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Veja as 20 cidades de Pernambuco sem casos de Coronavírus. Fundaj estuda o fenômeno

Mesmo com 29.919 casos confirmados no Estado, 20 municípios pernambucanos não registram diagnósticos do novo coronavírus

Larissa Lira
Larissa Lira
Publicado em 27/05/2020 às 19:26
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Pesquisadores da Fundaj constataram que o isolamento geográfico e uma menor densidade populacional são fatores importantes para o controle da disseminação da doença. - FOTO: REPRODUÇÃO / FLICKR
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Nesta quarta-feira (27) Pernambuco registrou, de acordo com o balanço da Secretaria Estadual de Saúde, 1.065 novos casos de coronavírus. Agora, o Estado totaliza 29.919 diagnósticos e 2.468 óbitos da doença. Mesmo com números alarmantes, ainda há 20 municípios que não contabilizam nenhum caso da covid-19 no Estado. Esse fenômeno foi estudado por pesquisadores do Centro Integrado de Estudos Georreferenciados para a Pesquisa Social (Cieg) da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), com o objetivo de identificar as causas do sucesso no combate da doença. 

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Com a listagem dos municípios que ainda não confirmaram casos da doença, os pesquisadores constataram que o isolamento geográfico e uma menor densidade populacional são fatores importantes para o controle da disseminação do novo vírus. Os dados do estudo foram atualizados nesta quarta-feira (27) e podem ser acessados no Paínel Analitico da Covid-19 da Fundaj, no site da instituição.

"Em 26 de maio, 165 dos 185 municípios do Estado tinham casos da doença. A partir da constatação desse rápido avanço, fizemos um mapa e analisamos os municípios que ainda não se contaminaram. Para isso, coletamos os dados junto aos sites das prefeituras desses municípios e nos Informes Epidemiológicos da Secretaria de Saúde do estado, tomando o período de 21 a 23 de maio como base da pesquisa", explicou o pesquisador do Cieg da Fundaj e coordenador responsável pelo Painel, Neison Freire.

Os pesquisadores analisaram, de início, o mapa dos municípios sem a doença. Dessa forma, perceberam a primeira causa do "atraso" do contágio: a maioria é formara por cidades que não estão conectadas ou próximas a alguma rodovia de grande tráfego. "Existe exceção no caso de Belém do São Francisco (BR-316) e Exu (BR-122). Porém, em ambos, há pouco fluxo de veículos se comparados, por exemplo, a BR-101 ou BR-232”, pontuou Neison.

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Densidade populacional e distanciamento geográfico 

Outro fator característico das cidades sem contaminação é o pequeno porte. Cerca de 80% desses municípios estão abaixo de 20 mil habitantes. Nesse grupo, a cidade de Ingazeira é a menor, com 4.548 habitantes. Enquanto Iati é a maior, com 19.197 habitantes. Assim, a densidade populacional e o distanciamento geográfico são fatores determinantes na evolução da disseminação da pandemia.

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Comparações

Além do mapeamento, os pesquisadores elaboraram um questionário com quatro perguntas sobre as possíveis causas desse atraso. Entre elas estão a adesão ao isolamento social, o fechamento do comércio não essencial e das escolas, além da instalação de barreiras sanitárias. Para se ter uma comparação, foram investigados 20 municípios sem casos confirmados e 20 com diagnósticos atestados. Os locais que apresentam números da doença foram selecionados a partir da maior variação percentual nos últimos 15 dias.

Com a comparação dos grupos, os pesquisadores observaram que 16 das 20 cidades sem a doença realizaram o isolamento social e permaneceram há aproximadamente 65 dias com essas medidas restritas.  Já o grupo dos municípios com casos, dos 20 apenas 11 decretaram o confinamento e a média de dias nessa condição foi de 52 dias. “Parece pouco, mas se tratando de uma pandemia com alto grau e rapidez de contágio essa diferença pode ser determinante”, destacou Neison.

Outra questão foi se o comércio não essencial estava fechado. No grupo “sem” covid-19, 11 municípios responderam que “sim”, situação que já dura cerca de 58 dias, em média. Já no grupo dos “com” covid-19, 15 dos 20 municípios estão há aproximadamente 48 dias com o comércio não essencial fechado.

