CINEMA

Confira a programação completa do Baobácine, Mostra de Cinema Africano do Recife

Esta é a segunda edição do festival, que neste ano tem como tema "Entre territórios e travessias cinematográficas"

Bruno Vinicius
Bruno Vinicius
Publicado em 03/12/2021 às 16:04
Notícia
Divulgação
Filme 'Conversando sobre árvores', que está presente na Baobácine - FOTO: Divulgação
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A arte é uma das melhores formas de se resgatar a ancestralidade negra. Este é um dos propósitos da Baobácine - Mostra de Cinema Africano do Recife, que chega com uma programação de cinema africano e produções afrodiaspóricas no Teatro do Parque, a partir desta segunda-feira (6). Esta é a segunda edição do festival, que neste ano tem como tema “Entre territórios e travessias cinematográficas”, em que há a incursão de filmes clássicos e contemporâneos produzidos no continente africano e também por pessoas negras fora do território.

Esta edição traz uma atenção especial ao que está sendo produzido no Sudão. A produção dos filmes no país tem sido diretamente impactada pelos processos de ruptura política, que marcam sua história recente. "Conversando sobre árvores "(2019), de Suhaib Gasmelbari, "Jamal" (1981), de Imbrahim Shaddad, "Tajouj" (1977), de Gadalla Gubara e "Impedimento em Cartum (2019)", de Marwa Zein, são as quatro produções que chegam aos olhos recifenses.

A mostra tem curadoria de Janaína Oliveira e Ludimilla Carvalho. Elas trouxeram algumas produções fundamentais dentro do circuito afrodiaspórico, a exemplo de "Uma escavação de nós", de Shirley Bruno, do Haiti; e "Pattaki", de Everlane Moraes, filme de Cuba. Além deles, o público pode conferir "O livro de Jasmine" (2017, Barbados), de Melanie Grant e "Contrafeitiço" (2019, EUA), de Madeleine Hunt-Erlich.

"Em meio aos distanciamentos necessários e às conexões virtuais, adaptações constantes de rotinas e perspectivas, estamos finalizando o ano de 2021 com a segunda edição da Bobácine - Mostra de Filmes Africanos do Recife. Para nós, da Baobácine, o momento é de continuidade e alegria, mas também de reflexão", afirmam as curadoras.

De certa forma, a mostra virou uma resistência em meio à avaliação da trajetória das duas. "Não apenas sobre as possibilidades de realização da Mostra, tendo em vista as incertezas e dificuldades vivenciadas por quem entende a cultura e sua difusão como um gesto político de resistência, mas também, porque o exercício reflexivo permite avaliar tanto a nossa própria trajetória, quanto a dos cinemas africanos", explicam Ludimilla e Janaína.

Formação

Além da exibição dos curtas e longa-metragens, haverá um espaço para outras atividades. O minicurso O cinema e o espelho, que será facilitado pela cineasta Everlane Moraes no Museu do Barro de Caruaru. Já a roda de conversa Cinema e Educação acontecerá no Teatro do Parque, tendo a participação de cineastas negros/as e da periferia da Região Metropolitana do Recife e de Caruaru.

Circulação

Além da exibição dos filmes no Recife, entre os dias 6, 7 e 8 de dezembro, o II Baobácine acontcerá também nos dias 18, 20 e 21 deste mesmo mês no Sesc Caruaru e Museu do Barro, no Agreste de Pernambuco.

Serviço
II Baobácine – Mostra de Filmes Africanos em Recife
6, 7 e 8 de dezembro no Cineteatro do Parque (Recife)
18, 20 e 21 de dezembro no Sesc Caruaru e Museu do Barro (Caruaru)
Ingressos: R$6 e R$3 (Recife); gratuito (Caruaru)

CONFIRA A PROGRAMAÇÃO COMPLETA DE FILMES:

RECIFE

Dia 01 - 06/12 - SEGUNDA-FEIRA

18h - SESSÃO 1 - Territórios cinematográficos: entre legados, trajetórias e lutas

