HIP HOP

Um desafio de letra e ritmo no novo EP de Okado do Canal e DJ Phino

Rapper e beatmaker pernambucanos uniram-se em uma batalha de estímulo criativo desenvolvida durante a pandemia

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 04/06/2021 às 7:00
RODRIGO GARCIA/DIVULGAÇÃO
Conceito do trabalho inédito põe os artistas como combatentes e treinadores de si - FOTO: RODRIGO GARCIA/DIVULGAÇÃO
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Um dos nomes mais prolíficos entre os jovens talentos do hip hop pernambucano, o rapper Okado do Canal lançou há uma semana mais um trabalho autoral, o EP DESAFIO - DJ Phino versos Okado do Canal, em que, como sugere o título, une-se ao parceiro beatmaker para um duelo artístico e criativo entre rimas e batidas, que vão do afrotrap ao clássico boombap.

DJ Phino e Okado estavam acostumados a dançar break juntos e as batalhas artísticas, tão comuns entre as múltiplas expressões das culturas urbanas, foram um dos fios inspiradores para a concepção do projeto durante este momento de pandemia.

"Eu tinha acabado de lançar o Preto Mermo (EP solo, de março de 2020), [estava] sem shows, muito tempo trancado em casa... aí surgiu a oportunidade de fazer uma live. Durante os ensaios, a gente começou a debater o que a pandemia estava causando em nossa mente, eles de lá, eu de cá", conta Okado em conversa por telefone com o JC. "Percebemos que os artistas estavam muito voltados em produzir sobre a pandemia e eu queria fazer mais do que isso. [Queria] falar sobre conquistas, sobre passado e também como pode ser mais para a frente. Claro, também queríamos fazer algo para nos entreter, aí é que entra o lance da disputa".

A chama inicial foi a letra de Não Posso Perder, a abre alas do EP, escrita por Okado e para a qual DJ Phino deveria criar uma batida. O beatmaker retornou não com uma, mas com duas criações rítmicas, já com a intenção de que a segunda servisse de base para mais uma "canetada" de Okado. A conversação prosseguiu até que as seis faixas de DESAFIO estivessem prontas e lapidadas.

"A gente brincou com a ideia de que nesse desafio, nossos treinadores no preparo contra o oponente seríamos nós mesmos. Isso aparece até na arte da capa (em que ambos surgem em duas imagens - vestindo luvas de boxe, e como mentores de si)", observa Okado.

Já na primeira música, Okado do Canal repassa instantes de sua vida, pessoal e artística, relembrando as dificuldades e a inteligência emocional investida em resistência: "Fui programado pra matar / Pra não morrer / Reprogramado a resistir / Pra viver / Incentivado a Rimar / Rimar pra vencer / Nas minhas batalhas não tem opção perder", canta no refrão. Isso junto a um sample de Ponta de Lança, faixa de Galanga Livre (2017), do paulistano Rincon Sapiência.

Mais adiante, brinca com o tema ostentação em Mermo de Airmax; debocha de quem desacreditou de seu talento em Altos e Altos; e sublinha a importância de suas conquistas como exemplo para as gerações contemporâneas e seguintes. "Faço isso pra tirar os menor da boca / Faço isso pra alimentar umas boca / Faço isso pra calar algumas boca / E talvez seja por isso que eu não cale minha boca", diz em Nunca Vai Parar.

Antes do fim, há lugar ainda para uma faixa instrumental, Urbanoide, em que DJ Phino traduz em som observações sobre quem transforma o caos das grandes metrópoles em expressão inventiva. E para o amor, na intitulada lovesong Atrás do Seu Perfume, seara na qual o rapper ainda não havia mergulhado. "Sempre fui muito marrento, durão, não gostava de falar sobre meus sentimentos. Acho que esse momento de vulnerabilidade fez com que eu me permitisse falar de amor e outros sentimentos".

DESAFIO - DJ Phino versos Okado do Canal está disponível para audição no Spotify e no canal youtube.com/okadodocanal.

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ARTE ATÉ AQUI

Batizado Ellan Barreto, Okado do Canal tem 28 anos e uma curiosidade para as artes que o acompanha desde os 11, quando veio a paixão pelo breakdance. Escreveu a primeira letra para um rap dois anos depois e desde então acumula muitas produções, que passam ainda pelo audiovisual e trabalhos culturais voltados à educação, principalmente de crianças.

Com a Favela do Canal, região da Zona Norte recifense, onde cresceu, no nome, torce e planeja, para o fim da pandemia, a continuidade das ações com a comunidade. "Quero abrir uma escolinha de cinema. E fazer o máximo possível para o rap dar certo, o que já está acontecendo".

Ouça DESAFIO na íntegra:

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