Escolas e barreiras sanitárias

O fechamento das escolas e a instalação de barreiras sanitárias também foram premissas analisadas na pesquisa. Nos municípios sem a doença, 17 responderam que as escolas estão fechadas já cerca de 64 dias. Já nos com a doença, 18 responderam que estão com as escolas fechadas desde 18 de março, seguindo o decreto do Governo do Estado. Dessa forma, o fechamento de escolas foi quase que simultâneo e geral em ambos os grupos.

A última questão levantada na pesquisa está associada à instalação de barreiras sanitárias nas entradas das cidades. No grupo dos “não contaminados”, 9 responderam que instalaram barreiras e que, em média, elas existem há cerca de 20 dias, embora existam casos com maior tempo. Nas cidades com casos confirmados e maior variação percentual de contaminação nos últimos 15 dias, 6 dos 20 municípios pesquisados instalaram barreiras sanitárias. Em média, há apenas 13 dias. Com os dados, os pesquisadores concluíram que as barreiras sanitárias indicam ser uma maneira, provavelmente, eficaz na contenção do coronavírus. 

Veja as cidades sem coronavírus em Pernambuco

 

- Ingazeira, 

- Calumbi;

- Solidão;

- Brejinho;

- Palmeirinha;

- Ibrajuba;

- Brejão;

- Calçado;

- Angelim;

- Morelândia;

- Belém de Maria;

- Lagoa do Ouro;

- Santa Filomena;

- Mirandoa;

- Iati;

- Belém do São Francisco; 

- Marari;

- Flores;

- Tacaratu;

- Exu; 

 

 

REPRODUÇÃO / FUNDAJ
lLista de municípios pernambucanos sem casos de covid-19 - REPRODUÇÃO / FUNDAJ

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O que é coronavírus?

Coronavírus é uma família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus foi descoberto em 31/12/19 após casos registrados na China.Os primeiros coronavírus humanos foram isolados pela primeira vez em 1937. No entanto, foi em 1965 que o vírus foi descrito como coronavírus, em decorrência do perfil na microscopia, parecendo uma coroa.

A maioria das pessoas se infecta com os coronavírus comuns ao longo da vida, sendo as crianças pequenas mais propensas a se infectarem com o tipo mais comum do vírus. Os coronavírus mais comuns que infectam humanos são o alpha coronavírus 229E e NL63 e beta coronavírus OC43, HKU1.

Como prevenir o coronavírus?

O Ministério da Saúde orienta cuidados básicos para reduzir o risco geral de contrair ou transmitir infecções respiratórias agudas, incluindo o coronavírus. Entre as medidas estão:

  • Lavar as mãos frequentemente com água e sabonete por pelo menos 20 segundos, respeitando os 5 momentos de higienização. Se não houver água e sabonete, usar um desinfetante para as mãos à base de álcool.
  • Evitar tocar nos olhos, nariz e boca com as mãos não lavadas.
  • Evitar contato próximo com pessoas doentes.
  • Ficar em casa quando estiver doente.
  • Cobrir boca e nariz ao tossir ou espirrar com um lenço de papel e jogar no lixo.
  • Limpar e desinfetar objetos e superfícies tocados com freqüência.
  • Profissionais de saúde devem utilizar medidas de precaução padrão, de contato e de gotículas (mascára cirúrgica, luvas, avental não estéril e óculos de proteção).

Para a realização de procedimentos que gerem aerossolização de secreções respiratórias como intubação, aspiração de vias aéreas ou indução de escarro, deverá ser utilizado precaução por aerossóis, com uso de máscara N95.

Confira o passo a passo de como lavar as mãos de forma adequada

 

 


a vida sem o coronavírus

Militares do Grupo Base da Marinha na Estação Antártica Comandante Ferraz falam sobre a rotina no único continente livre da covid-19

Mona Lisa Dourado
Mona Lisa Dourado
Publicado em 26/05/2020 às 19:40
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Grupo Base da Marinha passa 13 meses na Antártida cuidando da manutenção da EACF - FOTO: DIVULGAÇÃO
Leitura: 23min

Quando se inscreveu há cerca de dois anos para participar do Grupo Base da Marinha, que permanece durante 13 meses isolado no extremo sul do mundo, a médica e Capitã Tenente Letízia Aurilio Matos sabia que enfrentaria situações adversas. Entre elas, passar boa parte do ano com apenas quatro horas de luz solar, cercada por neve e submetida a mudanças climáticas bruscas, com temperaturas de até 20 graus abaixo de zero. Sem falar de uma possível emergência com as pessoas de quem deve cuidar. Todo o longo processo seletivo e o treinamento prévio para a missão, que inclui desde análise do histórico nas Forças Armadas a rígidos testes físicos e psicológicos, parecem agora muito mais simples diante da complexidade da pandemia do novo coronavírus. “Ninguém previa algo nessa dimensão. Nós também não, mas rapidamente nos adaptamos para lidar com esse novo cenário”, conta.

