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Após mais de cinco horas de protesto, motoristas e cobradores liberam trânsito no Centro do Recife

O Sindicato dos Rodoviários não descarta a possibilidade de que ocorram novas manifestações nos próximos dias

JC
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Publicado em 21/09/2020 às 13:36
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WELLINGTON LIMA/JC IMAGEM
O PL é, hoje, a principal esperança que os rodoviários ainda alimentam para tentar reverter a retirada e demissão dos cobradores e a consequente dupla função dos motoristas - FOTO: WELLINGTON LIMA/JC IMAGEM
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Após mais de cinco horas de protesto, por volta das 13h10 motoristas e cobradores de ônibus encerraram a manifestação contra demissões da categoria e a dupla função, que teve início às 7h da manhã desta segunda-feira (21) entre a Rua do Sol e a Avenida Guararapes, no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife. Com a liberação do trânsito, o tráfego nas vias da região Centro, incluindo a Avenida Governador Agamenon Magalhães, que liga Recife à Olinda, na altura do bairro do Derby, segue livre.

Com ônibus estacionados, o protesto aconteceu quatro dias após rodada de negociações por reajuste salarial com o Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros no Estado de Pernambuco (Urbana-PE), que ocorreu no dia 17 de setembro. De acordo com a categoria, a pauta principal é contra a dupla função, que ocorre quando os condutores dos coletivos têm que dirigir e cobrar a passagem. O assunto é pauta antiga do Sindicato dos Rodoviários, que já realizou diversos atos relacionados ao tema.

Apesar do término da manifestação, o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Aldo Lima, afirmou que a há possibilidade que novos protestos ocorram nos próximos dias. "Hoje seria votada na na Câmara Municipal do Recife o Projeto de Lei 5 de 2019, para que fosse proibida a dupla função. No entanto, a votação foi adiada para a semana que vem. Antes disso a categoria pretende se mover novamente", disse.

Segundo a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), após a manifestação o trânsito voltou a fluir bem na Avenida Conde da Boa Vista, Ponte Duarte Coelho, Rua do Sol, Rua da Soledade e Avenida Agamenon Magalhães. O órgão também afirmou que, durante o protesto, não foi necessário fazer desvios, mas, no entanto, agentes da autarquia monitoraram o trânsito no local.

O protesto fez com que muitos passageiros fossem pegos de surpresa, como foi o caso da aposentada Lúcia Barbosa. "Sabia não, se eu soubesse nem tinha vindo hoje. Vou para o Cais de Santa Rita a pé", disse durante a manifestação.

Já a auxiliar administrativa Bruna Menezes afirmou, na ocasião, que estava atrasada para o trabalho. Ela disse que tentou pegar o transporte alternativo, mas que desistiu por causa do preço "Como não tem ônibus, o preço está bem alto. Estou aguardando um pouco para ver se tem alguma previsão de retorno, se não vou ter que pegar transporte de aplicativo, mesmo", contou.

Por meio de uma nota, o Grande Recife Consórcio de Transporte informou não ter sido comunicado sobre o protesto.

Retirada em massa dos cobradores

Devido a pandemia da covid-19, Pernambuco autorizou a retirada em massa de cobradores. Atualmente, após a liberação oficial, 67% das linhas do sistema estão operando sem o profissional e com os motoristas atuando, em quase toda sua totalidade, na dupla função, ou seja, dirigindo, recebendo dinheiro e passando troco, o que representa 2.386 motoristas, segundo apurou o blog Mobilidade, do JC. Além da extinção da prática, rodoviários também pedem pelo fim da intrajornada, da compensação de horas, do cálculo da jornada pela movimentação dos veículo via GPS e pela reintegração de todos os demitidos.

De acordo com denúncia oficializada pelo Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco ao Ministério Público do Trabalho (MPT), três mil profissionais, maioria cobradores, foram demitidos um dia antes de o governo federal conseguir a aprovação da MP 936 (criada para garantir o emprego e a renda), no início da pandemia. Nunca foi informado oficialmente pelo setor empresarial quantos foram reintegrados. A categoria estima que menos da metade das três mil demissões denunciadas tenha sido revertida.

"Retirar esses trabalhadores dos postos de trabalho, aumentando o desemprego, ainda traz insegurança no transporte, porque o motorista não vai dar conta de fazer tudo isso sem colocar a sua vida e a do passageiro em risco", comentou o presidente do Sindicato, Aldo Lima, que afirma haver, atualmente, de 5 a 7 mil cobradores no Grande Recife.

Aldo explicou, ainda, que "está acontecendo uma demissão exacerbada de trabalhadores e tudo isso foi concedido pelo Conselho Superior de Transporte Metropolitano (CSTM)". Segundo ele, haverá uma nova rodada de negociação com a Urbana-PE no dia 1º de outubro.

O presidente da Urbana-PE, Luis Fernando Bandeira, defendeu, em entrevista à Rádio Jornal, nesta segunda-feira (21), que a sociedade "ganha" com a retirada dos cobradores. "A grande maioria das capitais brasileiras já não têm mais cobrador. A sociedade ganha a redução dos custos com a retirada do trabalhador. Hoje você tem toda uma bilhetagem que não há mais necessidade do cobrador, vamos aproveitá-lo em outras funções, como fiscais e motoristas. Agora você não pode impedir a modernidade. Vai continuar com cobrador mesmo tudo sendo eletrônico?", indagou.

Quando questionado se teme uma eventual greve, Bandeira disse que, pela atual crise provocada pela pandemia, não seria possível conceder o aumento que a classe pede, mas que está disposto a dialogar com os rodoviários. "Eu sempre luto para que não haja movimento paradista, sempre estamos dispostos a dialogar. Numa época dessa que a gente está passando pela maior crise econômica que a gente vive no mundo, não posso dar realinhamento de salário de mais de 20%. Isso seria uma loucura. Temos conversado bastante com o Sindicato para mostrar a realidade atual. O ideal era que essa promoção fosse provocada em um ano, ou pelo o menos por seis meses, mas o presidente até agora não se mostrou sensível ao pleito da nossa categoria", disse.

Notas de esclarecimento

Oficialmente, a Urbana-PE alegou que acontece nesta segunda uma "interrupção ilegal do serviço de transporte público", "sem qualquer diálogo prévio e não observa a antecedência mínima exigida aos serviços essenciais". Por fim, "repudiou", ainda, a "atitude do Sindicato dos Rodoviários por sistematicamente interromper um serviço essencial à sociedade para atender aos objetivos políticos da sua diretoria e reitera que está trabalhando para restabelecer a operação.

Por nota, o Grande Recife Consórcio de Transporte informou não ter sido comunicado sobre o protesto, e que a manifestação "compromete a circulação dos ônibus na Região Metropolitana". "O Consórcio, em conjunto com a CTTU, está buscando alternativas para o desvio do itinerário das linhas que passam pela localidade com o objetivo de mitigar os impactos deste protesto para os usuários", afirmou.

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