Artigo

Pegou mal para o governo de Pernambuco não avisar sobre o suspeito do caso Beatriz e barrar pais da vítima na SDS

"Pais da criança ficaram sabendo da possível elucidação do caso pela imprensa. Em busca de informações, o casal Lúcia Mota e Sérgio Romilton tentou entrar na coletiva de imprensa, mas foi proibido" Leia o artigo de Adriana Guarda

Adriana Guarda
Adriana Guarda
Publicado em 12/01/2022 às 20:51
Reprodução
LACUNAS Mãe da menina Beatriz, Lucinha Mota diz que SDS se precipitou ao apontar o suspeito do crime sem elucidar vários pontos - FOTO: Reprodução
Leitura:

Lúcia Mota estava em casa, na noite da terça-feira (11), quando atendeu o telefonema de um jornalista. Do outro lado da linha, ele informava que a Secretaria de Defesa Social (SDS) de Pernambuco ia apresentar à imprensa, nesta quarta-feira (12), o suspeito de matar a menina Beatriz Angélica Mota. A novidade no caso era um laudo comprovando que o DNA do acusado batia com o encontrado na faca usada no crime. Quando desligou a ligação, Lúcia passou mal. Aquela prova científica poderia significar o fim de uma investigação pantanosa, que se arrasta há 6 anos, e a aflição no coração de uma mãe, que teve sua filha de 7 anos barbaramente assassinada a facadas, no dia 10 de dezembro de 2015, no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, em Petrolina. 

Quando se recompôs do susto, veio o estranhamento e a revolta. O noticiário das TVs e os sites divulgavam a provável elucidação do caso, sem que a família sequer tivesse sido avisada. Nenhum dos quatro delegados da força-tarefa, responsáveis pela investigação, nem o próprio titular da pasta da SDS, Humberto Freire, fez o gesto de ligar para a mãe, que vem dedicando sua força, sua energia, sua vida para descobrir quem matou Beatriz e por que razão. 

Muito emocionada, Lucinha (como é conhecida), fez uma live na página do Caso Beatriz no Instagram (@casobeatriz), que chegou a ter mais de 24 mil pessoas assistindo ao vivo. Na conversa virtual, ela contou que não foi avisada pelo governo de Pernambuco sobre a descoberta do suspeito e adiantou que apareceria na entrevista coletiva em busca de mais informações. Lúcia conta que ligou para um dos delegados, mas não foi atendida e recebeu resposta de um segundo, que foi bastante econômico nas informações. 

A verdade é que o comportamento do governo de Pernambuco pegou mal. E a repercussão negativa foi ainda pior porque fazia apenas 14 dias que Lucinha e o marido tinham saído de dentro do gabinete do governador Paulo Câmara, depois de realizar uma caminhada de 23 dias de Petrolina até o Recife para pedir a federalização do caso. Depois da conversa, a promessa era que a SDS aumentasse a interlocução com a família. O episódio mostra que o compromisso não foi respeitado e acrescenta mais um ponto negativo no já tão criticado posiciosamento do governo no caso. 

Se a família é a principal interessada na elucidação do crime, não entra na cabeça de ninguém que os pais de Beatriz não fossem os primeiros a serem avisados. Faltou ao governo sensibilidade, respeito, empatia e traquejo. Estamos falando de uma mãe que espera há 6 anos pela resolução do crime da filha, que realizou uma verdadeira investigação paralela para solucionar o caso, que vive peregrinando de estado em estado no rastro de suspeitos, que faz vaquinha virtual para custear despesas e fazer o caso andar. Sem falar na caminhada de Petrolina até Recife. Será que já não é grande demais o sofrimento dessa mãe?

Questionado sobre esta omissão com quem deveria saber das informações em primeira mão, Humberto Freire argumenta que na terça-feira os delegados estavam fazendo algumas diligências e que não conseguiram ligar para ela. Segundo ele, antes que conseguissem fazê-lo, ela já teria ligado. Será que ninguém poderia dispensar cinco minutos que fossem para falar com a mãe da vítima? Ela só procurou os delegados porque não foi lembrada pela secretaria e viu a imprensa saber de tudo antes dela. 

EMENDA PIOR QUE O SONETO 

O governo de Pernambuco também falhou quando não promoveu uma estratégia de redução de danos. Mesmo depois da live de Lucinha, os representantes da SDS continuaram sem procurá-la para tentar conter os ânimos. Ao contrário, a situação só fez piorar. Embora a coletiva não fosse o local adequado para Lucinha conversar com o secretário, porque trata-se de um momento dedicado a elucidar as dúvidas dos profissionais de imprensa para apresentar o assunto à população, esta foi a única brecha que ela encontrou para buscar mais informações. Sua presença foi motivo de tensão, bate-boca e confusão na porta da SDS na manhã desta quarta (12). 