 

Dra. Letízia é a única mulher entre 16 militares que formam neste momento um seleto grupo de brasileiros protegidos da contaminação, quando os casos de covid-19 disparam no País. Eles são responsáveis pela manutenção da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), a base do Brasil na Antártida, hoje único continente livre da doença no mundo. Condição essa que provavelmente só foi possível porque a maior propagação do vírus coincidiu com o fim do verão nas ilhas antárticas, em março, quando os últimos navios com pesquisadores deixam a região antes que tudo congele e ninguém mais entre ou saia. No inverno (do fim de março ao início de novembro), a população espalhada pelas estações científicas de quase 30 países cai de cerca de 5 mil para no máximo mil pessoas.

 

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Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) fica da Baía do Almirantado, na Ilha Rei George - DIVULGAÇÃO

 

>> Veja especial sobre a Antártida e a Terra do Fogo 

>> Confira a experiência da equipe do Jornal do Commercio no continente gelado 

O alívio de estar distante do foco do vírus, no entanto, só não é completo por causa da preocupação com parentes e amigos expostos aos riscos de infecção no País. “Por um lado, temos o conforto de saber que estamos seguros. Mas por outro, o receio de ocorrer alguma coisa com quem a gente ama é muito grande, porque acompanhamos de longe. Não podemos sair daqui”, resume a médica, que mantém contato diário com os pais e a irmã no Rio de Janeiro, entre uma e outra demanda profissional. Entrevistas para a imprensa têm se somado às obrigações nos últimos dias. Com a reportagem do Jornal do Commercio, a conversa foi por videoconferência no fim da semana passada, ao lado do chefe da EACF, o Capitão de Fragata Luciano de Assis Luiz.

 

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Comandante Luciano de Assis é o chefe da Estação Antártica Comandante Ferraz - DIVULGAÇÃO

 

Para ele, a maior aliada para atravessar esse período tem sido a tecnologia. Um diferencial elogiado pela maioria dos pesquisadores que passaram nesta temporada pela nova estação, inaugurada oficialmente em 15 de janeiro último, oito anos após um incêndio ter destruído a estrutura anterior.

O atual Grupo Base desembarcou na Baía do Almirantado (Ilha Rei George), onde fica a EACF, em 4 de novembro de 2019 e só vai embora na primeira quinzena de dezembro próximo, quando os dois navios de apoio logístico e científico mantidos pelo Programa Antártico Brasileiro (Proantar) retornarem. “Essa é a missão mais longa da Marinha, mas graças ao 4G eficiente e às ferramentas que temos aqui, posso acompanhar meu filho de perto e ver a alegria dele, que está safo pra caramba com as aulas a distância. Pensei até que fosse ficar estressado com o confinamento, mas, na verdade, ele está me ensinando muito”, diz o comandante, orgulhoso. Segundo ele, todos os integrantes do Grupo Base são liberados para falar com as famílias no horário que desejarem, o que ajuda a combater a saudade e diminuir a angústia trazida pela pandemia.

 

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Varanda da Estação Antártica Comandante Ferraz, considerada uma das mais modernas hoje no continente gelado - DIVULGAÇÃO

 

Habituados ao distanciamento da família e da vida social em terra, seja nas missões em navios, seja em lugares remotos como a Antártida, os militares aconselham quem está no confinamento obrigatório no Brasil a ter paciência e estabelecer uma rotina.

