Polêmica

Aliança Nacional LGBTI+ processa Ana Paula Valadão por homofobia

Pastora e líder do Ministério de Louvor Diante do Trono precisará prestar contas sobre discursos que desprezam a comunidade LGBTQ

Robson Gomes
Robson Gomes
Publicado em 16/09/2020 às 19:12
YOUTUBE/REPRODUÇÃO
Vídeo com declaração de teor homofóbico de Ana Paula Valadão é datado de 2016 - FOTO: YOUTUBE/REPRODUÇÃO
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“Sobretudo, amem-se sinceramente uns aos outros, porque o amor perdoa muitíssimos pecados”: esta passagem é encontrada no primeiro livro de Pedro, capítulo 4, versículo 8 do Novo Testamento. E se o amor é capaz de perdoar, a falta dele traz um cenário de desamor e discursos de ódio, intolerância e falta de empatia.

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Este último contexto explica o repúdio demonstrado pela comunidade LGBTQIA+ diante da declaração protagonizada pela líder do Ministério de Louvor Diante do Trono, Ana Paula Valadão, num vídeo datado de 2016 e propagado nas redes sociais no último fim de semana. 

Nesse registro, a cantora e pastora mineira de 44 anos declarou durante um congresso que a homossexualidade “não era normal” e que a Aids mostrava que “a união sexual entre dois homens causa uma enfermidade que leva à morte e contamina as mulheres”, pois “o sexo seguro é a aliança do casamento [apenas] entre homem e mulher”.

O vídeo viral de Ana Paula chegou dias depois que seu irmão, o também pastor e cantor André Valadão, de 42 anos, afirmou em seu stories no Instagram que a igreja não era ambiente para os homossexuais.

“Eles podem ir para um clube gay ou coisa assim. Mas igreja, não dá”, escreveu ele. Como resultado, os dois, que cresceram na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, estão sendo acusados de homofobia. Com a vocalista do Diante do Trono porém, além do “cancelamento” nas redes sociais, também será alvo de um processo por parte da Aliança Nacional LGBTI+.

Através de uma nota, a Aliança afirmou que o discurso da pastora “beira ao absurdo, extrapolando a liberdade religiosa e de expressão, tornando-se um discurso odioso, fanático e amplamente desproposital, com consequências potencialmente desastrosas, principalmente para quem a segue”.

Celebridades como Xuxa Meneghel também foram contrários a opinião de Ana Paula. A apresentadora escreveu no Instagram que é preciso, sim, se posicionar contra o preconceito e a discriminação, “só assim meus netos poderão viver num mundo melhor!”. “Isso não pode ser uma briga ou uma decepção só para quem é LGBT. Não podemos e não devemos tolerar mais preconceito, discriminação em nome de Deus. Quem concorda com essa senhora, saiba que é CRIME, e guarde sua falta de amor ao próximo para você”, concluiu Xuxa.

Na última segunda-feira (15), o padre mineiro Juarez de Castro disse em seu programa de TV que a fala da cantora era uma “burrice misturada com preconceito”, e completou: “O preconceito é uma doença mais feia, mais horrível do que a própria Aids”.

Os argumentos sustentados pela Aliança Nacional LGBTI+ baseiam-se em fatos: a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade do catálogo de distúrbios há três décadas. E a partir do momento em que Ana Paula Valadão associa a prática homossexual como pecado e tendo morte como consequência e punição uma síndrome que mata milhões de homens, mulheres e crianças no mundo todo, ela contribui para um discurso homofóbico, o que é crime no Brasil.

No País que mais mata homossexuais no mundo, em que um LGBT é morto a cada 23 horas, segundo dados do Grupo Gay da Bahia, esse tipo de intolerância é perigosa, e não confirmada pelas estatísticas. E de acordo com o Ministério da Saúde, de 2007 a 2019, os heterossexuais foram responsáveis por 58% dos novos casos de infecção por HIV no Brasil.

Após a polêmica invadir as redes sociais, Ana Paula Valadão preferiu o silêncio e a reclusão, limitando os comentários em sua página pessoal no Instagram e não tem postado mais stories, o que fazia com regularidade para seus 2,8 milhões de seguidores.

CONTRADIÇÃO

Procurada via assessoria de imprensa, a reportagem do Jornal do Commercio não teve retorno até a publicação desta matéria. A Igreja Batista da Lagoinha, procurada por outros veículos de imprensa, também não quis se manifestar.

Entre os admiradores do Diante do Trono, os discursos em geral são de apoio à Ana Paula Valadão, mas alguns reconhecem o erro da pastora. “Não dá para supor que você esteja sendo vítima ou algo do tipo. Infelizmente, todo o rancor de milhares de pessoas, não só pela sua triste fala, mas pelo que a Igreja no Brasil está representando, está sendo descontado em sua imagem”, diz o trecho de uma carta aberta de um perfil dedicado ao DT no Instagram.

A contradição maior nesta história vem das próprias canções compostas e entoadas por Ana Paula nestes pouco mais de 20 anos de Diante de Trono. Versos amorosos como “Vem, filho amado, vem como estás”, que somos “perfeitos aos olhos do Pai” e que é preciso “liberar o perdão 70 vezes 7”, baseados em trechos bíblicos, esvaziam-se quando confrontados com uma pregação de tamanha intolerância travestido de “discurso religioso”.

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