O papel das escolas no enfrentamento do racismo
As escolas precisam muito desenvolver uma pedagogia libertadora, formando agentes capazes de promover uma reapropriação cultural....

Na semana passada, uma escola particular em Recife sofreu uma chuva de críticas por um episódio inusitado: ao organizar a mostra de conhecimentos, escolheu o tema Africanidade para ser trabalhado pelo 4º ano do ensino fundamental. Iniciativa louvável. Inclusive, a escolha deste tema está em consonância com a Lei 10.639/03 que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas públicas e privadas do Brasil, desde o ensino fundamental até o ensino médio.
O ambiente educacional é apropriado para trabalhar essa herança cultural do povo negro e a escola caminhava para uma mostra de conhecimento muito bem-sucedida, não fosse um ponto problemático na abordagem da escola, residente no fato de sua solicitação para que o alunado usasse "trajes típicos" de pessoas negras. A comunicação escolar direcionada às pessoas responsáveis pelas crianças indicava utilização de roupas com estampas étnicas, uso de tranças nagô pelas meninas, e até pinturas corporais com tinta branca por meninos.
Levando em consideração que a esmagadora maioria das crianças na turma é branca, um cenário de apropriação cultural e blackface são ameaçadores do processo pedagógico. Apropriação cultural é possível quando as crianças, mesmo brancas, vestem esses trajes sem o entendimento do que isso representa para o povo negro. Um exemplo importante são as tranças usadas pela população negra: Estas já serviram como códigos e através delas era possível saber a condição social de quem as usava, seu estado civil, a religião que professavam, serviam de mapas de fuga e até eram usadas para transportes de grãos de ouro que garantiram alforria de muitas pessoas escravizadas, ou seja, uma verdadeira tecnologia ancestral.
Para além disso, também temos o incentivo ao blackface, normalmente caracterizado quando uma pessoa que não é negra se pinta como tal com fins recreativos, como por exemplo o personagem da "nega maluca". Esse tipo de prática é tida como desrespeitosa, até mesmo no carnaval, assim como também não se recomenda que as pessoas se fantasiem de indígena. É preciso entender que a identidade cultural e política dos povos não podem ser objeto de chacota nesta sociedade.
A verdade é que a escola teria várias formas de abordar este tema: levar o corpo discente a locais com visitação que trazem um pouco desta história como o Museu da Abolição e o Quilombo do Catucá; convidar pessoas com formação em história para aprofundar a temática; fazer um convite para um bate-papo com pessoas afroempreendedoras que atuam em Recife e costuram roupas com tecido afro, algumas delas inclusive são de origem de países do continente africano onde a costura é uma atividade tipicamente masculina; Promover uma degustação com algum buffet especializado em comida africana, que fosse acompanhada de um olhar explicativo do significado de cada comida para o povo negro; Passar um filme, curta-metragem, dialogar com grupo de teatro afrocentrado ou buscar algum tipo de arte protagonizada por pessoas negras para abordar de forma lúdica a história do povo negro; Enfim, formatos não faltam.
As escolas são, em muitos casos, o primeiro lugar onde as crianças negras conhecem o racismo, uma vez que, antes da fase escolar, tendem a viver no seio familiar quase que na totalidade do tempo e, estas mesmas escolas, podem ser um ponto de virada na construção de uma sociedade com mais equidade e respeito para todas as pessoas.
Segundo um estudo realizado pela FEBRABAN, em parceria com o IPESPE, no ano de 2022, 32% das pessoas que sofreram algum tipo de bullying são negras, seguidos por pessoas da comunidade LGBTQIA , com 24%, e aspecto físico ou padrão de beleza com 15%. A classe social vem em quarto lugar, com 8% dos casos. As sequelas de uma violência sofrida ainda nesta fase podem reverberar por toda uma vida e garantir ambientes escolares de acolhimento, respeito e empoderamento identitário, vai fazer a diferença para a sociedade que teremos nas próximas décadas. Como sugestão inicial de letramento, recomendo duas obras que devem ser de leitura obrigatória para pessoas educadoras: "como ser um educador antirracista" e "educando crianças antirracistas", ambas da autora Barbara Carine.
Ao final, o que este episódio nos ensina é que as escolas precisam desenvolver uma pedagogia libertadora, conforme ensina o cientista político Almicar Cabral, formando agentes capazes de promover uma reapropriação cultural, proporcionando aos povos colonizados as ferramentas necessárias para compreenderem e enfrentarem sua condição de opressão e conscientizando as pessoas em condição de privilégio para entenderem e apoiarem a luta por equidade como meta de evolução social.
Manoela Alves - Diretora do Instituto Enegrecer