 

O nosso isolamento é diferente, porque é voluntário e preparado, não tem o peso de uma doença. Mas o que fazemos aqui que vocês podem ter aí é estabelecer horários para trabalhar, estudar, ter lazer e interagir com as pessoas da casa, além de fazer exercício. Aqui, apesar de cada um ter um camarote confortável, sempre buscamos nos reunir no almoço e nos encontrar à noite pra conversar, jogar War e rir juntos
Comandante Luciano de Assis

 

 

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Academia de ginástica, com vista para a Baía do Almirantado, garante espaço para prática de exercício durante os meses de confinamento - DIVULGAÇÃO

 

No dia a dia da estação, a principal mudança imposta pela pandemia diz respeito ao reforço dos protocolos de higienização dos materiais que são lançados pelos aviões Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira (FAB) nos meses mais frios do ano. Nesse período, o mar congelado inviabiliza o tráfego de embarcações e ventos às vezes superiores a 100 km/h tornam a aproximação de helicópteros uma operação arriscada. O jeito para prover a estação de mantimentos e outros produtos é arremessá-los em palets durante sobrevoos periódicos.

 

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Alimentos são armazenados especialmente para o período de inverno. Paiol fica no nível inferior da base - DIVULGAÇÃO

 

Ainda não há previsão de quando o primeiro carregamento será enviado, mas já está claro o que é preciso fazer para evitar que o coronavírus pegue carona com ele. O processo ocorre em três etapas:

 

Tudo é desinfetado na Esantar (Estação de Apoio Antártico) no Rio e o mesmo procedimento é seguido pela FAB no transporte do material. Uma vez que o recebemos aqui, ele passa novamente por limpeza e desinfecção antes de ser acondicionado na base
Dra. Letízia

 

Todos os procedimentos, diz, seguem as recomendações do Ministério da Saúde e da Diretoria de Saúde da Marinha, assim como as diretrizes determinadas pelo Conselho de Gerentes dos Programas Antárticos e do Plano de Ação do Proantar.

 

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Cozinha tem todos os equipamentos necessários à produção de alimentos para grandes grupos - DIVULGAÇÃO

 

Mesmo que ocorrências relacionadas à covid-19 estejam praticamente descartadas, a EACF dispõe de estrutura para lidar com urgências decorrentes da própria atividade no continente gelado, garante a médica. Ela lembra o caso de um alpinista da base, geralmente destacado para acompanhar pesquisadores, que sofreu uma fratura no último verão. “Temos um centro médico capacitado para estabilização, com todos os medicamentos que possamos precisar”, explica Letízia, citando também um protocolo de evacuação, em caso de maiores riscos. “Se a gente não conseguir tratar aqui, estabilizamos o paciente pelo tempo necessário até que se abra uma janela climática (que possibilite o voo) e fazemos contato com a estação mais próxima, como a chilena Frei, que então disponibiliza o helicóptero e leva a pessoa para Punta Arenas (Chile)”, detalha.

 

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Centro médico dispõe de sala de estabilização de pacientes para casos de emergência - DIVULGAÇÃO

 

Sem uma vacina e com a covid-19 descontrolada no Brasil, ainda não se sabe quais os impactos sobre a próxima Operação Antártica. O comandante Luciano acredita que haverá mais restrições, com exigência de exames prévios para detectar o vírus antes de qualquer desembarque no continente.

 

 

Veterano na Antártida, com 33 anos de pesquisa no continente, o professor titular da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Jair Putzke, alerta que será preciso discutir muito bem como evitar um impacto sobre a Antártida e entender melhor como o coronavírus reage em contato com animais. "Sabemos que animais em zoológico se contaminaram porque um tratador estava infectado. Há casos de animais domésticos igualmente contaminados. Então precisamos estar atentos aos resultados das pesquisas que estão sendo publicados aos poucos, para desenharmos como será uma próxima operação. Ao mesmo tempo escutar especialistas em virologia para, a partir do segundo semestre, verificar os perigos associados a uma introdução, ainda que acidental, deste vírus", sugere, reconhecendo que os potenciais prejuízos ao ecossistema antártico podem se tornar irreversíveis.

RECURSOS

Por meio de nota, a Marinha diz que “das Emendas Parlamentares previstas (de onde vem parte dos recursos para o Proantar), apenas a quantia de R$ 100 mil foi redirecionada para enfrentamento da emergência de saúde pública decorrente do coronavírus”. Com isso, o planejamento e condução das atividades logísticas permanecem sem alterações, com orçamento previsto para 2020 de R$ 9,5 milhões.

O Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, a quem cabe a parte científica do Programa Antártico, ainda não respondeu à reportagem.

