A cereja do bolo
Mário Helio teve o privilégio de mergulhar profundamente na inteligência, obra e alma do sociólogo Gilberto Freyre, derrubando e superando tabus.

Tenho o hábito de ler, ao mesmo tempo, três a cinco livros de uma vez. Não por ser inteligente, ao contrário, mas porque lendo o capítulo de um autor "pesado" e lendo logo depois o capitulo de outro mais leve, a leitura de ambos, torna-se mais palatável. Uma vez, um crítico literário, admirador de Joseph Conrad disse-lhe, com respeito, admiração e humildade, que às vezes, não entendia certas passagens de seus romances "de tão herméticas que elas eram", ao que Conrad respondeu, brincando: "Nem eu." Por isso, costumo ler o autor de Lord Jim aliviando com Saint-Esupery.
Mario Helio me ofereceu seu livro A hístoria intima de Gilberto Freyre no dia 12 de abril do corrente ano. Este livro de Helio, que terminei de ler hoje não é "pesado", é tão bem escrito e fascinante, que não consegui "misturar" sua leitura com a de outro autor, porque é impossível o leitor interromper - mesmo que apenas por alguns dias - sua leitura. Tendo sido amigo de Gilberto, Mário Helio teve o privilégio de mergulhar profundamente na inteligência, obra e alma do sociólogo, derrubando e superando tabus que se tornaram repetitivos em torno da singular e polêmica personalidade desse pernambucano de fama internacional. Gilberto assumiu, em varias ocasiões, em particular e em publico, a condição de vaidoso - de vaidosíssimo - ao ponto de se considerar "genial" para evitar o adjetivo "gênio". Queixava-se do "complô do silencio" a ele imposto pela "impressa vermelha e intelectuais comunistas," num desabafo delicioso e tipicamente gilbertiano.
Pois Mário Helio descobriu em Gilberto uma faceta que nenhum de seus biógrafos descobriu e que é da maior importância para sua obra, verdadeira cereja do bolo, ao afirmar, com conhecimento de causa: "Ao escrever seus livros é para a Historia que principalmente se volta Gilberto Freyre". E acrescenta: "História Social, pela interpretação que deriva da leitura documental e abundante." E fulmina: "História em que o realismo se combina com o expressionismo."
A "tese" de Helio é oportuna, corajosa e enriquece seu extraordinário livro, editado pela Cepe em 2022. Oportuna pois ameniza o deboche de acadêmicos que chamam Gilberto de "escritor" e dos literatos que o acusam e classificam de "fazer mera sociologia e antropologia". Este livro de Mário Helio é arretado. Uma foto perfeita de Gilberto Freyre.
Arthur Carvalho, do Instituto Histórico de Olinda