Tecnologia e Inovação, com Guilherme Ravache

Tecnologia e Inovação

Por Guilherme Ravache
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TRANSPORTE

Pode acreditar, a Uber perde dinheiro e empurra a conta para os motoristas

Minha crítica é ao modelo de negócio dessas empresas, principalmente, sua viabilidade. Por anos a Uber e seus concorrentes usam de artimanhas fiscais e narrativas fantasiosas para enganar a sociedade

Guilherme Ravache
Guilherme Ravache
Publicado em 18/09/2021 às 20:31
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Semana passada publiquei uma coluna sobre a Uber. Com o título “Problema da Uber é bem maior que preço do combustível (e você paga a conta); entenda outros fatores”, o texto segue entre os mais lidos do Jornal do Commercio e gerou um debate acalorado. Infelizmente, uma pequena parcela se sentiu ofendida pela minha afirmação que a Uber perdia dinheiro, como se minha afirmação fosse um achismo.
Não adianta me xingar nas redes sociais nem espernear. Os números são públicos e auditados. Sim, a Uber perde dinheiro, e não é pouco. Apenas no segundo trimestre deste ano, foram mais de R$ 2,5 bilhões de prejuízo. Em 2020, o prejuízo acumulado no ano foi de mais de R$ 30 bilhões. Exatamente, BILHÕES, você não leu errado. Não acredita em mim, pode checar os números na CNN, Tecnoblog e até no site do Uber. E a 99 dá prejuízo de modo semelhante.

>>> Em meio à alta dos custos, motoristas dizem que reajustes nas tarifas da Uber e 99 são insuficientes

>>> Problema do Uber é bem maior que preço do combustível (e você paga a conta); entenda outros fatores

Importante, não aponto os prejuízos do Uber para justificar as plataformas tentarem pagar menos aos motoristas, ao contrário. Minha crítica é ao modelo de negócio dessas empresas, principalmente, sua viabilidade. Por anos a Uber e seus concorrentes usam de artimanhas fiscais e narrativas fantasiosas para enganar a sociedade e seguir perdendo dinheiro, enquanto os motoristas enfrentam condições de trabalho cada vez piores.

Uber dá prejuízo, mas não fecha

Mas “negócio que dá prejuízo fecha”, comentou um leitor. É verdade, mas esquemas de pirâmide e negócios que dão prejuízo podem funcionar por muitos anos mesmo sendo inviáveis. As Fazendas Reunidas Boi Gordo por anos deram prejuízo antes de pedirem a falência. Enquanto um número suficiente de pessoas acredita que irá recuperar o investimento e as empresas conseguem achar mais capital para manter a operação, elas podem sim seguir abertas.

Justamente para evitar o destino de empresas que vão à falência, porque até os mais esperançosos investidores perdem a paciência depois de algum tempo, a Uber prometeu começar a dar lucro em 2021. E como uma empresa pode dar lucro? Ganhando mais dinheiro. Como isso pode acontecer? Ela pode cortar custos como aluguel, reduzir equipe, renegociar contratos. Mas no caso da Uber, que basicamente terceiriza toda a mão de obra e quase não tem ativos físicos, não há muitas alternativas onde cortar.

Demitir os próprios funcionários, por exemplo, a empresa já fez. Em 2020, cortou 14% da mão de obra fixa da empresa, principalmente nas áreas de marketing e administração. Então, no caso da Uber, para ganhar mais dinheiro e dar lucro, o único caminho é cobrar mais dos usuários, pagar menos aos motoristas ou ambos. O que de fato passou a acontecer com mais frequência em 2021.

O problema de aumentar os preços é que isso também diminui a demanda. Quanto mais caro o serviço, maior o incentivo das pessoas a buscar uma alternativa mais barata. Ou seja, o aumento de preço também derruba a receita. Então, não surpreende que a pressão esteja aumentando para o lado dos motoristas, a parte mais frágil da equação.

Motoristas perdem dinheiro

Possivelmente, uma das únicas vantagens do Uber seria a sua “tecnologia superior”. Mas isso é cada vez mais questionado. Fica cada vez mais claro que a tecnologia da Uber está longe de ser eficiente como a empresa tenta fazer os motoristas e usuários acreditarem. Pior, o algoritmo da empresa é cheio de problemas.

Diversos motoristas da Uber mandaram prints de tela mostrando como o valor da corrida era incompatível até mesmo com o custo da gasolina necessária para percorrer o trajeto. “O aplicativo faz você rodar atoa. Se VC não conhece as localizações (com mais passageiros) você às vezes tem que rodar o dobro, são vários problemas”, o motorista Armando me contou.

A motorista Kelly, do Distrito Federal, dá mais detalhes. “A Uber e a 99 abriram uma nova modalidade, a 99 poupo e a Uber promo. Essas modalidades não pagam taxa de deslocamento, o valor fica um valor fixo e esse valor fixo às vezes não é nem R$ 1 por quilômetro. Por esse motivo os cancelamentos são grandes, não é porque não tem motorista na região, é porque o valor não corresponde ao necessário para a gente se deslocar”.

Kelly destaca ainda que os cancelamentos não são má vontade dos motoristas. "É muito fácil falar que nós cancelamos. Existem motivos a serem considerados, eu não vou me deslocar para ganhar R$ 50 centavos, o quilômetro, não paga as minhas despesas com combustível, com desgaste do carro, não é compensador esse tipo de corrida”.

