Crítica

'The Eddy', minissérie original Netflix, dá ritmo de jazz para história de traumas

Com dois episódios dirigidos por Damien Chazelle (La La Land), 'The Eddy' gira em torno de um clube de jazz em Paris e seu dono melancólico, buscando uma harmonia na vida; confira crítica

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 21/05/2020 às 18:47
Crítica
Lou Faulon/Netlix/Divulgação
As dores e a ternura de 'The Eddy' parecem acompanhar uma certa noção de fazer música - FOTO: Lou Faulon/Netlix/Divulgação
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The Eddy, minissérie em oito capítulos original Netflix, teve como um de seus principais motes publicitários a direção ao encargo de Damien Chazelle, vencedor do Oscar por La La Land: Cantando as Estações. O diretor, que tem sua breve filmografia muito ligada à música e demonstra um certo carinho pelo jazz, é responsável apenas pelos dois primeiros capítulos da produção. E se a intenção publicitária for buscar espectadores que esperam encontrar algo próximo do filme anterior do diretor, talvez haja frustração.

The Eddy funciona quase como um anti-La La Land. Aqui, o romantismo não é uma constante, mas algo esquecido. Uma espécie de utopia que às vezes aparece para tomar um ar, mas logo é esquecido, já que necessita de uma harmonia para existir. E é a ausência e uma certa busca dessa harmonia que parece conduzir todos os aspectos narrativos e de encenação da minissérie criada por Jack Thorne.

Essa tensão entre a dissonância e harmonia na vida das pessoas busca encontra respaldo na música e na ideia da música. Seus personagens soam como instrumentos de uma banda das mais misturadas vertentes do jazz, que precisam funcionar em conjunto ao mesmo tempo em que são tão diferentes. E quando funcionam, é algo efêmero, reiniciando a busca pela harmonia da música seguinte em todas suas minúcias. Algo que é muito mais difícil quando esses instrumentos/personagens estão sempre precisando de algum conserto, seja com os traumas do passado ou as angústias do presente.

Consertando lugares e pessoas

Acompanhamos o The Eddy, um clube de jazz nos subúrbios de Paris comandado pelo americano Elliot Udo (André Holland), uma estrela do ritmo que decidiu abandonar aos palcos. Udo também é responsável pela banda principal do clube, atuando como compositor e arranjador, na busca de um contrato com uma gravadora para a iniciativa. E isso não é tudo com que ele precisa lidar. Há uma relação de hostilidade com a cantora do grupo, com quem ele teve um enlace amoroso de longa data; sua filha adolescente entra em conflito com a mãe e ficará sob a tutela de Elliot e um crime bárbaro envolvendo seu melhor amigo e co-administrador do clube acaba colocando todo seu trabalho em risco.

Logo nos primeiros minutos, ao encargo de Chazelle, a direção fixa um clima de algumas densidades: dramática, visual e rítmica, que será latente pelos próximos episódios. O ambiente não é a Paris de monumentos, vivacidade e romance. É a Paris mais cinza, urbana e afastada de idealismos visuais. O próprio The Eddy é um estabelecimento de subsolo, um inferninho chic de paredes com tijolos expostos. Seu universo de personagens são todos quebrados, melancólicos ou revoltados. E o mundo é filmado por uma câmera instável e movimentada, que se enfia nos mais atribulados espaços, mas também continua agitada nos momentos mais intimistas.

 

Tudo isso parece estar ligado a uma lógica rítmica e temática que parece ser ligada ao jazz em si. A câmera se movimenta com ares de improvisação e um dinamismo liberto de engessamentos, como uma jam. Seu protagonista é legitimado por uma elite cultural, dono de um passado glorioso, mas ainda assim vive em uma espécie de submundo, lutando para sobreviver em meio a melancolia, impulsionada pela atuação acertadamente apática de André Holland. No meio disso tudo, novos fôlegos acabam surgindo de outros lugares. Na juventude, nas periferias e nos sons que vêm de outros lugares do mundo, como uma materialização narrativa das incorporações que o jazz fez em sua história.

E a partir dessa lógica, há também um caminhar que busca, nem sempre encontrando, uma espécie de ternura, além de um caráter mais universal. Elementos melodramáticos clássicos, como uma trama policial e um romance adolescente, estão ali meio que para dar esse esse respiro dentro da climática de cinismo e bad vibe. São elementos que talvez um funcione melhor que o outro quando observados isoladamente, mas que em conjunto acabam trazendo algo maior: uma busca por pitadas de romantismo e um vislumbre de algo próximo de um final feliz.

Nem sempre isso é algo possível, mas o indicativo de haver esse desejo por ali é uma força a parte. A câmera parece encontrar um pouco mais de estabilidade e sopros da Paris enquanto “cidade luz” ganham um pouco mais de espaço. Momentos de dor encontram alívio na música feita com afeto e por pessoas queridas. Mesmo que depois venha mais dor. É nesse constante pêndulo que The Eddy vai se desenrolando, passando a maior parte do tempo na melancolia, mas encontrando respiros artísticos na ternura.

Lou Faulon/Netflix/Divulgação
O 'The Eddy' e sua banda no subterrâneo - FOTO:Lou Faulon/Netflix/Divulgação

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