Câmera da África (Camera d’Afrique, Tunísia, 1983, 90 min),
Sinopse: Setenta anos após a invenção do cinema, e mais de meio século de cinema colonial no qual a África é usada como cenário exótico e seus habitantes retratados sem humanidade e dignidade, os africanos de países recentemente tornados independentes, finalmente assumem o controle das câmeras. Enfrentando obstáculos praticamente intransponíveis, como a falta de equipamento e infraestrutura, aproveitando qualquer apoio dentro e fora de África, eles se esforçam para transmitir as diversas realidades do continente, vistas através de seus próprios olhos. Realizado ao longo de dez anos, Câmera da África retrata os primeiros 20 anos de atividade de criativos realizadores da África Subsaariana, documentando uma sede de expressão que permanece até hoje.
Ficha técnica: direção / direção de fotografia - Sekou Ouédraogo e Charly Meunier / Montagem - Andrée Davanture e Juliana Sanchez

Karingana - Os Mortos Não Contam estórias (Moçambique, 2020, 10min), de Inadelso Cossa
Sinopse: Após 30 anos no exílio de morte e esquecimento, Nkomba Yengo retorna à sua aldeia natal para ouvir as histórias fantásticas do velho Yamba, mas o encontra surdo e mudo, e uma aldeia com amnésia e traumatizada pela Guerra Civil. Ele percebe então, que não há mais ninguém para lhe contar estórias, exceto o cinema.
Ficha técnica: Direção, direção de fotografia e montagem - Inadelso Cossa

20h - SESSÃO 2 - Territórios cinematográficos: cinema e resistência no Sudão

Conversando sobre árvores (Talking about trees, Sudão, 2019, 93min)
Sinopse: Ibrahim, Suleiman, Manar e Eltayeb são amigos há mais de quarenta e cinco anos. Eles deixaram seu país de origem nas décadas de 1960 e 1970 para estudar cinema no exterior e quando retornaram fundaram o Sudanese Film Group em 1989. Após anos de afastamento e exílio, eles se reúnem e esperam finalmente realizar seu antigo sonho: trazer o cinema de volta ao Sudão.
Ficha técnica: direção e direção de fotografia - Suhaib Gasmelbari / Montagem - Gladys Joujou e Nelly Quettier


Jamal (Sudão, 1981, 14min)
Sinopse: O curta-metragem Jamal, de Ibrahim Shaddad, membro fundador do Sudanese Film Group, é o retrato da vida de um camelo, a maior parte dela, passada em uma pequena e monótona sala - um moinho de gergelim.
Ficha técnica: direção - Ibrahim Shaddad / direção de fotografia - Elhadi Ahmed Ibrahim e Salah Eddeen Awad / Montagem - Abdel Gadir Daoud

Dia 02 - 07/12 - TERÇA-FEIRA

18h - SESSÃO 3 - Territórios cinematográficos em diálogo

O livro de Jasmine (The book of Jasmine, Barbados, 2017, 15 min)
Sinopse: Jasmine é uma jovem Batista que deve escolher entre sua fé e sua sexualidade. Ao passar pelo ritual de luto na busca de orientação para suprimir seus desejos pela mulher que ama, ela é levada a uma jornada espiritual na qual encontra a resposta que estava procurando.
Ficha técnica: direção, direção de fotografia e montagem - Melanie Grant

Tajouj (Sudão, 1977, 90 min), de Gadalla Gubara
Sinopse: O filme se passa há cem anos no leste do Sudão, em um local de total isolamento. Tajouj é a bela prima de um jovem tribal que a ama profundamente. Ele declara publicamente seu amor por ela em uma canção. As tradições da tribo denunciam tal ato e, consequentemente, seu tio recusa a proposta de casamento. Mas depois que o jovem sai e declara seu arrependimento, o casamento é finalmente autorizado. Nesse ínterim, no entanto, outro homem se interessa por Tajouj, o que leva o jovem ao ciúme. Prepara-se o cenário para uma série de transgressões que irão culminar em tragédia, e levar o jovem ao exílio como um bardo errante dos desertos.


