Comércio

Durante pandemia do coronavírus, procura por motéis despenca e venda em sex shop dispara

Empresários enfrentam a pior crise no setor e apelam para redução de custos e mudança no perfil da clientela, oferecendo principalmente hospedagem por diária

Edilson Vieira
Edilson Vieira
Publicado em 22/05/2020 às 21:32
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ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Empresário Carlos Melo diz que precisou demitir mais da metade dos funcionários porque a clientela "sumiu" - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Assim como acontece com a hotelaria tradicional, os motéis também estão liberados para o funcionamento, e apesar de não dependerem do fluxo de turistas na cidade, vem amargando perdas consideráveis com a queda na movimentação de clientes desde as primeiras medidas restritivas à circulação de pessoas, impostas no final do mês de março. Em Pernambuco, a queda na clientela dos motéis é estimada pelo setor em 85%.

O empresário Carlos Melo está no ramo há 35 anos. Ele administra seis motéis, sendo quatro no Recife, um em Caruaru e outro em Jaboatão dos Guararapes. São estabelecimentos consolidados e de marcas conhecidas, como Eros e Nexos, mesmo assim, lamenta as consequências na baixa procura. “Eu tinha 250 funcionários, tive que demitir 150 e não sei como será até o final deste mês de maio. A queda começou no início da quarentena. Em abril ficou pior e eu acredito que não se recupere nem tão cedo”.

Marcos Queiroz, dono do grupo Fidji Motel, que envolve marcas como Crystal e Goa, diz que é o momento do empresário refletir. “O movimento em nossos motéis caiu cerca de 80% e o perfil do cliente também mudou, com a hospedagem por diárias prevalecendo. Chegamos a baixar o preço de R$ 200 para R$ 90, R$ 80 sem as refeições e, mesmo assim, é muito ruim, muito difícil. Mas a gente tem que se adaptar”, afirmou Queiroz.

O empresário Carlos Melo diz que a evasão de clientes tem a ver com “a cidade parada” porque aquele cliente passageiro, que utilizava o motel por 3 ou 4 horas, simplesmente sumiu. Hoje os motéis funcionam mais como a hotelaria tradicional, até mesmo porque, pela legislação, não há diferenças entre motelaria e hotelaria. O perfil desse novo tipo de cliente, dizem os empresários, muitas vezes é a pessoa solteira que não quer ficar isolado em casa fazendo trabalhos domésticos. Uma diária incluindo café-da-manhã, almoço e jantar fica em torno de R$ 240.

Como está sendo feita a higienização no local?

Enquanto o setor de hotéis procura novos protocolos de higienização e segurança sanitária para atrair clientes em tempos de pandemia, os motéis reforçam as medidas que já tomavam. Usam máquinas de ozônio, semelhante a utilizada nos hospitais, para desinfecção de ambientes. Locais como maçanetas, puxadores e telefones são protegidos por uma película descartável e há álcool em gel nas suítes à disposição dos clientes. Alguns motéis até entregam máscaras descartáveis na entrada.

“Treinamos os funcionários para procedimentos de segurança em relação a covid-19 e todos usam equipamentos de proteção individual. Acho que hoje um dos lugares mais seguros para alguém ir é em bom motel. Mesmo assim a frequência é pequena, não dá para cobrir os custos”, lamenta Carlos Melo.

A saída para garantir a sobrevivência das empresas tem sido o corte de custos. O empresário Marcos Queiroz disse que procurou a Celpe para negociar o pagamento das contas, embora o gasto com energia elétrica represente apenas 20% do custo total do empreendimento, e tomou outras providências para viabilizar a operação. “Praticamente não demitimos porque a gente já vinha com o quadro de funcionários reduzido, mas 70% do pessoal está em casa. Aproveitamos o adiamento por três meses do imposto Simples e a suspensão do contrato de trabalho por 60 dias”. Marcos Queiroz só não buscou ajuda das financeiras. Ele chegou a receber a proposta de um banco oferecendo empréstimo a 3,15% para pagar salários, mas a empresa teria que atrelar a folha de pagamento ao banco. Não houve acordo. “Estou negativo no banco e pagando juros de mais de 10% no cheque especial. Porque não transformar essa dívida em empréstimo para pagar 1,5% ao mês? Mas não, toda proposta do banco é para terminar de quebrar o comerciante”, protesta o empresário.

