Relembrando Machado de Assis
Aos mais de cem anos de sua morte, continua lido e sua obra despertando interesse nos leitores.

A influenciadora americana, Courtney Novak, viralizou nas redes sociais livro de Machado de Assis, a ponto de ter exclamado: "O que eu vou fazer do resto da minha vida? Por que vocês não me alertaram que este é o melhor livro que já foi escrito?", após ter lido Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Com essa postagem, no mundo cibernético, o Bruxo do Cosme Velho, como era chamado, voltou à tona o esplendor dos seus escritos, da sua admirável obra literária.
Não sei bem em qual data me encontrei com um livro de Machado de Assis nas mãos, indicado por meu pai, escritor Nilo Pereira, pessoa que dedicou sua vida à leitura e nos formou, a mim e aos meus irmãos, dentro dessa linha que valoriza a cultura humanística. Impressionou-me, em Machado, seu poder de retratar a sociedade e o Rio de Janeiro da sua época, os perfis de mulheres, cuja prática em literatura já teria sido iniciada por José de Alencar.
Cheguei, na minha juventude, a assistir a júris de Capitu nos colégios de Recife. E enquanto se discutia ser ela inocente ou culpada, eu me perguntava sobre o poder de convencer e seduzir que havia no discurso literário de Machado, a ponto de começar a me interessar pela pessoa que produziria tais romances que tanto davam o que falar na sociedade brasileira.
Nascido na pobreza, Machado teve padrinhos que o ajudaram a percorrer, passo a passo, o caminho que o levaria à primeira presidência da Academia Brasileira de Letras, eleito por unanimidade. Pessoas que com ele conviveram tiveram oportunidade de declarar que era de feitio muito alegre e agradável, daí seus tantos amigos e capacidade de liderança. Apesar de transitar leve pelas convenções sociais, seu espírito crítico permaneceu em vigília, sempre presente nas obras que ia publicando ao longo da vida.
O mundo é dissimulado, essa a mensagem de Machado. E a condição humana, difícil de carregar e de lidar. É o que sentimos à leitura de seus livros, em que uma ironia cáustica perpassa cenas e personagens, de Helena a Capitu, de Escobar a Brás Cubas. O mundo é dissimulado, repete o carioca nascido na pobreza, típico brasileiro a ultrapassar limites com seu brilho e sutileza, que deixavam marcas permanentes em seus livros, espelhos até hoje da classe média do Rio de Janeiro no século 19.
Nascido no Morro do Livramento, em 1839, em chácara onde seus pais eram agregados, filho de um operário mulato e uma emigrante açoriana, ficou órfão de mãe ainda menino, fazendo-se autodidata a superar suas dificuldades de ordem social e econômica impressas na cor de sua pele em um país de colonização escravocrata.
O propalado absenteísmo de Machado quanto à escravidão e às relações interétnicas do Brasil do século 19 desenvolve em nossos dias uma construção e leitura ideológicas do autor como indiferente à causa da Abolição. O que destoaria de sua origem proletária e mestiça. Essa cobrança da posteridade, bem mais comum na atualidade, não destrói, contudo, em Machado, a aura de escritor matriz de literatura brasileira.
Oliveira Lima afirmou que Brás Cubas era o retrato da alma de Machado de Assis, porque mostrava a sua visão do mundo. O autor já não teria, à altura em que escreveu o livro, qualquer ilusão sobre a condição humana. É isso que de certa forma nos prende, esse modo como ele aborda a vilania e a dissimulação a que sociedade nos arrasta. Sabia distinguir a hipocrisia, as espertezas, os interesses, os jogos cotidianos. O tédio e o cinismo passam a ser características do seu estilo diante do espetáculo do homem.
Assim, nos restaria a capacidade de rir do próprio sofrimento. A partir daí, vemos que a questão étnica é ultrapassada por uma perspectiva filosófica do estar no mundo de cada homem. Talvez por isso seja respeitado como escritor representativo da nossa cultura. Aos mais de cem anos de sua morte, continua lido e sua obra despertando interesse nos leitores.
Roberto Pereira, ex-secretário de Educação e Cultura de Pernambuco e membro da Academia Brasileira de Eventos e Turismo.