Tecnologia e Inovação, com Guilherme Ravache

Tecnologia e Inovação

Por Guilherme Ravache
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TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Táxi já vale mais a pena que Uber em diversos lugares; falta de motoristas é dramática

A falta de motoristas em países onde a economia voltou a crescer já eleva tarifas e reacende a discussão: é saudável que apenas um pequeno grupo mantenha os privilégios que os trabalhadores lutaram 150 anos para ganhar?

Guilherme Ravache
Guilherme Ravache
Publicado em 06/10/2021 às 10:30
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Táxi já vale mais a pena do que aplicativos de transporte em diversos lugares - FOTO: PIXABAY
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Lembra dos tempos em que as corridas do Uber e 99 eram boas e baratas? Pois então, isso é coisa do passado. Por sinal, em diversos lugares o táxi já está até mais barato que o Uber e demais aplicativos de transporte.

Uma pesquisa divulgada na semana passada pela Gordon Haskett Research Advisors mostrou que as tarifas de corridas em apps aumentaram quase 50% em relação aos preços de 2019 por quilômetro em Chicago, nos Estados Unidos, em agosto, citando dados disponíveis publicamente da cidade. Os dados mostram que os preços aumentaram de forma constante desde novembro, à medida que número de viagens nos apps também melhoraram. Agora, se comparado por quilômetro rodado, ficou mais barato chamar um táxi em Chicago do que ligar para um Uber.

Em janeiro de 2020, custava quase 50% mais viajar de táxi do que usar o Uber em Chicago. A inversão dos valores está diretamente relacionada à falta de motoristas dispostos a trabalhar para o Uber nos Estados Unidos. Há meses a empresa sofre com o baixo número de pessoas dispostas a dirigir para ela.

Diferentemente do Brasil, a economia americana está voltando aos patamares pré-pandemia, e à medida que muitos motoristas desistiram do Uber ou encontraram outros empregos, a empresa se viu obrigada a aumentar o valor das corridas para atrair a mão de obra.

MARCELO APRÍGIO/JC
TRANSPORTE Oferta dos serviços é feita sobretudo em grupos de mensagens, com negociação de preços e sem pagamento de taxas cobradas - MARCELO APRÍGIO/JC

Nova York vê a volta dos táxis

Em Nova York, onde acontecem 23% das corridas nos Estados Unidos, os números do New York City Taxi and Limousine Commission apontam movimento semelhante, com os táxis ganhando mercado na cidade.

Segundo dados da YipitData divulgados pelo Wall Street Journal, uma viagem de Uber custou em média quase 39% mais do que a viagem de táxi na cidade de Nova York em agosto. Há duas semanas, o preço por quilômetro percorrido pela Uber (e Lyft, concorrente local do Uber) nos EUA subiu 26% em relação a 2019 e 17% em relação a janeiro.

As perspectivas dos preços caírem não são boas. A tendência é que mais países adotem medidas como as implementadas no Reino Unido, regulando a atividade dos motoristas de aplicativo garantindo benefícios trabalhistas.

Obviamente, o aumento dos preços pode ser somente um efeito da pandemia, possivelmente as pessoas estejam evitando o transporte público, por exemplo. Mas há indícios de que preços mais altos podem persistir, mesmo em um mundo pós-Covid-19. Além das próprias empresas de transporte estarem pressionadas por lucros após anos de prejuízo, a YipitData indica que os volumes de viagens nos apps aumentaram junto com o preço por milha em setembro, em Nova York e em todos os Estados Unidos.

Preços subindo, e os salários dos motoristas?

No Brasil, a maior parte dos motoristas que me escreve manda imagens com valores de corrida insuficientes para cobrir até mesmo o combustível (isso explicaria os cancelamentos). Infelizmente, muitos deles afirmam seguir no trabalho por falta de alternativa.

Esse é um ponto importante. Nos Estados Unidos o mercado está aquecido e há placas com ofertas de empregos por todos os cantos. No Brasil e países subdesenvolvidos, o cenário é bastante diferente. Não se pode aplicar no mercado americano as mesmas regras do mercado brasileiro.

Obviamente, ninguém gosta de pagar mais por um serviço. Por outro lado, existe uma discussão importante sobre o que é justo com o trabalhador e o movimento de aumento de salários dos motoristas que já acontece nos Estados Unidos, ou ainda a extensão dos direitos de trabalhadores regulares aos motoristas de apps no Reino Unido.

A pessoa que passa jornadas de 10 horas ou mais na frente de um volante é um trabalhador de menor valor que aquele que senta nos escritórios do Uber, por exemplo? O motorista do Uber do terceiro mundo tem o mesmo poder de barganha de um motorista no primeiro mundo?

O fato é que enquanto o Brasil estiver em crise e com um crescente número de desempregados, será fácil para o Uber e demais empresas de tecnologia espremerem os motoristas e colaboradores freelancer para aumentar os lucros.

Mas é saudável que apenas um pequeno grupo mantenha os privilégios que os trabalhadores lutaram para ganhar nos últimos 150 anos e a grande maioria os perca? E não proponho aqui o fim do Uber ou a volta das máquinas de datilografar como um leitor indignado me escreveu.

Minha sugestão é que, assim como no Reino Unido, os trabalhadores do Uber sejam tratados como trabalhadores regulares e tenham os mesmos benefícios. Vale notar que o Uber afirmou que a medida adotada pelos ingleses não iria inviabilizar o negócio no país.

Do mesmo modo, se um motorista de táxi estiver trabalhando para uma empresa de frota (e não for o proprietário do carro), defendo que ele receba os respectivos benefícios dos demais trabalhadores.

Se o Uber tem um problema em seu modelo de negócio, como já discuti aqui, isto é um problema da empresa e seus investidores. Já o nosso problema, como cidadãos, deveria ser priorizar o bem-estar da massa de trabalhadores em motos e carros pelo país. Se as leis trabalhistas brasileiras são antiquadas, que sejam revistas e aplicadas a todas as empresas, sejam de tecnologia ou não.

Como a volta dos táxis nos EUA demonstra, o mercado buscará alternativas se o Uber não existir ou ficar menos poderoso. Se seguirmos o caminho atual, com jornadas de trabalho sem fim e sem qualquer benefício ao motorista, estaremos regredindo 150 anos.

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