20h - SESSÃO 4 - Territórios cinematográficos em diálogo

Sega (Etiópia/EUA, 2018, 26min)
Sinopse: Quando seus esforços para chegar à Europa se revelam infrutíferos, Sega é forçado a voltar para Dakar, onde agora deve confrontar sua família e amigos e lidar também com sua decepção.
Ficha técnica: direção - Idil Ibrahim / direção de fotografia - Dylan Verrechia / Montagem - Ray Muhammad

Você vai morrer aos 20 (Tu mourras à 20 ans, Sudão, 2019, 105m)
Sinopse: Sudão, província de Aljazira, dias atuais. Logo após o nascimento de Muzamil, o líder religioso da vila prevê que ele morrerá aos 20 anos. O pai da criança não suporta o peso dessa maldição e foge. Sakina então cria seu filho sozinha, incubando-o com todas as suas atenções. Um dia, Muzamil completa 19 anos…
Ficha técnica: direção - Amjad Abu Alala / direção de fotografia - Sébastien Goepfert /
Montagem - Heba Othman


Dia 03 - 08/12 - QUARTA-FEIRA

14h - SESSÃO 5 - Territórios cinematográficos em diálogo no feminino

Contrafeitiço (Spit on the Broom, EUA, 2019, 12 min)
Sinopse: O filme explora a história da United Order of Tents, uma organização clandestina de mulheres negras surgida nos anos 1840, durante o apogeu do Underground Railroad (rede de rotas clandestinas e abrigos secretos existente nos Estados Unidos durante o século XIX, usada para a fuga de escravos afro-americanos para os estados do Norte ou para o Canadá). Por respeito ao sigilo permanente do grupo, o filme estrutura-se em torno de excertos do domínio público, artigos de jornal relacionados com a Tents ao longo de 100 anos, e uma trama visual de fábula e mito como forma de apresentar uma história que permanece secreta.
Ficha técnica: direção - Madeleine Hunt-Erlich / direção de fotografia - Jon Sesrie Goff / montagem (o filme não indica nos créditos. Nem no site da diretora tem)

Impedimento em Cartum (Khartoum Offside, Sudão, 2019, 75 min)
Sinopse: Algumas jovens de Cartum, capital do Sudão, estão determinadas a jogar futebol profissionalmente. Para isso, elas desafiam a proibição imposta pelo governo militar islâmico do país. O caminho para serem oficialmente reconhecidas como a equipe nacional feminina do Sudão é repleto de determinação, coragem e, muitas vezes, de algum humor. Por meio do retrato dessas mulheres ao longo de vários anos, acompanhamos seus momentos de confiança e de decepção. No entanto, um fio de esperança surge nessa jornada quando novas eleições dentro da federação de futebol podem significar uma verdadeira mudança em todo o sistema.
Ficha técnica: direção e direção de fotografia - Marwa Zein / Montagem - Mohamed Emad Rizq

16h - Roda de conversa Cinema e Educação - os cinemas negros que reavivam imaginários e narrativas nas comunidades. No Pátio externo do teatro, no Marco Zerinho.

Consideramos a atuação dos grupos e coletivos culturais nas comunidades periféricas espaços de muita potência para a prática e a disseminação das culturas negras que atravessam os imaginários e narrativas dos cinemas negros. Possibilitar um momento de partilha de experiências entre alguns dos grupos e coletivos culturais que têm como braço de formação o audiovisual enquanto arma da população preta contra o estado de opressão, nos parece um caminho imprescindível. Partilhar planos de fuga com o público faz parte do processo de criação de novos horizontes cinematográficos.

Convidades:

Adriano Lima - Angola Filmes, Paulista/PE
Jornalista e repórter cinematográfico, atua desde 2005 como cinegrafista, fotógrafo e produtor cultural. Após passar por várias experiências em produtoras e coletivos de produção independente e comunitária, como o Coletivo Gambiarra Imagens e o Vídeo nas Aldeias, atualmente está à frente da Angola Filmes, produtora de conteúdo audiovisual que tem como objetivo documentar e registrar diversos segmentos e expressões da cultura popular, periférica e religiosa afroindígena.

Davi Batista da Silva - Coletivo Cuca Livre, Caruaru/PE
Cineasta, cineclubista, filmmaker, produtor, roteirista e fotógrafo. Co-diretor do curta-documentário Para que não se acabe (2021/LAB PE). Fez still e fotografia no curta-documentário Entre a Serra e a Malhada (2021/LAB PE). Produtor do curta Baldía (2018), premiado no festival de Cinema de Caruaru e exibido em Bogotá (Colômbia), Salvador e São Paulo. Realizador do curta Pare, Olhe e Escute (2019). Produção e som direto em Ela é artista (2018), co-criador do Cine Cuca Livre, cineclube itinerante que exibia curtas em praças e promovia debates e ações sociais em Caruaru.

