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Round 6: "Isso pode acabar causando danos emocionais às crianças", diz psicólogo sobre série da Netflix

Psicólogo ressalta que, pelas cenas que traz, Round 6 "é completamente inapropriada para as crianças"

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 10/10/2021 às 16:51
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Em "Round 6", centenas de jogadores falidos aceitam um estranho convite para um jogo de sobrevivência - FOTO: REPRODUÇÃO/NETFLIX
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Pais de crianças e adolescentes, assim como professores, estão preocupados com o teor de Round 6, da Netflix. A série, que tem classificação indicativa de 16 anos, tem sido vista por crianças mais novas, que se sentem atraídas pela estética inspirada em animes. A questão é que os pequenos não devem ser expostos a conteúdos inadequados de entretenimento, o que pode impactar negativamente no desenvolvimento ao longo da infância e da adolescência.

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"Depois que Round 6 viralizou, no catálogo da Netflix, muitas crianças acabaram tendo acesso ao conteúdo da produção coreana, que mostra várias brincadeiras infantis. Isso pode acabar atraindo as crianças e causar danos psicológicos. A série mostra cenas de suicídio, tráfico de órgãos, tortura psicológica, violência explícita e palavrões. É completamente inapropriada para as crianças", alerta o psicólogo Rodrigo Nery. 

Assista ao trailer oficial 

Segundo a sinopse, a série traz jogadores falidos que aceitam um convite para um jogo de sobrevivência, e um prêmio milionário aguarda os participantes, mas as apostas são altas e mortais. Com isso, Round 6 traz cenas e temáticas de assassinato, tortura, tráfico de órgãos e suicídio. E impactante é que tudo isso vem em brincadeiras infantis (“batatinha frita 1,2,3”, cabo de guerra e bolinha de gude), em que os perdedores dos desafios morrem com muito tiro. 

"É de inteira responsabilidade da família decidir o que é melhor para as suas crianças, permitindo ou não o acesso a conteúdos impróprios para a idade. Porém, é importante que nossas crianças acessem conteúdos apropriados para cada faixa etária", reforça Rodrigo Nery. O psicólogo orienta que os responsáveis da criança controlem o tempo de exposição a telas e coloquem limites sobre o uso. "Eles também devem estar juntos aos pequenos se a decisão for permitir que tenham acesso a estes conteúdos impróprios para a faixa etária."

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O psicólogo também destaca o quanto é importante a família criar um ambiente acolhedor, que priorize o diálogo com os filhos, com uma rotina de conversas sobre o dia da criança: o que fez, o que viu e o que aprendeu. "Isso pode ajudar a não criar um pânico sobre o que a criança está consumindo. Caso ela já tenha assistido à série, é bom lembrar que cada uma absorve conteúdos de forma diferente. É importante questionar o que aprenderam e o que sentiram vendo a produção e, a partir das respostas, pais e criança devem discutir juntos", acrescenta Rodrigo Nery.

A psiquiatra da infância e da adolescência Carolina Rolim explica que séries que trazem conteúdos de violência e suicídio, por exemplo, podem disparar gatilhos emocionais - uma resposta mental que envolve emoções, pensamentos e comportamentos que podem ser negativos. Ou seja, diante de cenas como as da série, crianças e jovens podem reagir de forma mais exaltada ao que tem visto. "Para quem está vulnerável emocionalmente, essas cenas causam um impacto mais intenso e tendem a ser um gatilho significativo", diz Carolina.

A médica recomenda aos pais que façam a supervisão de tudo o que os filhos, até o final da adolescência, acessam. "Eu não costumo impor, aos pais, o que eles devem recomendar ou não para as crianças. Cada família tem uma forma de pensar. O que eu apresento são as recomendações trazidas pela ciência e o impacto que cada atitude pode gerar. A partir daí, as famílias conversam com suas crianças. "Mas uma coisa é certa: se a classificação indicativa é 16 anos, por que crianças e adolescentes menores vão ver? É um conteúdo claramente impróprio para eles", acrescenta Carolina.

Orientações da pediatria

Este ano a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicou o documento #Sem Abusos #Mais Saúde, em que ressalta alertas sobre a importância moral e legal da mediação parental durante todo o período de crescimento e desenvolvimento de crianças e adolescentes, num momento em que as plataformas de internet vão assumindo um papel preponderante, pelo uso constante e alastrado em todas as idades, porém nunca substitutivo em tempo e conteúdo do contato humano amoroso, cuidadoso e responsável.

"A linha que separa o mundo real do mundo virtual/digital está ficando cada vez mais tênue e sutil, com a profusão dos estímulos visuais, auditivos, luminosos, movimentos acelerados no deslizar do toque de teclados ou deslizar dos dedos nos celulares influenciando respostas emocionais tanto positivas como negativas. Os métodos de persuasão, usados nas telas e aplicativos, impactam a curiosidade, o consumo das telas e o estabelecimento dos padrões e hábitos digitais, influenciando o uso precoce, excessivo e prolongado, por mera curiosidade e impulsividade ou ainda, pela falta de discernimento, autorregulação e autocontrole", diz o documento da SBP.

A entidade orienta que os pediatras, durante as consultas, avaliem também os hábitos da família em relação ao uso das tecnologias e como as telas estão inseridas nas rotinas, além de questionarem sobre limites de segurança e privacidade.

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