HIP HOP

'Amarelo Ao Vivo', na Netflix, é espetáculo sob batuta do maestro Emicida

Íntegra do show realizado no Theatro Municipal de São Paulo em 2019 chegou à plataforma de streaming

Nathália Pereira
Nathália Pereira
Publicado em 22/07/2021 às 7:00
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NETFLIX/LABORATÓRIO FANTASMA/DIVULGAÇÃO
Concerto arremata a linha cronológica iniciada ainda em 2020 com o documentário 'AmarElo - É Tudo pra Ontem' - FOTO: NETFLIX/LABORATÓRIO FANTASMA/DIVULGAÇÃO
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Foi na noite de céu nublado de 24 de fevereiro de 2020 que Emicida subiu pela última vez em um palco recifense, trazendo para cá a turnê do álbum AmarElo (2019). O paulistano era a atração mais aguardada na programação da Segunda-Feira de Carnaval do Festival Rec-Beat, e arrastou uma multidão até o Cais da Alfândega, pouquíssimo tempo antes de entrarmos nesta Quarta-feira de Cinzas estendida provocada pela pandemia. Potente desde os primeiros versos da abre-alas Zica, Vai Lá, a apresentação funcionou como uma força extra prévia para os dias penosos que chegariam em breve.

Agora, esta potência coletiva articulada pelo rapper poderá atingir a muito mais gente com a estreia de Emicida: Amarelo Ao Vivo, disponível no catálogo da Netflix desde o último dia 15. O trabalho de 1h40 registra a íntegra do show realizado dois anos atrás, no Theatro Municipal de São Paulo. Além do Brasil, chega a outros 189 países, em uma realização da Laboratório Fantasma, com direção do próprio Emicida e de Fred Ouro Preto, e a produção de Evandro Fióti, irmão do artista.

"Esse passado que insiste em não passar ainda nos mantém cuidadosos numa rotina de distanciamento, máscaras, higienização constante e cuidado, mas é impossível não comemorar a oportunidade de, neste momento, retornar à sala da casa de todo mundo (e no mundo todo) com a turnê que o covid-19 nos roubou", comenta Emicida em texto disponibilizado no blog da Netflix.

O concerto arremata a linha cronológica iniciada ainda em dezembro de 2020, com o documentário AmarElo - É Tudo pra Ontem, que narra os bastidores do show no municipal, ao mesmo tempo em que traça um verdadeiro dossiê sobre a cultura brasileira, seus elos, articulações e personalidades históricas - muitas delas ignoradas e esquecidas pelo imaginário oficial, ainda extremamente racista e elitista, porém fundamentais para a construção da identidade nacional. O material teve ampla repercussão e permanece disponível na plataforma.

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NO PALCO

Em Emicida: AmarElo Ao Vivo, se tem a eternização de um balé em perfeita harmonia entre o maestro-anfitrião, DJ Nyack - seu parceiro de longa data, banda, público e artistas convidados. Entre estes últimos, figuram MC Tha, em A Ordem Natural das Coisas; Drik Barbosa, em 9nha; Pabllo Vittar e Majur na faixa que batiza o projeto.

No repertório, somam-se às canções do disco faixas gravadas anteriormente, a exemplo de Alma Gêmea (2013) e Baiana (2015); e versões para clássicos nacionais, como Chiclete com Banana, de Gordurinha e Almira Castilho, e A Amizade, do Grupo Fundo de Quintal.

Os enquadramentos das câmeras nas reações da plateia são personagens fundamentais para se compreender a dimensão artística e aglutinadora de Emicida. Emocionante e afinado do início ao fim. Além da versão audiovisual, Amarelo Ao Vivo pode ser acessado também nas plataformas de áudio, em formato de álbum.

MOVIMENTO NEGRO

Durante a apresentação, Emicida fez questão de destacar o caráter político do ato de preencher o Theatro Municipal de São Paulo com diversas pessoas pretas - no palco e na plateia. Lembrou que o espaço foi, durante muito tempo, negado a esta população e que lá, em junho de 1978, o Movimento Negro Unificado (MNU) tomou as escadarias, em pleno regime ditatorial, em um marco histórico na lutra contra a discriminação racial no Brasil.

"Se hoje a gente sorri de dentro do Theatro Municipal é porque algumas pessoas, no auge da ditadura militar, tiveram a coragem de se levantar contra o Estado Brasileiro, e seu racismo assassino, e dizer que aquele País precisava reconhecer o protagonismo das pessoas de pele escura na sociedade brasileira", disse.

"A nossa vitória não vale de nada se ela não anistiar o espírito de todas as pessoas que foram assassinadas durante cinco séculos de escravidão", pontuou, ressaltando a presença de membros do MNU, a exemplo do coordenador de honra Milton Barbosa, entre o público: "muito obrigado. Sem a luta de vocês nada disso seria possível".

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