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O jantar de 1 bilhão de dólares

Haja criatividade e competência dessas pessoas para ganhar dinheiro. Imagine sendo usadas para reduzir as desigualdades e a miséria no mundo.

Por SÉRGIO GONDIM Publicado em 20/12/2024 às 0:00 | Atualizado em 20/12/2024 às 10:17

Duas pizzas foram compradas em maio de 2010 por 10.000 Bitcoins que equivalia a cerca de 40 dólares. Foi uma das primeiras transações realizadas em Bitcoins. Essa moeda, agora atingiu o mais alto valor de sua história e 1 Bitcoin vale 100.000 dólares. Multiplicando o valor pago pelas duas pizzas em 2010, chegamos ao valor do jantar: 1.000.000.000,00 de dólares.

Satoshi Nakamoto (ou um grupo de desenvolvedores), seu criador, não existe. Nakamoto é um pseudônimo. Funciona sem governos ou bancos e existe oferta limitada, não mais de 21 milhões de bitcoins podem ser minerados. As transações não exigem identificação dos usuários e na "mineração", computadores potentes resolvem problemas matemáticos complexos consumindo tanta energia que tem impacto sobre o clima.

Ao longo da trajetória, a moeda virtual esteve envolvida em muitas polêmicas. Foi rotulada como "fraude" por importantes figuras do mercado financeiro, mas é fato que no caminho gerou muitos bilionários e 2 trilhões de dólares circulam invisíveis a olho nu.

Uma regra básica da economia é que, olhando o mundo como uma mesa de jogo, quando alguém ganha, outro perde. Onde estarão os perdedores no caso do Bitcoin?

Aplicações financeiras, como a bolsa de valores, têm componente especulativo, envolvem maldades, mas também financiam empresas e empregos, promovem desenvolvimento. Não é fácil entender em que aspectos a moeda oculta ajuda a melhorar o mundo. Serve como investimento, assim como o ouro, mas pelo menos o ouro se presta para joias. Serve para compras de bens e serviços, mas para isso já existe dinheiro, cartão ou Pix. Serve para facilitar transferências internacionais, legais e ilegais. Quantos empregos gerou além daqueles envolvidos diretamente com esse mercado? Sabe-se que serve também para esconder dinheiro sujo, para pagar resgates de sequestros e invasões dos sistemas de informática, mas será que vai sumir assim como surgiu, vai continuar fazendo a festa dos investidores, vai implodir um dia como toda pirâmide financeira?

Executivos que trabalham com as "escondidas" recentemente investiram 135 milhões de dólares (fonte: NYT) para influenciar a eleição nos Estados Unidos e o recente pico de valorização tem relação com a vitória do chamado presidente Bitcoin, por seu declarado entusiasmo pela moeda e a recente entrada do presidente eleito e seus filhos no cripto negócio. Em paralelo, mais congressistas que expressam apoio receberam doações e foram eleitos nos Estados Unidos. Coisas do mercado financeiro misturado com o eleitoral.

Sem entender, perguntei ao ChatGPT: "em que o Bipcoin melhorou o mundo?". A resposta como sempre foi imediata: 1-Inclusão financeira, permitindo que pessoas sem acesso a serviços financeiros tradicionais participem da economia global (ou seja, utilidade zero para os mais pobres). 2-Controle financeiro devolvido às pessoas sem depender de bancos e governos (grande coisa, a quem interessa o descontrole?). 3-Redução de custos de transações internacionais (e para comprar feijão com farinha?) 4- Útil nas crises econômicas permitindo que, em países de inflação extrema ou desvalorização da moeda, seja uma alternativa para proteger a riqueza das pessoas (novamente os ricos). 5- Estímulo à inovação tecnológica com o uso do blockchain com segurança e imutabilidade (tá legal, é incrível, mas e o resultado final?). 6-Liberdade de transações, transferências sem censura ajudando em regimes autoritários a financiar ativistas, jornalistas e organizações de direitos humanos que enfrentam bloqueios financeiros (sem citar que também ajuda extremistas, terroristas ou os próprios regimes autoritários). 7-Mais pessoas passaram a se interessar por economia e seu funcionamento global, ajudando a educação financeira global (bem, aprender a ser mais oportunista). 8- Alternativa ao tradicional, gerido por meio de consenso público (beleza, para que?). 9-Digitalizaçao de ativos (e já não estava em curso?). 10-Impacto na filosofia e soberania monetária, na necessidade de reduzir o controle excessivo de governos sobre o dinheiro das pessoas (sei, na filosofia...).

Bem que a IA poderia ter pensado um pouco mais para responder, pois ao listar os 10 itens, se alongou, mas acabou dizendo: quase nenhuma melhora para o mundo.

Haja criatividade e competência dessas pessoas para ganhar dinheiro. Imagine tais cabeças sendo usadas para reduzir as desigualdades e a miséria no mundo.

Sérgio Gondim, médico

 

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