente eles não foram o suficiente para eliminar o vírus e, assim, evitar a segunda infecção. A partir desse caso, reforçamos que o fato de ter anticorpos não garante que o indivíduo está completamente protegido contra o coronavírus, que pode ter sofrido alterações. Outra situação é que o título de anticorpos pode cair após a doença", acredita Carlos Brito. O médico acrescenta que o sequenciamento do vírus, em momentos distintos de sintomas nos pacientes, é capaz de contribuir para reforçar a hipótese de reinfecção, a fim de fazer diferenciação entre casos de reativação de infecção anterior e casos de reinfecção, o que pode ser feito em estudos futuros que investiguem essa possibilidade. A reportagem do JC entrou em contato com a assessoria de comunicação da Secretaria de Saúde de Pernambuco (SES) e foi informada que, neste momento, não vai se pronunciar sobre o estudo.

No fim de agosto, pesquisadores da Universidade de Hong Kong relataram o caso de um homem com diferentes cepas de covid-19, em amostras coletadas com intervalo de quatro a cinco meses, o que assegurou que eventos de reinfecção são possíveis. O homem estava assintomático no segundo momento em que testou positivo para o novo coronavírus. Em setembro, o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) atualizou informativo que fala de informações limitadas sobre reinfecções. "Os dados, até o momento, mostram que uma pessoa que teve covid-19 e se recuperou pode ter baixos níveis de vírus por até três meses. Ela pode continuar a ter um resultado positivo, mesmo sem disseminar a doença. Não há relatos confirmados, por enquanto, de pessoa reinfectada dentro de três meses do quadro inicial. No entanto, pesquisas adicionais estão em andamento", destaca o CDC.

Confira os casos da covid-19 em Pernambuco por município:

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