Esperança de dias melhores em breve

A última Pesquisa de Serviços de Hospedagem (PSH), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Ministério do Turismo, de 2016, aponta que 14,2% dos 31,3 mil estabelecimentos de hospedagem no País são motéis. O estudo mostra Pernambuco como o segundo Estado com maior proporção de motéis (22,9%), atrás do Amapá (26,4%). Segundo a Associação Brasileira de Motéis, ABMotéis, o setor gera 600 mil postos de trabalho no Brasil, diretos e indiretos, movimentando cerca de R$ 4 bilhões anualmente.

O dono de motéis Carlos Melo espera que no próximo mês comece a flexibilização do funcionamento do comércio. “Sem o comércio aberto não temos movimento. Se em junho a gente continuar com 15% de movimento eu devo fechar os motéis e botar o restante dos funcionários no plano do governo (que subsidia o salário de funcionários afastados)”. Já o empresário Marcos Queiroz afirma que apóia o endurecimento do isolamento social e não espera que o comércio volte antes de 15 de junho. “Se a gente fechar será pior porque eu teria que reforçar a vigilância 24 horas, o que também sairia muito caro. É hora de a gente fazer malabarismo”, conclui o empresário.

 

Procura por sex shop aumenta

No sentido contrário dos motéis, os sex shops registram uma procura crescente nesta quarentena. Graças as vendas online. Stephanie Seitz, diretora da INTT, atua no atacado do setor. Ela é fabricante de cosméticos e importadora dos chamados sex toys, brinquedos sexuais. A empresa, com sede em São Paulo, tem cerca de 15 mil clientes em todo o País, e não tem do que reclamar. Sem loja física, as vendas online aumentaram 40% nos últimos dois meses.

“No início da quarentena os pedidos pararam, provavelmente porque o pessoal não sabia o que ia acontecer. Mas depois a nossa venda de brinquedos estourou e nesta última semana cresceu mais ainda. Os comerciantes entenderam que a saída está no e-commerce e também porque o Dias dos Namorados está chegando e é preciso refazer os estoques”. Stephanie afirma que a quarentena pode se tornar uma boa oportunidade de negócios. “Neste isolamento as pessoas estão permitindo se conhecer, por isso tem aumentado muito a venda de vibradores, por exemplo. Quem antes não comprava da gente agora está comprando, é um mercado em ascensão”, afirmou a empresária.

A comerciante Vanessa Pessoa tem um sex shop no bairro da Torre, Zona Norte do Recife e confirma que as vendas online cresceram. No caso dela, cerca de 80%, depois do isolamento social. Apesar de ter começado como e-commerce há 12 anos o foco das vendas era o atendimento presencial mas agora, diz ela, tudo mudou. “Tivemos que focar nas vendas pelo site e na entrega delivery. Muitos clientes também querem comprar pelas redes sociais então é preciso estar atento para responder a esse público”. O perfil do comprador também mudou, segundo Vanessa. Apesar de ter cerca de 300 tipos de produtos na loja, quase 70% das vendas tem sido de acessórios (vibradores e estimuladores). A clientela é, na grande maioria, formada por casais.

A empresária Camilla Vargas tem três lojas de artigos eróticos, duas no Recife e uma em Olinda. Ela tem outra ideia em relação as vendas online. “De fato, depois que as lojas fecharam por conta da pandemia, minhas vendas online cresceram 85% mas, nem de longe compensam o faturamento com as vendas presenciais”, diz a empresária. Camilla optou por um modelo de loja em bairros nobres e galerias, o que representa um custo elevado com aluguel. “Na compra física, na conversa com o vendedor, o cliente é melhor informado e compra a experiência, e não apenas o produto. Tanto isso é verdade que meu tíquete médio de vendas na loja era de R$ 400, R$ 500 por cliente, enquanto no online fica abaixo dos R$ 200. Na loja, o cliente é capaz de comprar um vibrador de R$ 1.000. Na internet isso não acontece”, diz Camilla.

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Camilla Vargas diz que vendas online do seu Sex Shop cresceram 80% durante a quarentena mas não compensam a perda com as vendas presenciais - FOTO:Divulgação

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