OPINIÃO | Notícia

Um crime no Recife foi estopim de uma revolução

Mesmo apontado como crime político, foi apenas a vingança de um opositor Um crime acontecido no Recife, que teve repercussão nacional.

Por JOÃO ALBERTO MARTINS SOBRAL Publicado em 27/09/2024 às 0:00 | Atualizado em 28/09/2024 às 6:26

Aconteceu no dia 26 de julho de 1930, uma sexta-feira. E foi estopim da Revolução de 1930. O então presidente da Paraíba (como eram chamados os governadores na época João Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, de 52 anos, que tinha sido candidato a vice-presidente da República, na chapa de Getúlio Vargas, veio ao Recife. Como fazia constantemente, para tratar de assuntos do estado e encontrar os muitos amigos que tinha na nossa cidade.

Sua visita naquele dia foi ao Juiz Cunha Mello, que se restabelecia de cirurgia, no Hospital dos Servidores do Estado, na Avenida Rosa e Silva. Depois, um hábito que tinha, foi almoçar no Leite, com Agamenon Magalhães e o usineiro Caio de Lima Cavalcanti. Comeu um prato de bacalhau e uma cartola.

Após o almoço, foi dar uma volta pelo centro da cidade, olhar algumas lojas. o que não poderia, evidentemente, fazer hoje, inclusive porque não costumava andar com seguranças. No final - outro hábito que mantinha -, foi tomar um cafezinho na Confeitaria "A Glória", na esquina das ruas Nova e Palma. Eram 17h30, quando o advogado e jornalista João Duarte Dantas, mais conhecido como João Dantas, seu adversário político, entrou e depois de ríspida troca de palavras, deu três tiros à queima-roupa, com um revólver 32, matando João Pessoa, diante de muita gente.

A razão do crime não foi política, foi vingança, mas causou grande comoção popular, sendo um dos estopins da Revolução de 1930, que a Paraíba liderou com Minas Gerais e Rio Grande do Sul. A verdadeira motivação foi que a polícia da Paraíba, a mando de João Pessoa, tinha invadido o escritório do assassino, retirando cartas íntimas trocadas com a professora Anaíde Beiriz, sua amante, que foram publicadas no jornal "A União", do governo da Paraíba. João Dantas foi preso na hora e levado para a Casa de Detenção do Recife, que ficava perto. Sem fazer exame de corpo de delito, no IML, nem passar por audiência de custódia, que não existiam na época. Menos de quatro meses depois, foi vítima de chacina na sua cela, praticada por oito homens, apesar de a informação oficial ser a de que teria cometido o suicídio. Já Anaíde Beiriz, pivô da história, tentou se refugiar no Abrigo Bom Pastor, no Recife, aonde chegou morta, depois de ter praticado o suicídio.

O corpo de João Pessoa foi embalsamado no Recife e levado, de trem, para João Pessoa. Foi velado por quatro dias, na Catedral de Nossa Senhora das Neves. Seguiu, então, acompanhado por uma multidão para o Porto de Cabedelo, de onde seguiu para o Rio de Janeiro. Em vários portos recebeu homenagens. Foi enterrado no dia 8 de agosto, no Cemitério São João Batista. Logo depois da sua morte, a capital da Paraíba, que se chamava "Parahyba" ganhou, por decisão da Assembleia Legislativa, o nome de João Pessoa. E o estado adotou a bandeira vermelha e preta com o termo Nego, representando o luto e a luta.

No ano de 1997, as cinzas do presidente João Pessoa e de sua esposa, Maria Luíza, foram transportadas para a capital paraibana e colocadas em um mausoléu construído entre o Palácio do Governo e a Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba. Seu único filho, Epitácio, foi jornalista e senador pela Paraíba.

João Alberto Martins Sobral, editor da coluna João Alberto no Social 1

 

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