Quando chegou à Secretaria, local marcado para a coletiva, tentaram barrar sua entrada. Disseram que ela seria atendida pelo secretário após a conversa com a imprensa. E, mais uma vez, ela seria a última a saber sobre o caso Beatriz. Outra falha do governo na relação com a família da vítima. Com a imprensa no local, a confusão repercutiu em tempo real e Lucinha acabou sendo atendida. A entrevista que começaria às 9h só foi iniciada às 10h25, após uma reunião com ela.        

E o que justifica esse comportamento reativo do governo contra uma mulher em busca da verdade sobre a morte da sua filha? Parece que o governo Paulo Câmara não olha para Lúcia como uma mãe desesperada, mas como uma opositora. A questão é que ela incomodou. Incomodou quando expôs a fragilidade na estrutura da Polícia Civil de Pernambuco; incomodou quando apontou erros na investigação; incomodou quando denunciou corrupção e corporativismo na polícia; incomodou quando conseguiu muita visibilidade para o caso, incomodou quando 'gritou' na porta do governador Paulo Câmara, encastelado no Palácio do Campo das Princesas, que queria que a Polícia Federal assumisse o caso.

E incomodou, ainda mais, quando se envolveu na política com opositores do governo Paulo Câmara. Ela se candidatou a vereadora em 2020 e agora está com a ideia de sair para deputada. Lucinha alega que ingressar na política lhe garantiria a entrada em espaços, que hoje como cidadã ela não tem acesso. Ah, Lúcia... Você mexeu com um governo que tem dificuldade em ser humilde na hora de admitir seus erros; que se coloca sempre como o melhor, o maior, o primeiro, a vanguarda, a referência. 

LÁGRIMAS  

A mãe de Beatriz chora quando diz que deseja que o novo suspeito seja, de fato, o responsável pela morte da sua filha, mas julga precipitada a divulgação do caso como elucidado porque muitas questões estão em aberto. Apesar de considerar o laudo do DNA uma prova incontestável, acredita que ainda é necessário investigar mais para chegar a um desfecho consistente. 

Depois de tantas falhas numa investigação que envergonha a Segurança Pública de Pernambuco, a elucidação do caso deveria ser uma questão de honra para o governador Paulo Câmara. Mas as trapalhadas continuam acontecendo. O suspeito não seria divulgado agora, mas como o laudo vazou para a imprensa, o governo foi obrigado a confirmar e fazer tudo nas carreiras. O depoimento do acusado foi tomado às pressas na noite desta terça.

VEXAME NA COLETIVA

Essa pressa refletiu na coletiva, que foi um desastre. O secretário foi mal assessorado. A comunicação do governo não preparou uma apresentação que trouxesse os vídeos do suspeito e explicasse com detalhes o que aconteceu. Ao final, ficou a impressão de uma história mal contada e, mais uma vez, de uma investigação frágil. Diante da imprensa, Humberto Freire preocupou-se em enaltecer os policiais civis e os peritos criminais por dez minutos, que, aliás, estavam na plateia com seus distintivos e camisas.

O secretário também foi vago nas respostas. Na hora de explicar a motivação do crime - principal questionamento sobre o assassinato -, ele usou meias palavras. Não disse claramente se o suspeito tinha intenção de assaltar na festa da escola nem se pretendia cometer crime sexual contra Beatriz. Disse que ele estava 'atrás de dinheiro', que teve 'contato' com a menina e que ela se assustou. Diante da reação da criança, ele deu as facadas para silenciá-la.

Neste momento, é revelada outra incoerência no caso, repetida durante 6 anos. Diante de uma motivação para o crime que não convence, pergunto se não seria demais desferir 42 facadas contra uma criança de 7 anos para silenciá-la, já que ela ofereceria pouca resistência a um homem adulto. O secretário revela que foram 10 facadas. Segundo ele, o que existe no inquérito são 42 fotos de vários ângulos dos ferimentos ocasionados pelas 10 facadas.  

Todos esses desencontros só podem causar desconfiança sobre o resultado da investigação e o desejo de federalização do caso. Até porque a conclusão do Caso Beatriz carrega muito simbolismo. Lúcia precisa sair desse lugar obscuro e saber o que houve. Por mais sofrido que seja, será um momento de libertação, de alívio. Esta mãe tem o direito de 'enterrar' sua filha simbolicamente, mais uma vez, sabendo que agora estará em paz. A dor, essa nunca vai passar. Fica a memória de Beatriz e do crime que comoveu o Brasil. Durante esses anos fomos todos mães e pais de Beatriz.  

Comentários

Últimas notícias