Ainda estamos aqui
A premiação de Fernanda Torres no Globo de Ouro equivale a uma prévia do Oscar e vai muito além de uma estatueta de premiação.......

Na corajosa produção dirigida pelo mesmo Walter Salles Júnior que há duas décadas e meia entregou à humanidade a obra prima que é “Central do Brasil”, estrelado por ninguém menos do que Fernanda Montenegro, nosso maior patrimônio das telas e dos palcos, Fernanda Torres vive Eunice Paiva, esposa de Rubens Paiva, nome que, para as atuais gerações, talvez não diga muita coisa, o que é lamentável.
Vamos a isso, então. Rubens Paiva nasceu em 1929 em Santos (SP). Formou-se engenheiro civil. Foi empresário e ingressou na política em outubro de 1962 eleito deputado federal pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mesma legenda do então Presidente da República João Goulart.
Como vice-líder do PTB na Câmara dos Deputados, Rubens Paiva foi vice-presidente da CPI instalada para apurar denúncias contra as atividades do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática. Ambos em 1963 foram acusados de receber recursos internacionais com a finalidade de desestabilizar o governo Goulart.
Rubens Paiva acabou sendo cassado logo após o golpe militar de 1964, através do primeiro Ato Institucional, de 9 de abril. Exilou-se na Embaixada da Iugoslávia, no Rio, e, em junho, deixou o Brasil partindo para a França e depois para a Inglaterra. Retornou no início de 1965.
Na madrugada de 20 de janeiro de 1971, após a detenção de Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e de Marilene de Lima Corona por agentes do Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), no aeroporto do Galeão, foram encontradas cartas de militantes políticos exilados no Chile. Como Rubens Paiva era um dos destinatários das tais cartas, no mesmo dia seis agentes armados com metralhadoras invadiram a casa do então deputado cassado. Ele foi conduzido em seu carro para prestar depoimento no Quartel da 3ª Zona Aérea. Desde o seu sequestro, iniciaram-se as torturas. No mesmo 20 de janeiro, Rubens Paiva, Cecília de Barros Correia Viveiros de Castro e Marilene de Lima Corona foram conduzidos ao DOI-CODI do 1° Exército (RJ).
Os familiares do deputado permaneceram incomunicáveis, detidos em sua casa durante todo o dia. Posteriormente, Eunice Paiva e sua filha Eliane (então com 15 anos) foram também levadas ao DOI. Apesar da confirmação dos agentes do DOI de que Rubens Paiva estava detido ali, Eunice e a filha não estiveram com ele. Após sessões de interrogatório, Eliane foi libertada no dia 23, enquanto Eunice permaneceu detida até o dia 2 de fevereiro, ocasião em que viu o carro do marido, um Opel Kadett, no pátio interno do quartel. Apesar de a família haver levado roupas para Rubens no Ministério do Exército, os agentes recusaram o recebimento sob o pretexto de que o parlamentar não se encontrar em nenhuma organização militar do 1° Exército.
Documentos oficiais provam, porém, a entrada de Rubens Paiva no DOI em 20 de janeiro de 1971, encaminhado pelo Quartel da 3ª Zona Aérea, pela equipe do CISA, além da descrição de itens pessoais. Diversos testemunhos e documentação analisada pela Comissão Nacional da Verdade comprovam a permanência de Rubens Paiva no DOI-CODI do I Exército, onde foi torturado e executado.
Aqui cumpre retomar a premissa inaugural deste artigo e traçar uma certeza: que a premiação da obra “Ainda Estou Aqui” transpõe (e muito) as fronteiras da indústria cinematográfica e até a filmografia de Fernanda Torres, sendo, mesmo, um eloquente manifesto, como é, a gritar em alto e bom som que, a despeito de todo o extremismo ideológico saudosista das ditaduras que ainda viceja, a consciência crítica coletiva, em sua maioria, não se permitiu ceder ao canto de uma volta ao passado opressor e à sua falaciosa mensagem de ordem e progresso pela família e pela Pátria.
Finalizo citando Cervantes: “A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida”.
Rubens Paiva presente!
Gustavo Henrique de Brito Alves Freire, advogado