Gleyci Nascimento - Coletivo Ficcionalizar, Jaboatão/PE
Artista popular engajada no resgate, registro e preservação de memórias ancestrais. Corpo que se move a serviço da denúncia de duras realidades com que as comunidades se confrontam através do audiovisual. Neste campo, realiza funções de roteiro, direção e produção. Atua no cinema negro periférico de forma itinerante na região metropolitana do Recife e no interior de Pernambuco. Estudante de Letras da UFRPE. Participa desde 2016 do Coletivo Ficcionalizar.

Yane Mendes - Rede Tumulto, Recife/PE
Cineasta periférica da favela do Totó, no Recife. Educadora social, coordena a Rede Tumulto, que promove articulação, comunicação e formação nas periferias da cidade. Faz parte da ANJF - Articulação de Negras Jovens Feministas e constrói o MAPE - Mulheres do Audiovisual de PE. Utiliza a câmera como arma de transformação do mundo, denunciando as violações de direitos. Através de seus filmes, traz inquietações sobre a valorização do território e dos moradores de periferias.


19h - SESSÃO 6 - Travessias experimentais entre África e diáspora


Uma escavação de nós (An excavation of us, Haiti, 2017, 12 min)
Sinopse: As sombras do exército de Napoleão caem sobre um barco que percorre a misteriosa caverna com o nome de sua lenda Marie Jeanne, uma mulher que lutou na Revolução Haitiana. É esta batalha dentro de sua caverna que se tornará a revolução escrava mais bem sucedida da história.
Ficha técnica: direção - Shirley Bruno / direção de fotografia - Shirley Bruno e Alexandru Petru Badelita

Pattaki (Cuba, 2018, 21 min)
Sinopse: As águas regem e nutrem a vida. À luz da lua cheia, a maré sobe, invade a cidade, inunda os seres que a habitam. Um filme-oferenda para Iemanjá.
Ficha técnica: direção - Everlane Moraes / direção de fotografia - Flávio Rebouças / Montagem - Keyli J. Estrada


Mãe estou sufocando. Este é meu último filme sobre você (Mother I’m suffocating, this is my last film about you, Lesoto, 2019, 76min)
Sinopse: Uma mulher atravessa as paisagens e multidões de um país sem nome, carregando uma pesada cruz nas costas. Nas imagens, a voz distante de uma criança chama a sua mãe, acusando-a, rejeitando-a. Neste primeiro longa-metragem experimental, Lemohang Jeremiah Mosese mistura o pessoal e o político. Ele contempla de longe o lugar de onde vem - Lesoto, na África do Sul - que trocou por Berlim. A mãe do filme se revela como a pátria, contra a qual ele se revolta. Seu discurso incomum e perturbador revela impaciência e frustração diante de uma sociedade vergada sob o peso da história, da religião e dos especuladores. As poderosas evocações visuais com seu ritmo lento dão substância às palavras com uma violência dura que, no entanto, é inseparável de um apego profundo.
Ficha técnica: direção, direção de fotografia - Lemohang Jeremiah Mosese / Montagem - Mashabushabu Mosese, Arata Mori

CARUARU

Dia 01 - 18/12 - SEXTA-FEIRA

18h - SESSÃO 1 - Territórios cinematográficos: entre legados, trajetórias e lutas

Câmera da África (Tunísia, 1983, 90min), de Férid Boughedir
Karingana - Os Mortos Não Contam estórias (Moçambique, 2020, 10min), de Inadelso Cossa


20h - SESSÃO 2 - Territórios cinematográficos: cinema e resistência no Sudão

Conversando sobre árvores (Talking about trees, Sudão, 2019, 93min), de Suhaib Gasmelbari
Jamal (Sudão, 1981, 14min), de Ibrahim Shaddad

MINICURSO

O CINEMA E O ESPELHO, com Everlane Moraes (SE/BA) - Museu do Barro, Caruaru/PE, 20 e 21 de dezembro de 2021, 18h. O minicurso propõe a construção de novos olhares a partir da perspectiva de um cinema não-hegemônico, que representa diferentes espaços e experiências, atravessados pelo contexto de colonização em que fomos inseridos.

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