Seguraça alimentar

Inflação na quentinha: alta nos preços obriga substituição de ingredientes nas refeições doadas à população mais pobre

Projetos de distribuição de alimentos sofrem com a infação, que passou de 12% nos últimos 12 meses, segundo o IBGE. Enquanto a comida fica cada vez mais cara, aumenta o número de pessoas em situação de vulnerabilidade e dependendo de doações para comer

Adriana Guarda
Cadastrado por
Adriana Guarda
Publicado em 19/05/2022 às 16:12 | Atualizado em 20/05/2022 às 14:58
BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Inflação impacta projetos de doação de alimentos. Instituto Vizinhos Solidários // Doação de Alimentos // Projetos Sociais // Alimento - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Leitura:

Há 5 meses, o Instituto Vizinhos Solidários precisou substituir por soja, a carne bovina e o frango nas suas quentinhas. Responsável por doar alimentação para 8 mil pessoas por mês, a instituição também teve que 'inventar' novas receitas para reaproveitar ingredientes. Tudo isso para minimizar o impacto da inflação, que vem atingindo em cheio projetos de distribuição de alimentos no Brasil. Se de um lado os produtos estão cada vez mais caros, do outro aumenta o número de famílias buscando ajuda para não passar fome. 

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Inflação impacta projetos de doação de alimentos. Instituto Vizinhos Solidários // Doação de Alimentos // Projetos Sociais // Alimento - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

Na quarta-feira (11), o IBGE divulgou que a inflação oficial de abril atingiu 12,13% nos últimos 12 meses. É o maior patamar desde 2003, em um intervalo de quase 20 anos. No mês analisado, os principais impactos vieram de alimentação e bebidas (2,06%), com destaque para produtos essenciais ao dia a dia das famílias, como leite longa vida (alta de 10,31%), batata inglesa (18,28%), tomate (10,18%), óleo de soja (8,24%), pão francês (4,52%) e carnes (1,02%). 

O encolhimento da renda das famílias e o avanço do desemprego empurrou mais pessoas para a extrema pobreza, provocando um aumento da demanda por doações. Na outra ponta, quem doa tem enfrentado a redução das contribuições aos projetos e o aumento nos preços dos alimentos. Hoje com R$ 100 no supermercado se compra bem menos do que em anos anteriores. 

 

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Inflação impacta projetos de doação de alimentos. Instituto Vizinhos Solidários // Doação de Alimentos // Projetos Sociais // Alimento - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

CARESTIA

Com o aumento nos preços da carne e do frango, o consumo caiu nos últimos 3 anos e, em muitos casos, deixou de fazer parte do cardápio das famílias com renda menor. A situação se estendeu às iniciativas de doação de alimentos, que precisaram ser criativas e resilientes para manter um trabalho fundamental, sobretudo em um momento de pós-pandemia e de alto índice de desocupação no País. O jeito foi diminuir a quantidade de frango no sopão, como fez o Sopa Solidária, ou mesmo substituir a proteína, como decidiu os Vizinhos Solidários.  

"As pessoas estão desesperadas. Recebo ligações até de madrugada de gente pedindo para conseguir um pacote de macarrão, uma cesta básica. A inflação foi muito impactante e nos obrigou a fazer mudanças. Passamos a usar soja de frango e de carne no lugar da carne e aprendemos a aproveitar e reaproveitar ingredientes. Hoje, por exemplo, fazemos brigadeiro de chuchu para oferecer de sobremesa e hambúrger de feijão. Além disso vamos substituindo outros ingredientes quando estão muito caros. O tomate e a cenoura são itens de riqueza", pontua a empreendedora social e fundadora do Instituto Vizinhos Solidários, Maria Eduarda Fernandes. 

 

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Inflação impacta projetos de doação de alimentos. Instituto Vizinhos Solidários // Doação de Alimentos // Projetos Sociais // Alimento - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM

O Vizinhos Solidários surgiu como uma associação, em 2020, com o propósito de doar alimentos a pessoas em situação de vulnerabilidade durante a pandemia da covid-19. Começou atendendo a comunidade Sítio Cardoso, na Madalena (zona oeste do Recife) e hoje já são 18 localidades. Este ano foi transformada em Instituto para se habilitar à captação de recursos em editais. 

Com sede no Pina, a instituição atua em três frentes: distribuição de marmitas nas ruas, mercado solidário e distribuição de cestas básicas. Atualmente o Vizinhos Solidários conta com 60 empresas parceiras e entre 200 e 250 doadores pessoa física. Um grupo de 32 voluntários dão conta de preparar as marmitas e as cestas, distribuir, cadastrar pessoas e fazer atendimento em geral. O Instituto recebe doações que vão de R$ 1,25 até R$ 5 mil, mas o valor médio é de R$ 50. 

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Inflação impacta projetos de doação de alimentos. Instituto Vizinhos Solidários // Doação de Alimentos // Projetos Sociais // Alimento - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
 

"Nós doamos 200 quentinhas por dia, distribuímos 1,3 mil cestas básicas por mês (com entregas diárias) e temos 611 pessoas abaixo da linha da pobreza cadastradas no mercado solidário", detalha Eduarda. Ela conta que antes eram necessários R$ 45 para custear uma cesta básica, mas que esse valor saltou para R$ 60. 

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Inflação impacta projetos de doação de alimentos. Instituto Vizinhos Solidários // Doação de Alimentos // Projetos Sociais // Alimento - BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
 

A empreendedora social explica que para conseguir um preço melhor é preciso conhecer os meandros do setor de alimentos. Uma cesta básica tem prazo de validade médio de 30 a 60 dias, mas se as cestas estiverem em prazo final de validade de 15 a 20 dias é possível comprar por um preço melhor, porque os vendedores não querem perder a mercadoria. Como o consumo, no caso das doações, é imediato, diante da emergência de quem tem fome e está com os armários vazios, vale a pena adquirir nessa condição.  

DOAR NUNCA É DEMAIS 

Ajude o Instituto Vizinhos Solidários a ajudar quem precisa

Site: vizinhossolidarios.org.br

PIX: 39.988.775.0001-52 (CNPJ do Instituto)

 

Comentários

Últimas notícias