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Em meio a surto de doenças respiratórias, pediatra faz apelo por proteção às crianças: "Está difícil; é muita fila de espera"

"As emergências públicas e privadas estão lotadas, e algumas crianças estão fazendo quadros graves de síndrome respiratória aguda grave", diz o pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima

Cinthya Leite
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Cinthya Leite
Publicado em 17/05/2022 às 20:24 | Atualizado em 18/05/2022 às 20:25
SÉRGIO BERNARDO/ACERVO JC IMAGEM
Eduardo Jorge da Fonseca Lima é pediatra e representante da Regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim) - FOTO: SÉRGIO BERNARDO/ACERVO JC IMAGEM
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Nesta tarde desta terça-feira (17), conversei com o médico pediatra Eduardo Jorge da Fonseca Lima, representante da Regional Pernambuco da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim). Nesta entrevista, ele demonstra preocupação com o atual surto de doenças respiratórias na infância, que tem colocado dezenas de bebês e crianças à espera de um leito de terapia intensiva (UTI) em Pernambuco. "Não podemos estar assistindo a tudo isso sem estarmos preocupados, porque são filas de crianças para serem atendidas", diz o médico, que é vice-presidente da Sociedade de Pediatria de Pernambuco (Sopepe).

JC - As infecções por vírus respiratórios na infância colocam hoje 70 crianças na fila de espera por um leito público de UTI em Pernambuco. Qual o nível de preocupação dos senhores, pediatras, em relação a este cenário?

EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA - A situação está muito séria. Em 2022, temos um quantitativo de pacientes com quadros respiratórios como não víamos há muitos anos. Isso tem algumas explicações e passa pela pandemia. As mães que engravidaram em 2020 e 2021 foram, de certa forma, protegidas (dos vírus). Elas (em maioria) não tiveram infecções virais e, portanto, não passaram anticorpos para essas crianças. Agora especialmente os lactentes, aqueles até 2 anos, estão desprotegidos porque não foram beneficiados (enquanto estavam no útero, no auge da pandemia) com a passagem de anticorpos maternos para os principais vírus. As mães estavam com máscara, em casa; as gestantes não trabalhavam presencialmente, faziam home office. Então, com a liberação do uso de máscaras, a volta da circulação das pessoas, das festas infantis e das aglomerações com crianças, associada ao retorno às escolas e creches, vem este surto de vírus respiratórios que está causando uma procura alta por atendimento médico. Dessa maneira, as emergências públicas e privadas estão lotadas, e algumas crianças estão fazendo quadros graves de srag (síndrome respiratória aguda grave), em decorrência do adoecimento pelo vírus sincicial respiratório (VSR), adenovírus, rinovírus e influenza. 

JC - E o que fazer para proteger os pequenos neste momento de alta transmissão e grande pressão da rede hospitalar? 

EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA - Continuo afirmando que, sempre que houver possibilidade, a criança em idade pré-escolar deveria ser mais resguardada. Ressalto que fui defensor da volta às escolas durante toda a pandemia. Defendi de forma enfática que a transmissão do coronavírus era pouco comum nas unidades educacionais. Quando falo em resguardar as crianças neste atual momento, falo das menores de 2 anos e até das menores de 4 anos. Não estou pedindo afastamento demorado (das escolas e das atividades sociais). Sugiro que, nos próximos 15 dias, as crianças pequenas, que não terão prejuízo muito grande de aprendizado, não frequentem as escolas. E por que eu digo isso? Porque historicamente hoje estamos no pico da transmissão dos vírus respiratórios. Depois disso, a percepção é de uma redução, como já vemos em Curitiba e em São Paulo, que começaram a ter este surto antes da gente.

JC - Para as crianças pequenas, o que as famílias podem fazer hoje como medida preventiva? 

EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA - A lavagem das mãos nunca foi tão importante. Contra esse vírus que têm circulado com maior frequência entre crianças, as recomendações incluem a lavagem das mãos e a manutenção do uso das máscaras. Reforço que é preciso evitar agora a festa infantil, aquelas aglomerações entre os muito pequenos e a escola. Se a gente conseguir reduzir a circulação e a exposição dos lactentes nas próximas duas semanas, a gente vai conseguir uma redução importante da circulação de vírus, além de uma maior proteção para essa faixa etária. Em paralelo, o Estado faz o que pode para aumentar leitos nos hospitais e adotar medidas para que as unidades não deixem de ter medicações de suporte, porque começou a faltar soro fisiológico e salbutamol (substância do medicamento popularmente conhecido como bombinha de asma). Estou fazendo este apelo porque a situação está muito difícil. É muita fila de espera. E criar leito de UTI para crianças não é tão rápido como criar vagas para adultos. Na pediatria, não se forma um uteísta pediátrico qualquer; não é qualquer pediatra que é preparado para ser uteísta da noite para o dia.

JC - Mesmo diante de toda esta gravidade, ainda vemos doenças imunopreveníveis cujas coberturas vacinais permanecem baixas na faixa etária infantil... 

EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA - Pois é! E lembro que há duas vacinas fundamentais para diminuir a carga das doenças respiratórias que mais vemos agora. Há a vacina contra gripe para todos que têm de 6 meses a 4 anos. Em relação a esse imunizante, estamos com uma cobertura vergonhosa, de 40%. E a partir de 5 anos, é preciso tomar a vacina contra covid. Não estou dizendo que os agentes principais (do atual surto) são coronavírus e influenza. Os que mais têm circulado são VSR e rinovírus, mas não devemos esquecer que influenza e covid são comuns. 

JC - Quanto tempo esta explosão de casos respiratórios na infância deve durar? 

EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA - Acredito que, em junho, este quadro estará mais leve. Mas, para passar por isso com mais tranquilidade e causar menor pressão nas emergências, a gente precisa fazer algo. Não podemos estar assistindo a tudo isso sem estarmos preocupados, porque são filas de crianças para serem atendidas. A maioria tem quadro leve, mas precisamos dar orientações aos pais, fazer ausculta pulmonar. E para as famílias, ressalto uma mensagem fundamental: lavar as mãos e as narinas de forma insistente. Sabemos que, contra a eliminação de vírus respiratórios, a lavagem das narinas é uma medida eficiente. Quando o pediatra diz para lavar o nariz abundantemente, é preciso acreditar nesse recado. A criança chora, acha ruim lavar o nariz, mas isso comprovadamente reduz o risco de infecção e a transmissão de vírus. É algo que pode ser feito no banho, fora do banho, com soro fisiológico.

JC - E como podemos identificar o momento de levar a criança a uma emergência? 

EDUARDO JORGE DA FONSECA LIMA - Primeiramente, lugar de criança com tosse e coriza é em casa; não é na escola. Não se deve levar para o colégio nem para a creche, mesmo que aparentemente seja só um resfriadinho. Se, ao dar remédio que toma habitualmente quando tem febre, a criança volta à atividade, a sorrir e brincar, é pouco provável que seja doença séria. Por outro lado, se houver dificuldade para respirar, recusa à alimentação e a beber água, tem que ser examinada. Tirando isso, se a criança com tosse, coriza, nariz escorrendo e febre baixa recebe remédio e fica bem, pode-se aguardar em casa a resolução do quadro, que é de até três dias. Mas se chega ao terceiro dia com febre persistente, é hora de ir a uma emergência. 

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