Se os algoritmos dessas empresas não entendem que o valor pago por quilômetro rodado não “cobre” nem os custos básicos do motorista, então esse algoritmos são burros ou alguém os programa para que tirem proveito dos motoristas desavisados.

Vale notar que estudos já mostraram que boa parte dos motoristas de aplicativo perdem dinheiro e nem se dão conta disso por não calcular corretamente os custos de manutenção, impostos e despesas extras. Ou seja, o combustível é apenas uma pequena parte da equação.

 

Projeto de lei tenta consertar problema da Uber

Os aplicativos se beneficiam de uma situação econômica difícil de grande parte da população brasileira, mas até certo ponto. Mão de obra barata em grande volume é bom para reduzir os pagamentos dos motoristas que aceitam ganhar menos, mas há um limite.

Como milhares de desempregados encontram na plataforma uma alternativa de renda, o número de motoristas talvez tenha crescido tanto a ponto de ter se tornado insustentável. Há tantos motoristas nas plataformas que não existe demanda suficiente. E a crise econômica e a covid-19 pioram a situação, já que as pessoas acabam se deslocando menos.

E vai piorar. Como a minha colega Roberta Soares aponta, a briga entre motoristas e aplicativos de transporte como Uber e 99 vai aumentar. Um Projeto de Lei apresentado esta na Câmara dos Deputados, o PL 3185/2021, impõe regras e limites para o banimento dos condutores das plataformas. Ou seja, o artifício de bloquear os motoristas para controlar a oferta se tornará mais limitado. Pela proposta, a empresa operadora de aplicativos de transporte de passageiros ou entrega de mercadorias devera comunicar sobre o bloqueio, a suspensão ou a exclusão dos prestadores de serviço com antecedência mínima de 24 horas. E mais, terá de explicar a razão.

Na raiz do problema está a precarização do trabalho dos motoristas, e provavelmente, a grande questão desse conceito de “nova economia” e a “uberizacão” das relações de trabalho. Sem direitos trabalhistas e valores mínimos, a atividade se torna uma corrida para o fundo do poço para quem presta serviço nas plataformas digitais.

Como o motorista do Uber pode ganhar mais?


Segundo o leitor Alessandro, “o ‘simples’ ajuste da TARIFA (aumento do valor) NÃO RESOLVE ABSOLUTAMENTE NADA. É preciso entender de uma vez que o problema não está no valor da TARIFA; mas no excesso de demanda (quantidade de Motoristas disponíveis). A recessão econômica fez todo e qualquer desempregado procurar o App e não tem como haver viagem suficiente para atender a toda essa demanda de desempregados (temporariamente na condição de Motoristas de App). É impossível!”

Já comentei anteriormente que o fato de qualquer empresa conseguir copiar o Uber é um de seus grandes problemas. “Se você tem 2 MIL profissionais inscritos nas (plural) plataformas, na condição PRÁTICA você tem 4 MIL veículos na rua (2 MIL UBER E OS MESMOS 2 MIL NA 99). Se houver outra plataforma para entrar no mercado, a condição só tende a piorar”, calcula Alessandro.

Alessandro sugere quatro pontos, que outros motoristas de diferentes modos também demandam:

1. “Acabar com a "promiscuidade" do Motorista de App. É preciso estabelecer a fidelidade à plataforma. Motorista de Uber não pode trabalhar na 99. Essa fidelidade à plataforma muda substancialmente a condição do Motorista. A verdade é que o motorista é descartável. A procura é muito grande”.

2. “Estabelecer um piso de rendimentos. Não dá para ficar no padrão atual: ganha o que conseguir. A empresa sabe os números e com o piso deverá modular automaticamente a quantidade de motoristas cadastrados”.

3. “Determinar a diferenciação entre o "Motorista Trabalhador " e o "Motorista Freelancer". Não dá para pagar todos da mesma maneira. O motorista trabalhador precisa ter preferência, respeito e consideração funcional da empresa. O Motorista Trabalhador precisa de um piso salarial diferenciado. Obs.: Motorista Trabalhador é todo aquele Motorista que trabalha, no mínimo, 44hs semanais”.

4. “Adicional noturno, feriados e finais de semana dobrado”.

Todas estas medidas podem ajudar, mas não vejo como não aumentariam o valor das corridas.

Alguns leitores afirmaram que a contratação dos motoristas como CLT seria a melhor solução para o trabalhador. Isso inclusive dispensaria a necessidade de PLs e medidas complexas de cotas e exclusividade para motoristas. Mas os mesmos leitores são rápidos em dizer que tornar os motoristas CLT inviabilizaria o negócio da Uber e 99.

Talvez esse seja um negócio inviável para a Uber e a 99, mas não de maneira geral. Não faz tanto tempo, existia um modelo onde indivíduos ou empresas compravam licenças dos governos e prestavam serviços seguindo regras determinadas pelo Estado. Esse negócio funcionou bem por várias décadas, inclusive permitia aos motoristas levarem um padrão de vida de classe média. O nome desse negócio: táxis.

Sim, eles eram mais caros que a Uber. Mas talvez esse seja o ponto, tudo tem um preço e a Uber não é mágico, é apenas uma empresa de transportes que vale bem menos do que os investidores imaginaram.

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