TRANSPORTE PÚBLICO

Razões para o escalonamento no transporte público

Não é apenas o transporte público quem ganharia com o escalonamento. O automóvel também seria beneficiado com menos trânsito para enfrentar nos horários de pico

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 27/09/2020 às 16:00
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A terceira reportagem da série Escalonamento em discussão, apresentada pela Coluna Mobilidade, mostra exemplos de cidades que, de alguma forma, adotaram a mudança e pensaram no transporte público. É o caso de Fortaleza e Goiânia - FOTO: ARTES/JC
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São muitas as razões para a implementação do escalonamento das atividades produtivas e de serviços nas cidades brasileiras como socorro ao transporte público. Não só os ônibus, metrôs e trens seriam beneficiados. A sociedade em geral ganharia. Inclusive a usuária do automóvel, que - pelo menos antes da pandemia - era acostumada a enfrentar congestionamentos diários nos mesmos horários de pico que agora estão sendo discutidos. As cidades ganhariam. Fugir da mobilidade convencional ajudaria a promover uma nova rotação dos centros urbanos, onde todos fazem quase tudo no mesmo horário. Evidenciar essas razões, que vão além do transporte coletivo, é o recorte da segunda reportagem da série Escalonamento em discussão, apresentada pela Coluna Mobilidade. A série discute a necessidade e as dificuldades da adoção de novos horários de deslocamento para a população.

CONFIRA AS OUTRAS REPORTAGENS DA SÉRIE ESCALONAMENTO EM DISCUSSÃO

A concentração de metade da demanda de passageiros em duas horas pelo pico da manhã e outras duas no pico da noite, que tanto mal faz ao transporte coletivo, é resultado de um modelo convencional de mobilidade enraizado na sociedade e difícil de ser combatido. Fazemos tudo nos mesmos horários. As pesquisas comprovam isso. Nas grandes cidades e regiões metropolitanas brasileiras, entre elas a do Recife, mais de 70% da população faz as mesmas coisas nos mesmos horários, todos os dias. Mesmo considerando as mudanças que a pandemia do coronavírus nos deixará de herança, essa rotina nos acompanhará por um bom tempo e, por isso, precisa ser flexibilizada. Pelo bem de todos.

BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
No primeiro dia da série de reportagens, setores produtivos já deixam claro que são contrários ao escalonamento. Defendem que ele será inócuo porque os problemas do transporte coletivo são estruturais - BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

Na Região Metropolitana do Recife, por exemplo, as jornadas de trabalho costumam começar e terminar nos mesmos horários, assim como a entrada e saída das escolas. E o trabalho e a educação são as duas grandes razões de deslocamento da população no Brasil e no mundo. Os números mostram esse costume. A última Pesquisa de Origem e Destino do Recife, feita pelo Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS) em 2018, apontou que 72% da população começam a trabalhar entre 7h e 9h. E 68% saem do trabalho entre 17h e 20h. No deslocamento para estudar, a concentração é semelhante. Praticamente 40% inicia os estudos entre 7h e 9h, sendo quase 30% entre 7h e 7h59. E assim seguimos. Por isso a defesa do escalonamento. “Sem dúvida, o escalonamento é uma ação que se pode adotar para ajudar o transporte público. Ele vai permitir achatar a curva da demanda, que tem grande concentração nos horários de pico da manhã e da noite, otimizando a operação dos sistemas e também das vias urbanas. Isso porque a mudança nos horários de deslocamento beneficia toda a cidade, melhora o trânsito. Afinal, entre 40% e 50% dos nossos deslocamentos começam concentrados em quatro horas do dia - duas pela manhã e duas à noite. Começar um pouco mais tarde e acabar um pouco mais tarde também ajudaria muito”, destaca Guillermo Petzhold, coordenador de Mobilidade Urbana da WRI Brasil, ONG internacional que orienta e fomenta o transporte urbano sustentável e cidades humanas.

É importante que outros setores além dos produtivos sejam incluídos no escalonamento, como o serviço público e o setor de educação. É algo que precisa envolver toda a sociedade para que tenha um resultado mais amplo não só para o transporte, mas para a mobilidade em geral",
Guillermo Petzhold, da WRI Brasil

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Guillermo Petzhold, coordenador de Mobilidade Urbana da WRI Brasil - WRI/DIVULGAÇÃO

Petzhold alerta, ainda, ser importante que outros setores além dos produtivos sejam incluídos no escalonamento, como o serviço público e o setor de educação. “É algo que precisa envolver todos para que tenha um resultado mais amplo”, ressalta. Pelo menos no caso de Pernambuco, nenhum dos dois setores - que em sua maioria seguem em atividades remotas durante a pandemia - tiveram os horários de entrada e saída alterados por enquanto. No caso da educação, que está retomando gradualmente as atividades presenciais - começando com o ensino médio -, o protocolo do Estado faz apenas uma recomendação para que as escolas promovam diferentes intervalos de entrada e saída entre as turmas para evitar aglomerações. Mas não há imposição de horários.

