Tecnologia e Inovação, com Guilherme Ravache

Tecnologia e Inovação

Por Guilherme Ravache
gravache@gmail.com

Novidades sobre tecnologia, inovação e estratégias digitais no jornalismo, entretenimento e na TV

REDE SOCIAL

Ganhar bilhões no Clubhouse é fácil

E porque a rede social faz tanto sucesso com especialistas em marketing digital e fãs de teorias da conspiração

Guilherme Ravache
Guilherme Ravache
Publicado em 18/02/2021 às 7:37
Notícia
REPRODUÇÃO
Clubhouse é uma rede social de bate-papo com áudios - FOTO: REPRODUÇÃO
Leitura:

Desculpe se você clicou nesse título com a expectativa de encontrar a fórmula mágica para ganhar bilhões. Na verdade, esse texto talvez seja um balde de água fria. Mas é importante discutir como o Clubhouse expõe a cultura do “enriqueça rapidamente'' que conquista a imaginação dos brasileiros e o dano que a plataforma causa ao espalhar teorias conspiratórias e fake news.

Para quem ainda não conhece, o Clubhouse é uma nova rede social que é uma mistura de bate-papo do UOL com rádio e conversa por celular. Nas salas do aplicativo já tem bastante gente famosa. Tatá Werneck, Eduardo Sterblitch, Celso Portiolli, Danilo Gentili, Boninho, Elon Musk, Oprah Winfrey, MC Hammer e Ashton Kutcher estão entre os frequentadores.

Ser conhecido do público ajuda a ter relevância em qualquer lugar, no Clubhouse não é diferente. Mas um fenômeno particularmente brasileiro na plataforma são os especialistas em marketing digital. Obviamente, há gente séria e que compartilha o conhecimento com as melhores das intenções. Mas infelizmente, não são todos. E existe um número impressionante de marqueteiros de meia tigela propagando promessas absurdas no Clubhouse.

Mas o que significa ser um especialista em marketing digital? O termo é amplo. Vai desde alguém que pode ajudar você a “arrumar” seu Instagram até quem garanta que fará você ganhar bilhões (sim, bilhões) se fizer o curso dele.

Muitas vezes, esses cursos consistem em mentorias. A proposta é simples, você paga pelo curso de um “mentor” que passa “dicas quentes” para você montar o seu negócio digital e após poucas semanas ganhar milhares de reais e de seguidores. O modelo muitas vezes lembra uma pirâmide. O mentor treina você para ser um mentor e aí cabe a você encontrar novos alunos para mentorar e monetizar.

Em algumas salas do Clubhouse há moderadores que inclusive dizem que só vão revelar um “novo segredo” quando determinada meta como chegar a 5 mil ouvintes na sala for atingida. Os mais velhos talvez se lembrem da neurolinguística e seu ícone, Lair Ribeiro. Eles criaram um fenômeno semelhante no Brasil e a piada de que a melhor maneira de enriquecer com neurolinguística era escrevendo um livro sobre neurolinguística. Enriquecer era uma questão de mindset e não necessariamente algo relacionado a fatores externos como sorte ou um longo e tedioso preparo para determinada atividade.

Obviamente, quando milhares de pessoas seguem um método, algumas serão bem-sucedidas. Assim, entre os milhares de alunos dos mentores, alguns irão prosperar, mas apenas uma minoria alcançará o sucesso, não raro por fatores sem relação alguma com a mentoria.

Mas por que o marketing digital e o Clubhouse fazem tanto sucesso no Brasil (já somos o sexto país com mais downloads do app, que por hora é exclusivo para iPhone)? O Clubhouse é o aplicativo do agora, do imediatismo. As conversas não são gravadas e não podem ser ouvidas novamente. É ouvir ou perder. Este mesmo imediatismo nos move a acreditar que enriquecer nas redes sociais ou na internet é fácil.

Outro fator do Clubhouse é o improviso. A rede permite conversas sem grandes preparações. O improviso é a regra. Você faria uma cirurgia ou uma prova de improviso? Provavelmente, não. Mas a crença no improviso, no vai que cola, move boa parte do país em todas as esferas da sociedade. Passar anos estudando ou realizando uma tarefa monótona para se especializar? Melhor ir para o Big Brother.

Finalmente, outra característica do Clubhouse é a presença de gente graúda, de famosos a poderosos que de surpresa aparecem e até interagem com os anônimos nas salas. E no fundo, isso mostra como acreditamos que conhecer a pessoa certa ou falar com alguém poderoso de algum modo nos elevará ao mesmo status. No Brasil o “sabe com quem está falando” é famoso. No Clubhouse, também.

Não surpreende que teorias conspiratórias e fakenews estejam crescendo rapidamente no Clubhouse. Quem acredita em marqueteiros digitais mágicos acredita em qualquer coisa. Mas esse é um problema sério. A plataforma não permite gravar ou registrar as conversas, o que dificulta apurar a veracidade dos fatos. Outro fator é que à medida que o algoritmo começa a entender melhor suas conexões e tempo de uso, tende a criar uma bolha cada vez mais eficiente onde você fala e ouve somente o que quer ouvir.

Antes que alguém me chame de renegado do Clubhouse, gostaria de esclarecer que sou um usuário da plataforma. Mas minha sugestão, como para qualquer tecnologia, é: use com moderação. E por favor, fuja dos marqueteiros com soluções mágicas e das teorias conspiratórias.

Comentários

Últimas notícias