 

Kleber Melo
Por que o Brasil precisa estar na Antártida? - Kleber Melo

 

DE VOLTA PARA CASA

Quando o navio polar Almirante Maximiano e o navio de apoio oceanográfico Ary Rongel deixaram a Antártica no dia 14 de março, levando de volta para casa os últimos pesquisadores da temporada, o coronavírus já avançava no mundo. Apesar do início do fechamento de algumas fronteiras, a Marinha diz que não houve dificuldades no retorno ao Brasil. As únicas alterações na logística do regresso foram o encurtamento das paradas para reabastecimento nos portos de Punta Arenas (Chile) e Ushuaia (Argentina) e o cancelamento da escala que estava prevista para Montevidéu (Uruguai), mas que não afetaram as atividades de pesquisa.

Leia abaixo os relatos de alguns dos cientistas que estavam a bordo neste período.  

"SAÍMOS DE UM ISOLAMENTO PARA ENTRAR EM OUTRO"

 

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Lilian Pedroso Maggio estuda o impacto das mudanças climáticas no solo e na vegetação - DIVULGAÇÃO

 

Pela primeira vez na Antártida, a doutoranda Lilian Pedroso Maggio passou 45 dias no continente gelado, 20 deles isolada em um acampamento na Ilha Livingston. Entre 2 de fevereiro e 14 de março, a pesquisadora  enfrentou a dificuldade de caminhar vários quilômetros por dia subindo e descendo montanhas, mas se diz encantada de descobrir uma paisagem exuberante em meio a um continente inóspito como a Antártida. Lilian participa do projeto Permaclima, da Universidade Federal de Viçosa (UFV-Minas Gerais), que tem como objetivo avaliar o que acontece com os solos e à vegetação em função das mudanças climáticas.

Confira o depoimento: "Quando partimos em expedição, a situação no Brasil ainda não era tão grave, como se tornou até o momento. Desembarcamos na Antártida com a aeronave Hércules, da Força Aérea Brasileira. Em seguida, já embarcamos no navio de Pesquisa Ary Rongel, onde permanecemos alguns dias até sermos lançados ao nosso acampamento. No navio, tínhamos acesso à internet, embora de maneira limitada. No acampamento, o acesso era totalmente restrito. Não tínhamos noção de nada o que acontecia no mundo aqui fora. Só havia um telefone via satélite para casos de emergência e para enviar notícias rápidas aos familiares e amigos. No dia em que fomos avisados do recolhimento do acampamento, ficamos todos muitos ansiosos. Quando os pilotos de helicóptero foram nos retirar, tivemos um baque muito grande ao sabermos da gravidade das proporções que a covid-19 tinha tomado. Com o avanço no número de casos, foi decretado o isolamento na semana que chegamos do continente antártico. Saímos de um isolamento para entrar em outro. Uma situação bastante difícil, pois devíamos permanecer em quarentena, o que nos impediu de matar a saudade dos familiares e contar sobre a fantástica experiência de estar na Antártida".

SEGURANÇA NO FOCO

 

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Bruna Laindorf já esteve duas vezes na Antártida e foi uma das últimas pesquisadoras a regressar na última temporada - DIVULGAÇÃO

 

Também doutoranda em Ciências Biológicas, Bruna Laindorf voltou à Antártida nesta temporada, depois da estreia no continente gelado em 2018. Foi uma das últimas a deixar a região, no dia 1o. de abril, 25 dias depois de realizar seus estudos sobre o potencial das plantas antárticas na produção de fármacos. A cientista compara as diferenças de rotina entre a pesquisa nos trópicos e no clima antártico, além de falar do confinamento no navio em que viajou de volta ao Brasil já sob o avanço da pandemia. 

"Para quem está acostumada a realizar expedições em clima tropical, a logística é dramaticamente outra.
Temos a diferença crucial de clima, e com isso a percepção, o foco e seu próprio corpo respondem de forma diferente. As atividades são mais lentas e cautelosas, o objetivo principal, sempre é a segurança, afinal estamos em um ambiente extremo (o ambiente mais inóspito da terra), onde qualquer descuido pode comprometer nossa segurança (seja pela tempera baixíssima da água, deslizamentos, tempestades, gretas na neve e até mesmo pela fauna). As vestimentas especiais para frio, embora sejam da melhor qualidade, comprometem de certa forma a mobilidade, são várias camadas de roupas, além de botas de neve, algo nada comum para quem vive em clima tropical. Os acessórios, como luvas e touca, são essenciais, mas usar luvas de frio, dificulta a motricidade, tornando a coleta, identificação e armazenamento de uma simples planta, uma dura tarefa. O sol refletido na neve, para quem não é acostumado, compromete um pouco a visão, sendo necessário o uso de óculos apropriado. Mas as dificuldades são recompensadas a todo instante com a intrigante paisagem. Para quem acredita que a Antártica é um deserto branco, posso dizer que a Ilha Rei George, onde estive, compreende uma riqueza de vida e beleza inexplicáveis. Cada geleira, cada montanha, os detalhes do mosaico da vegetação avistados, deixa qualquer pesquisador fascinado, e agradecido pelo privilégio de conhecer e ajudar entender esse ambientes tão extremo, que tem muito ainda a nos ensinar."