ARTES JC
mobilidade - ARTES JC

QUEM MAIS SOFRE
O apelo do escalonamento de horários ressurgiu pelo setor de transporte porque é o ônibus, o metrô e o trem os que mais sofrem com o engessamento da mobilidade convencional. Na Região Metropolitana do Recife, metade da população economicamente ativa usa o ônibus para chegar ao trabalho. E, como já foi dito, 50% desses passageiros saem de casa ou voltam para ela em duas horas concentradas pela manhã e duas à noite. Por conta dessa concentração, penam: 68% levam até 1h30 no deslocamento. Outros 22% levam até 2h. Nacionalmente, são 127 minutos, em média, perdidos no trânsito todos os dias. No Nordeste, esse tempo aumenta para 132 minutos. Os números são de uma pesquisa do Instituto Ipsos e do aplicativo 99 divulgada em junho de 2019. 70% da população ouvida nas cinco regiões do País afirmaram enfrentar congestionamentos diariamente. E 82% estavam nas capitais e regiões metropolitanas. Ou seja, se já é difícil para todos, imagine para quem está no transporte coletivo, nos horários de pico?

ARTE JC
Escalonamento - ARTE JC

VONTADE DE MUDANÇA
Por sorte, apesar da resistência dos setores econômicos ao escalonamento como colaborador do transporte público, a quem classificaram de inócuo - como mostrado na primeira reportagem da série Escalonamento em discussão -, há uma vontade de mudança surgindo. As pesquisas de Origem e Destino começaram a apontar alguns horários de deslocamento fora do convencional. Ainda é pouco, na casa dos 5%, mas estão crescendo e podem ser mais uma sinalização de que o escalonamento traz benefícios.

É necessário que as prefeituras e o Estado, quando for o caso, façam o reescalonamento do início das atividades econômicas, criando horário para a indústria, para o comércio, os serviços e as escolas, quando estiverem liberadas. De maneira que possamos alongar o horário de pico para reduzir o número de pessoas a cada viagem. O pico no transporte se dá em duas horas pela manhã e duas horas à tarde. Portanto, fica muito difícil reduzir a lotação nos veículos. Se alongarmos esse período de duas para quatro horas pela manhã e quatro à tarde certamente vamos reduzir a superlotação e o risco de contaminação",
Otávio Vieira da Cunha, da NTU

NTU/DIVULGAÇÃO
A ajuda é bem-vinda, mas chega atrasada porque o setor já está endividado. Com prejuízo de R$ 3,72 bilhões", afirma Otávio Cunha, da NTU - NTU/DIVULGAÇÃO

A necessidade de se adotar um escalonamento das atividades produtivas tem tanto apoio técnico que consta no Plano de Mobilidade Urbana do Recife, elaborado desde a primeira gestão de Geraldo Júlio na prefeitura pelo Instituto da Cidade Pelópidas Silveira (ICPS). “Na política municipal de mobilidade, que integra o PMU recifense, existe um instrumento que vai estimular o escalonamento dos horários de trabalho nas empresas particulares. Isso vai permitir que as corporações distribuam melhor os horários de início e fim das jornadas de trabalho”, confirma Marília Pina, diretora executiva de Planejamento da Mobilidade Urbana do ICPS. O PMU, entretanto, até agora não foi enviado à Câmara de Vereadores. Segundo Marília Pina, a política municipal de mobilidade, que terá que ser aprovada pelo Legislativo municipal, está pronta, mas o município aguarda apenas a pandemia passar para encaminhá-lo. Mesmo assim. o escalonamento será apenas uma recomendação.

