ADUFEPE: uma pequena franja de esperança
Alguém já disse, a respeito da Natalidade, que nós nascemos duas vezes: a primeira NO mundo, e a segunda PARA o mundo..............

O primeiro nascimento é biológico, em que entro na vida; o segundo é político, onde entro num conjunto extremamente complexo de relações intersubjetivas que vão me constituir como "identidade", como "sujeito", como "autonomia moral"... E eu começo a entrar no mundo quando começo a ser EDUCADO! Aliás, Kant principia seu tratado pedagógico dizendo que "o homem é o único animal educável!" (os outros animais podem ser amestrados, domesticados, treinados..., mas não educados).
Não preciso relembrar o caso do "Menino-Lobo" (Viktor do Aveyron) que, não tendo recebido nenhuma educação propriamente humana, não conseguiu praticamente ultrapassar seu estágio animal (caminhava de quatro patas e uivava!). Quero apenas lembrar, com esse exemplo, que o primeiro DIREITO de que devemos dispor é o DIREITO DE ME TORNAR HUMANO PELA EDUCAÇÃO, algo que venho seguidamente reafirmando em minhas... "lives" (que saudade da minha querida sala de aula real, onde tem gente de carne, osso, veia, consciência e olhar!). Isso significa que, pela educação, inclusive a superior, eu adquiro os adjetivos e predicados que me fazem partícipe de uma comunidade abstrata - a Humanidade- que, sabemos, não é um conceito populacional. Isso significa, para mim, que toda educação -do começo até aonde ela nos alcançar- deve ser PÚBLICA e GRATUITA, pelo simples fato de que não posso aceitar que, para me tornar "humano", eu tenha que comprar, numa empresa privada, meus atributos subjetivos (meio quilo de consciência, um litro de liberdade, dois metros de eticidade!).
E a aquisição, a qualidade e o horizonte desses atributos é, na verdade, sem fim ("Educar é uma finalidade sem fim", dizia o educador Ph. Meirieu): na educação escolar que vai do fundamental ao médio, aprendemos os primeiros códigos de nossa socialização secundária e o contato com as diferentes áreas da ciência e das humanidades (que tipo de saber e de agir no Mundo nos torna "humanos"? Saber e Agir que estão registrados numa "história"!). Na Universidade, é nossa vez de adquirir um Saber e um Agir (profissional) com os quais nós marcaremos nossa presença e passagem num Mundo Comum: como educador eu espero deixar em meus alunos e orientandos a expectativa de que eles possam se "emancipar" (do latim "soltar a mão") e alcançarem o máximo de sabedoria e autonomia. Sei que é muito, num mundo como o nosso: mas é o que eu espero!
No próximo mês de Dezembro, os professores da UFPE estarão elegendo os diretores da ADUFEPE, nossa entidade representativa. Confesso que não sou um bom cabo eleitoral, mas vejo na "CHAPA 2. RETOMAR A LUTA (ADUFEPE EM DEFESA DA UNIVERSIDADE PÚBLICA)", uma proposta de trabalho que representa e exprime minha visão de universidade pública.
Reafirmo, com clara consciência, que a Universidade não é um "lugar para aonde se vai": ela é um MODO DE VIDA. Isso significa que, ali, eu posso adquirir modos de conhecer, de falar de objetos, de lembrar uma tradição, de exprimir uma visão de mundo numa linguagem específica (científica, estética, histórica), e confrontar tal visão, com a visão dos OUTROS, independentemente da língua ou da cultura que esses Outros professam. Eu me torno, por assim dizer, Universal. Era isso que Peter Sloterdick queria dizer quando afirmava, que mais do que os portos ou aeroportos, o que faz uma Cidade universal é sua UNIVERSIDADE!
Não se trata apenas de oferecer assistência aos professores (como melhoria da qualidade de vida), ou a garantia de salários dignos, de estrutura adequada (inclusive de acessibilidade), de bolsa aos estudantes, financiamento de pesquisas socialmente relevantes, progressão funcional previsível, aposentadorias dignas, etc. Claro que eu quero tudo isso, aliado a um patamar democrático de decisões sobre aquilo que nos atinge, e da ampliação da participação dos segmentos (os professores não estão sozinhos, nem são a única categoria "permanente" da instituição!). Penso, sobretudo, na relação que une UNIVERSIDADE E SOCIEDADE ATRAVÉS DA EXTENSÃO: é no reconhecimento social de sua importância que podemos assegurar a defesa de nossa instituição quando ela é atacada (e nós sabemos o quanto ela está sendo!).
Penso, ao ler o programa de trabalho da CHAPA 2, capitaneada pelo meu velho amigo e colega Paulo Rubem Santiago, que mais do que um programa "escrito", ali está presente um "espírito", uma "ideia de universidade" com a qual eu concordo e que gostaria de ver realizada.
Sou, percebo, um hegeliano defasado: ainda acho que o Espírito Absoluto (a Ideia), depois de vagar pela História, terminará por se "atualizar" (incorporar) numa instituição. Para mim, essa instituição é a UNIVERSIDADE.
Flávio Brayner, professor Emérito da UFPE e visitante da UFRPE