MANIFESTAÇÃO

Após 6 horas do terceiro protesto no mês, rodoviários liberam trânsito no Centro do Recife

Ato aconteceu contra o acúmulo de funções e a favor da reintegração dos profissionais demitidos durante a pandemia da covid-19

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Publicado em 28/09/2020 às 13:00
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PAULO DANIEL/JC IMAGEM
Além do protesto desta segunda, aconteceram mais dois neste mês de setembro: um no dia 4 e outro no dia 21 - FOTO: PAULO DANIEL/JC IMAGEM
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Às 13h desta segunda-feira (28), motoristas e cobradores seguiram viagem com os ônibus que, durante 6 horas, estiveram estacionados em importantes vias do Centro do Recife, em protesto contra o acúmulo de funções e a favor da reintegração dos profissionais demitidos durante a pandemia da covid-19. A classe paralisou as atividades no mesmo dia em que estava prevista a votação do Projeto de Lei (PL) 05/19, que proíbe os ônibus de circularem na cidade com o motorista acumulando a função de cobrador. A Câmara dos Vereadores anunciou, entretanto, que foi apresentada uma emenda no plenário, e o projeto voltou às Comissões, tendo sua votação adiada. Não foi o primeiro, e, segundo o Sindicato dos Rodoviários, não será o último ato relacionado aos temas.

"Nossa reivindicação é a mesma: a luta contra a dupla função. Queremos acabar com esse projeto absurdo que os motoristas têm que dirigir, cobrar passagem, fazer várias outras atribuições, colocando em risco a vida dele e de toda a população", afirmou o presidente do Sindicato, Aldo Lima. "Vai ter uma outra votação e a possibilidade de outras manifestações continuam. Vamos discutir com a direção do Sindicato, com a categoria, com os trabalhadores, com a população - que tem nos apoiado bastante", completou.

Além do protesto desta segunda, aconteceram mais dois neste mês de setembro: um no dia 4 e outro no dia 21. No primeiro, funcionários da empresa de transporte Caxangá, entre cobradores e motoristas, impediram a saída de ônibus das garagens localizadas no bairro de Jardim Brasil, em Olinda. A segunda, que durou mais de quatro horas, foi na última segunda-feira, também no cruzamento entre a Rua do Sol e a Avenida Guararapes, no bairro de Santo Antônio, no Centro do Recife.

Atualmente, 67% das linhas do sistema estão operando sem o cobrador e com os motoristas atuando, em quase toda sua totalidade, na dupla função, ou seja, dirigindo, recebendo dinheiro e passando troco, o que representa 2.386 motoristas, segundo apurou o blog Mobilidade, do JC.

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Os ônibus estão alocados na Ponte Duarte Coelho, na Rua do Sol, na Avenida Guararapes e na Avenida Agamenon Magalhães, no Derby, sentido Boa Viagem - PAULO DANIEL/JC IMAGEM

De acordo com denúncia oficializada pelo Sindicato dos Rodoviários de Pernambuco ao Ministério Público do Trabalho (MPT), três mil profissionais, maioria cobradores, foram demitidos um dia antes de o governo federal conseguir a aprovação da MP 936 (criada para garantir o emprego e a renda), no início da pandemia. Nunca foi informado oficialmente pelo setor empresarial quantos foram reintegrados. A categoria estima que menos da metade das três mil demissões denunciadas tenha sido revertida.

Os passageiros do coletivo tiveram que descer dos veículos. A crítica contra o acúmulo de funções não vem só da classe, mas também da população. “Isso vem acontecendo recentemente e os empresários nada fazem, só quem sofre é a população. Me pegou de surpresa, não só eu, como todos. Para voltar para casa, agora, vou ter que sair do Centro para o Derby, para pegar uma condução. Eu acho isso um absurdo, os empresários não estão nem aí para isso. Estão sofrendo a população e quem está trabalhando por dois empregos, no caso do motorista”, diz o porteiro José Ivo Nascimento Silva.

Já o aposentado Francisco Paulo da Silva critica a decisão dos rodoviários em paralisarem os ônibus no Centro. “Eu e muitos que vieram nos ônibus estamos revoltados com isso. Ninguém é contra que eles façam a reivindicação por causa da demissão de cobradores, mas a gente é contra o que eles estão fazendo com a gente. Estamos sendo feitos de marionetes, porque param os ônibus e a gente tem que seguir a pé. Tem que ter uma posição legal, isso tem que parar. Ou para na garagem, não sai mais ninguém, ou as autoridades fazem o que eles querem, mas o que eles estão fazendo não é justo”, afirma.

Para Diógenes Anselmo, que trabalha com logística, a a manifestação é válida, mas a forma como é feita prejudica a população. “Essa paralisação um pouco difícil para a população do Recife. A gente entende a dificuldade, mas ao mesmo tempo prejudicou muito a população hoje, em plena segunda-feira."

O Sindicato das Empresas de Transportes de Passageiros no Estado de Pernambuco (Urbana-PE), afirmou que o "Sindicato dos Rodoviários, sem qualquer aviso ou tentativa de diálogo prévio, promove mais uma paralisação ilegal de um serviço essencial, impedindo a circulação de ônibus na Região Metropolitana do Recife", e que "os bloqueios ocorrem com baixíssima adesão de motoristas e cobradores e evidenciam como a diretoria do Sindicato dos Rodoviários tem feito uso político dos protestos, prejudicando o direito de ir e vir da população e impondo prejuízos à economia local." Por fim, a Urbana-PE reiterou que "está empenhada na normalização do serviço e que tomará as medidas necessárias para evitar novos transtornos à população."

A Urbana-PE enviou à reportagem um vídeo gravado na Rua do Príncipe em que um suposto integrante do Sindicato dos Rodoviários ameaça um motorista - que aparentemente não queria aderir à manifestação - com um banner, gritando "todo mundo está lá", e respondeu que "repudia veementemente a postura violenta do Sindicato dos Rodoviários e seus representantes ao tentar coagir os rodoviários a aderirem à paralisação, utilizando-se de ameaças aos operadores e de depredação de patrimônio à serviço da população, conforme explícito em vídeos que estão circulando pelas redes sociais". A empresa informou que vai proceder o registro da ocorrência.

Por nota, o Consórcio Grande Recife informou não ter sido comunicado sobre o protesto, e que este "compromete a circulação dos ônibus na região central do Recife". "O Consórcio, em conjunto com a CTTU e Polícia Militar, está buscando alternativas para o desvio do itinerário das linhas que passam pela localidade com o objetivo de minimizar os impactos deste protesto para os usuários", afirmou.

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Os ônibus estão alocados na Ponte Duarte Coelho, na Rua do Sol, na Avenida Guararapes e na Avenida Agamenon Magalhães, no Derby, sentido Boa Viagem - FOTO:PAULO DANIEL/JC IMAGEM

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