Nós hoje temos isso com o Sistema Inteligente de Monitoramento da Informação (Simop), mas identificamos apenas o primeiro deslocamento do passageiro. Se ele integrar, por exemplo, nós o perdemos. A Inloco utiliza dados dos smartphones, o que nos dá mais precisão dos deslocamentos. Depois vamos relacionar essas informações com os setores econômicos para identificar cada área. Enfim, queremos ter os dados certos nas mãos para conversar com os setores e ver o que pode ser feito”,
Marcelo Bruto, da Seduh

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Marcelo Bruto, secretário de Desenvolvimento Urbano de PE - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

ESCALONAMENTO SÓ COM CONSENSO
Escalonamento apenas com consenso de todos os setores. Esse é o princípio do governo de Pernambuco, segundo o secretário de Desenvolvimento Urbano de Pernambuco, Marcelo Bruto, responsável pela gestão do transporte público da RMR. Bruto garantiu que o Estado não vai obrigar os setores a mudanças nos horários de início das atividades, o principal ponto do escalonamento. Quer e pretende dialogar e, no máximo, tentar convencer, mas não determinar.

Sendo assim e, pelo ritmo moroso das discussões sobre o tema, é pouco provável que o escalonamento aconteça por determinação do poder público. “As resistências são legítimas e por isso não acreditamos na imposição. Precisamos entender a realidade de cada atividade. Queremos e buscamos o consenso. Quem tentou impor, sem o diálogo, não conseguiu implementar. Não vamos tomar uma decisão dessas de cima para baixo”, reforça.

Na política municipal de mobilidade, que integra o PMU recifense, existe um instrumento que vai estimular o escalonamento dos horários de trabalho nas empresas particulares. Isso vai permitir que as corporações distribuam melhor os horários de início e fim das jornadas de trabalho”,
Marília Pina, do ICPS

 

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Marília Pina, diretora executiva de Planejamento da Mobilidade Urbana do ICPS - DIVULGAÇÃO

Mas, segundo o secretário, o governo acredita sim nos ganhos do escalonamento para ajudar a distribuir melhor a demanda de passageiros nos picos. E quer tentar viabilizá-lo permanentemente e, não, apenas na pandemia. É tanto que está produzindo um levantamento para identificar a origem e o destino dos deslocamentos de passageiros da RMR, via a Inloco, startup do Porto Digital que desenvolve soluções a partir de dados de localização.

“Nós hoje temos isso com o Sistema Inteligente de Monitoramento da Informação (Simop), mas identificamos apenas o primeiro deslocamento do passageiro. Se ele integrar, por exemplo, nós o perdemos. A Inloco utiliza dados dos smartphones, o que nos dá mais precisão dos deslocamentos. Depois vamos relacionar essas informações com os setores econômicos para identificar cada área. Enfim, queremos ter os dados certos nas mãos para conversar com os setores e ver o que pode ser feito”, diz Marcelo Bruto.

BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
O preço da mobilidade convencional: 72% da população começam a trabalhar entre 7h e 9h. E 68% saem do trabalho entre 17h e 20h - BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM

PANDEMIA
O diálogo com os setores econômicos antes da retomada de algumas atividades, segundo o secretário, permitiu o escalonamento de horários para alguns deles, como aconteceu com o comércio, por exemplo, um dos primeiros a retomar as atividades. E já teria tido impacto no pico do transporte. “Tivemos, inclusive, uma leve redução da demanda no pico. Tínhamos uma concentração de 32% dos passageiros de todo o dia entre 4h e 7h. E, desse total, 15% se concentravam entre 4h e 5h. Com as recomendações para alguns setores, conseguimos reduzir essa concentração de agosto para setembro. Jogá-la para mais tarde, alargar o pico da manhã, que é mais concentrado e era nosso objetivo. Atualmente, o pico das 5h às 7h está representando 7% e tivemos um aumento da movimentação de passageiros de 7h às 10h. Antes, esse horário representava 13% de todo o dia. Agora, passou a representar 20%”, explica Marcelo Bruto.

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No primeiro dia da série de reportagens, setores produtivos já deixam claro que são contrários ao escalonamento. Defendem que ele será inócuo porque os problemas do transporte coletivo são estruturais - FOTO:BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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O preço da mobilidade convencional: 72% da população começam a trabalhar entre 7h e 9h. E 68% saem do trabalho entre 17h e 20h - FOTO:BRENDA ALCÂNTARA/JC IMAGEM
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Marcelo Bruto, secretário de Desenvolvimento Urbano de PE - FOTO:FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Guillermo Petzhold, coordenador de Mobilidade Urbana da WRI Brasil - FOTO:WRI/DIVULGAÇÃO
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Escalonamento - FOTO:ARTE JC
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A ajuda é bem-vinda, mas chega atrasada porque o setor já está endividado. Com prejuízo de R$ 3,72 bilhões", afirma Otávio Cunha, da NTU - FOTO:NTU/DIVULGAÇÃO
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Marília Pina, diretora executiva de Planejamento da Mobilidade Urbana do ICPS - FOTO:DIVULGAÇÃO

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