Novo regime

Talibãs prometem proibir heroína, mas conseguem sobreviver sem a renda?

Os analistas consideram, no entanto, que a retórica contra a heroína - assim como promessas similares de respeitar os direitos das mulheres e a liberdade dos meios de comunicação - é parte dos esforços dos novos líderes talibãs para mostrar uma face mais moderada com o objetivo de assegurar o apoio internacional

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Publicado em 19/08/2021 às 13:29
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POSSE Talibãs tomaram "boa parte" do armamento americano - FOTO: JAVED TANVEER / AFP
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A produção de heroína disparou no Afeganistão nos últimos anos, o que ajudou a financiar os talibãs, e os analistas consideram que será difícil para o grupo abrir mão do comércio rentável, apesar de suas promessas de abandonar a droga.

Em sua primeira entrevista coletiva na terça-feira (17), o porta-voz dos talibãs, Zabihullah Mujahid, prometeu que o novo regime não transformará o maior produtor mundial de ópio em um narcoestado.

"Asseguramos a nossos compatriotas e à comunidade internacional que não produziremos nenhum narcótico", disse Mujahid à imprensa em Cabul.

"A partir de agora, ninguém estará envolvido (no tráfico de heroína). Ninguém pode participar do contrabando de drogas", completou.

Os analistas consideram, no entanto, que a retórica contra a heroína - assim como promessas similares de respeitar os direitos das mulheres e a liberdade dos meios de comunicação - é parte dos esforços dos novos líderes talibãs para mostrar uma face mais moderada com o objetivo de assegurar o apoio internacional.

A maior parte do ópio e da heroína do mundo procede do Afeganistão. A produção se concentra nas áreas controladas pelos talibãs, que aplicaram grandes impostos para a droga durante os 20 anos de insurgência.

A heroína virou um recurso crucial para o grupo e pode ser difícil proibir, afirma Jonathan Goodhand, especialista em comércio internacional de drogas da Universidade SOAS de Londres.

Goodhand prevê que as drogas "provocarão uma série de tensões dentro do movimento".

"De um lado, querem criar a imagem de que são mais moderados e mais abertos ao compromisso com o Ocidente e percebem que as drogas são uma forma de fazer isto", explica.

Mas, do outro, qualquer repressão afetaria, especialmente, os agricultores das províncias de Helmand e de Kandahar, o coração político dos talibãs.

"Vai ser difícil adotarem uma abordagem muito agressiva às drogas", acrescentou.

 

Na entrevista coletiva, Mujahid pediu "ajuda internacional" para proporcionar aos agricultores cultivos alternativos à papoula, a fonte da seiva que é usada para a produção de ópio e heroína.

Segundo um relatório de 2018 do Inspetor Geral Especial dos Estados Unidos para o Afeganistão (SIGAR), o governo dos Estados Unidos gastou quase US$ 8,6 bilhões, entre 2002 e 2017, no esforço para combater o tráfico de drogas.

Os esforços incluíram ajudas financeiras aos agricultores para que cultivassem trigo e açafrão, entre outros.

As iniciativas eram, porém, constantemente frustradas pelos talibãs, que controlavam as principais regiões de cultivo e arrecadavam centenas de milhões de dólares, de acordo com estimativas dos governos americano e afegão.

Os agricultores das zonas controladas pelos talibãs eram pressionados a plantar papoulas, segundo as investigações.

Como resultado, o país tem um quase monopólio sobre o ópio e a heroína, pois representa entre 80% e 90% da produção mundial, segundo o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC, na sigla em inglês).

A quantidade de terras plantadas com papoulas atingiu um recorde em 2017, com a média de quase 250.000 hectares nos últimos quatro anos, completa a ONU.

 

A política de entorpecentes do novo regime terá um impacto nos preços mundiais da heroína, com repercussões nos países ocidentais, assim como para Rússia, Irã, Paquistão e China, todas importantes rotas de contrabando, mas também grandes mercados para as drogas afegãs.

Nos últimos anos, os traficantes também descobriram que uma planta encontrada com facilidade no Afeganistão, chamada ephedra, pode ser usada para criar um componente-chave da metanfetamina.

Esta não é a primeira vez que o grupo fundamentalista promete proibir o comércio de drogas. A produção foi proibida em 2000, pouco antes de o regime talibã ser derrubado pelas forças lideradas pelos Estados Unidos.

Gretchen Peters, autora do livro "Seeds of Terror: How Heroin Is Bankrolling the Taliban and Al-Qaeda" ("Sementes do terror: como a heroína está financiando o talibã e a Al-Qaeda", em tradução livre), afirma que a proibição anterior da papoula por parte dos talibãs era tática.

"Estavam sob grande pressão internacional. Não vão abrir mão do tráfico de drogas, porque estão muito ligados a ele", resume.

Além disso, a partir de agora, os talibãs terão acesso às companhias aéreas, à burocracia estatal e aos bancos, que poderão ser usados para facilitar o contrabando de drogas e a lavagem de dinheiro, acrescenta.

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