"Felizmente ficamos isolados em um ambiente privilegiado, saudável, onde dispúnhamos de biblioteca, academia de ginástica, lista de filmes, alimentação excelente, camarotes com banheiros em dupla, além de assistência médica, se necessário fosse. Infelizmente essa não é a realidade que a grande maioria dos brasileiros enfrenta no atual isolamento. Isso me entristece muito, uma vez que o simples fato de ficar em isolamento, mesmo com todas as comodidades, nos afeta. Não consigo imaginar o quão duro deve ser quando se precisa pensar em como por comida na mesa, ou como dividir um ambiente de poucos cômodos com uma família numerosa, ou não conseguir estudar por falta de um computador, acesso à internet e à literatura, ou ainda a violência que muitas mulheres estão sujeitas nesse confinamento."

 

IMIGRAÇÃO DIFERENCIADA

 

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Maria Victória Magalhães de Vargas conta como o fechamento dos portos afetou o retorno ao Brasil - DIVULGAÇÃO

 

Bacharel em Biotecnologia, mestre e doutoranda em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Maria Victória Magalhães de Vargas estuda os musgos antárticos como potenciais biofábricas para a produção da L-asparaginase, medicamento utilizado no tratamento da Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA). 

Ela conta que o retorno para o Brasil ao final da última Operação Antártica foi marcada por uma certa tensão, mas ressalta que o apoio logístico da Marinha garantiu o regresso em segurança: "Na parada estratégica, em Ushuaia (Argentina), já sentimos os efeitos da pandemia, com vários locais, turísticos ou não, fechados. No nosso segundo dia na cidade, os portos também fecharam e não pudemos mais descer do navio. Nossa previsão de ficar lá seria de uns 10 dias, mas ficamos cinco, ancorados no porto. A outra parada prevista, em Montevideo, foi cancelada e não conseguimos nem chegar ao porto, pois já estava fechado para a entrada de estrangeiros. Por causa disso, chegamos antes da data prevista ao Brasil e tivemos que comprovar que estávamos em isolamento, em alto-mar há mais de 14 dias para sermos autorizados a descer em Rio Grande (RS). A Unipampa enviou um micro-ônibus para o nosso resgate, com todas as medidas de proteção, como máscaras, luvas e álcool 70".

COMO É FAZER PESQUISA EMBARCADO

 

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Guilherme Afonso Kessler trabalhou 25 dias embarcado processando amostras nos laboratório do Navio Polar Almirante Maximiano - DIVULGAÇÃO

 

Integrante do projeto Neva-Briotecnologia Antártica como alternativa para a produção de medicamentos, o doutorando em Ciências Biológicas Guilherme Afonso Kessler de Andrade passou 25 dias a bordo do navio Almirante Maximiano, fazendo desembarques estratégicos apenas para colher amostras necessárias à análise em laboratório. O pesquisador fala das peculiaridades de fazer pesquisa em um ambiente polar: "É uma grande honra e privilégio poder fazer parte do Proantar. Acredito que todos deveriam ter a oportunidade de ir até lá para poder ver e sentir a importância que aquele local tem. É de encher os olhos poder ver de perto as geleiras, o mar com fragmentos de gelo, a fauna e a flora única daquele ambiente. Mas nem sempre se consegue fazer o programado. Então, é necessário ter sempre outras alternativas em mente, principalmente nós que trabalhamos com amostras vivas. Outro ponto interessante é o trabalho no navio, pois depende muito das condições do oceano. Embora tenhamos pego o Drake calmo, houve dias que não tivemos condições de ir ao laboratório. Com o mar agitado, enjoávamos muito, o que impedia o trabalho".

 

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lLista de municípios pernambucanos sem casos de covid-19 - FOTO:REPRODUÇÃO / FUNDAJ

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