CRISE ENERGÉTICA

Vai ter apagão no segundo semestre de 2021 no Brasil assim como foi em 2001?

Não vai ter racionamento, segundo dois executivos entrevistados pelo JC. O que pode ocorrer é apagão, o corte brusco de energia, caso aumente muito o consumo no segundo semestre, quando começa o verão.

Angela Fernanda Belfort
Angela Fernanda Belfort
Publicado em 01/07/2021 às 6:30
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MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL
País volta a passar por uma crise energética devido à escassez de água nos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste - FOTO: MARCELLO CASAL JR/AGÊNCIA BRASIL
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Não vai ter racionamento - quando o governo obriga as empresas e os consumidores a reduzirem o seu consumo, caso sejam mantidas as atuais condições de geração de energia no País, segundo dois executivos do setor e um consultor que atuam na área. Já com relação ao apagão - que é o corte de energia - eles têm a opinião dividida. "Para 2021, a situação está sob controle, usando todas as ferramentas existentes. O preço da energia vai subir, mas não vai faltar energia nem ter racionamento", comenta o presidente da Consultoria Thymos Energia, João Carlos Mello, acrescentando que o governo federal já deveria implementar medidas pensando em 2022. Para ele, o País deve estimular mais a implantação de outras formas de geração de energia elétrica porque, há pelo menos uma década, o País tem menos água para produzir energia.

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Os termos racionamento e apagão voltaram a ordem do dia depois que o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque fez um pronunciamento, na segunda-feira (28), pedindo para as empresas e pessoas economizarem energia. O que motivou o pedido foi a grande estiagem, a maior dos últimos 90 anos, que está ocorrendo na área dos reservatórios das hidrelétricas do Sudeste/Centro-Oeste. Eles respondem por 70% da água que pode ser armazenada para gerar energia no País e estavam somente com 29,13% da sua capacidade (de armazenamento) na terça-feira (29). O período chuvoso desta região só começa em novembro.

 

"Há vários anos estamos tendo o mesmo problema. E as instituições não percebem que estão contando com uma água que não existe mais desde 2012", comentou João Carlos Mello. Ele citou que o País teve problema com a geração de energia hidrelétrica por falta de água, de forma mais crítica, nos anos de 2013, 2014, 2015 e 2019 somente nos últimos 10 anos. "Isso sem levar em conta que o País não cresceu em 2015, 2016 e 2020", acrescentou. Geralmente, quando o País tem queda no Produto Interno Bruto (PIB) - que mede todas as riquezas produzidas - sobra energia. O movimento contrário acontece quando a economia cresce, porque as empresas produzem mais e gastam mais energia. João Carlos argumenta ainda que a maior preocupação é com 2022, porque a quantidade de água dos reservatórios vai depender muito das chuvas.

Se forem mantidas as atuais condições não deve ter racionamento, segundo um executivo que já atuou em vários cargos do setor elétrico, e prefere não se identificar. Ele diz que no atual cenário, a probabilidade de ter um racionamento é menor que 2%. No segundo semestre, o que pode ocorrer, segundo ele, é um corte de carga que provoca a falta de energia por um determinado tempo, caso o consumo aumente muito com a chegada do verão. Por exemplo, na estação mais quente, os consumidores ligam mais aparelhos de ar-condicionado e isso faz o consumo de energia aumentar.

O mesmo executivo diz que o problema não é só a escassez de água, mas a gestão do setor elétrico. Por vários domingos no começo deste ano, várias eólicas instaladas no Nordeste produziram menos energia por falta de linhas de transmissão para outras regiões. Essa geração a mais das eólicas - evitada por falta de linhas de transmissão - poderia ter poupado mais água dos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste.

SEMELHANÇAS COM 2001

A escassez de água nos reservatórios do Sudeste/Centro-Oeste é o que aproxima o atual cenário do setor elétrico com o de 2001, quando o País passou pelo seu último racionamento. Ou seja, duas décadas depois do último racionamento, o Brasil depende das chuvas para ter energia. Em 2001, o governo estabeleceu metas de redução de consumo de energia obrigatórias para todos os clientes incluindo a indústria, grande consumidora. Isso levou algumas empresas a decretarem feriado, porque não podiam funcionar, para não gastar energia. Em 2001, o Nordeste também ficou com pouca água na bacia do São Francisco, onde estão as hidrelétricas da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf).

A diferença de 2001 para o cenário atual é que hoje o País depende menos das hidrelétricas. Em 2001, quase a totalidade da geração era hidrelétrica. Hoje, as hidrelétricas representam 63% da geração. As eólicas correspondem a mais de 14% do parque gerador. Este tipo de geração quase não existia em 2001.

Atualmente, há mais linhas de transmissão interligando o sistema elétrico brasileiro. Em 2001, o Nordeste não pode receber energia de outras regiões por falta de linhas de transmissão. Do mesmo modo, o Sul e o Norte também não conseguiram enviar o excedente de energia para as regiões que precisavam de energia (o Nordeste, Sudeste/Centro-Oeste) por falta de linhas de transmissão.

No atual cenário, o Nordeste também está numa posição mais confortável com relação à geração de energia. Grande parte do parque eólico brasileiro está instalado na região e também os reservatórios do Nordeste estão com 59,27% da sua capacidade. No ano passado, o Nordeste chegou a mandar os excedentes de energia para outras regiões. O mesmo deve acontecer agora no segundo semestre que é um período que há mais ventos na região. Tanto em 2001 como agora, está faltando um planejamento para a expansão do setor elétrico. 

O governo federal também vai evitar um racionamento por causa do desgaste político que isso pode gerar para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que tem planos de se reeleger em 2022. Em 2001, o presidente da República era Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o maior problema do País era o baixo crescimento econômico e o desgaste político dele foi grande devido ao racionamento. Hoje, o País passa por uma grave crise sanitária - que contribuiu para a queda da atividade econômica no ano em 2020 -, mais de 500 mil pessoas morreram devido à covid-19, o presidente Bolsonaro apresenta queda de popularidade e a sua gestão enfrenta acusação de corrupção envolvendo a compra de vacina, como revelou a CPI da covid-19 instaurada no Senado Federal.

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