Dezembro Vermelho

Dezembro Vermelho: 6 fatos e mitos sobre o HIV e a Sífilis

Para o infectologista Filipe Prohaska, os preconceitos em torno das infecções sexualmente transmissíveis inibem as pessoas de se informar corretamente e se prevenir

Débora Oliveira
Débora Oliveira
Publicado em 03/12/2020 às 14:05
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O número de soropositivos com acesso aos tratamentos antirretrovirais não deixa de aumentar, com 25,4 milhões de um total de 38 milhões, ou seja, dois terços do total, uma porcentagem histórica - FOTO: Foto: Reprodução
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O último mês do ano é dedicado à conscientização sobre a prevenção ao HIV, a sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). No Recife já são mais 11,2 mil casos notificados de aids entre 1984 e 2020, segundo a Secretaria de Saúde do município. Destes, 7.769 são homens e 3.484 mulheres.

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Desde 1988, quando a Organização Nacional das Nações Unidas instituiu o dia 1 de dezembro como o Dia Mundial de Combate à aids, países em todo mundo têm realizado ações educacionais e de assistência durante este mês. A partir de 2017, a campanha de prevenção ao HIV/AIDS e outras infecções sexualmente transmissíveis foi oficializada no Brasil, por meio da Lei nº 13.504/2017. Apesar disso, alguns boatos ainda rodam as infecções. O Confere.ai reuniu algumas das principais pesquisas (que são feitas no Google) e controvérsias a respeito do HIV e da Sífilis. Veja abaixo.

Todo portador de HIV tem AIDS

Mito. A aids é uma abreviatura para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, no inglês. Uma doença que ataca o sistema imunológico do paciente, já o HIV é o vírus causador dessa infecção. Entretanto, nem todo pessoa com o vírus desenvolve a doença. Uma estimativa de 2019, feita pelo Ministério da Saúde, aponta que cerca de 135 mil brasileiros estão infectados com o vírus HIV e não sabem.

Sexo oral transmite HIV e sífilis

Verdade. Uma das buscas mais populares no Google nos últimos 30 dias é se as pessoas podem adquirir o vírus da aids ou a sífilis por meio do sexo oral. Segundo o infectologista do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (HUOC) Filipe Prohaska, é possível. “No caso do HIV, se você tiver lesões na mucosa [parte interna da boca] que ativa no sexo, você pode ter a transmissão. Não se sabe o risco real, mas existe. Para transmitir a sífilis, só é preciso o contato, mesmo sem lesões.”

A sífilis é uma doença causada pela bactéria Treponema pallidum e possui vários tipos de manifestação. Em casos mais graves, de ‘sífilis terciária’, os sintomas - lesões na pele, nos ossos, cardiovasculares e neurológicas - podem surgir em até 40 anos após a infecção e até levar à morte.

Homens gays têm mais chances de contrair HIV

Mito. Não há consenso sobre o assunto. Algumas estatísticas apontam para a maior infecção de homossexuais, outras, para a população heterossexual. Os estudos diferem de acordo com o local de análise e período. Uma pesquisa realizada na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, aponta que homens héteros foram o perfil com maior número de notificações no estado de SP entre 1989 a 2004. O estudo se baseou em dados fornecidos pela vigilância epidemiológica do Centro de Referência e Tratamento de DST/Aids e analisou 25,6 mil notificações entre os anos de 1980 e 2014 de indivíduos entre 14 e 25 anos. A pesquisa concluiu que o principal fator de influência para a incidência do vírus era a falta de políticas públicas e ações de prevenção voltadas ao público masculino heterossexual.

Em 2018, a Organização Mundial da Saúde reconheceu em documento que suas diretrizes para a seleção de doadores de sangue, que recomendam a exclusão temporária de ‘homens que fazem sexo com homens (HSH)’ da lista de doadores por terem maior risco de contaminação por ISTs, estavam desatualizadas. As diretrizes, de 2012, foram tomadas como base pelo Ministério da Saúde para manter a proibição de HSH doarem em até 12 meses após a prática sexual por meio da Portaria de Consolidação nº 5, de 2017. Em maio deste ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou o veto.

Para o infectologista Filipe Prohaska, o risco de contrair o HIV está associado a práticas sexuais mais passíveis de lesão, que podem ser praticadas por ambos os sexos, independente da sexualidade. “Sexo com trauma maior tem um risco maior de HIV. Receptivo anal, por exemplo, independente de ser o homem ou a mulher que recebe, tem risco maior de lesão.”

Quem tem sífilis ou HIV não pode doar sangue

Verdade. Quem está em um estágio ativo da sífilis ou HIV não pode doar sangue. “Sempre que você vai doar sangue é feito um exame para analisar o estado do sistema imunológico do doador e se ele está atualmente com alguma doença sexualmente transmissível”, explica Filipe. Pessoas curadas da sífilis podem doar.

Contraceptivos orais podem prevenir a sífilis

Mito. Não existem medicações que podem prevenir a sífilis, existem apenas tratamentos. Além disso, a infecção apenas pode ser prevenida por meio do uso do preservativo, segundo o Ministério da Saúde.

Mães que possuem HIV ou sífilis transmitem para os filhos

Mito. Apesar de haver risco de transmissão do vírus da mãe para o bebê, com o tratamento adequado é possível evitar que isso aconteça. “Caso façam o tratamento precoce e tenham um parto que não seja pela via vaginal, ou seja, uma cesária, junto com medicações, as mulheres podem ter uma criança sem o HIV e sem a sífilis”, explica Filipe Prohaska. “Isso é completamente possível e precisa de um acompanhamento bem de perto tanto do pediatra como do ginecologista.”

Para o infectologista, os preconceitos em torno das infecções sexualmente transmissíveis inibem as pessoas de se informar corretamente e se prevenir. “Ainda tem muita gente que acha que somente homossexuais podem contrair, pessoas que não querem fazer o exame por medo, pessoas que têm dificuldade em aceitar a infecção… muitos encaram o HIV como uma sentença de morte, quando na verdade é uma situação que tem controle. As medicações conseguem controlá-lo com muita eficácia“, diz Filipe. “Esses estigmas têm que ser deixados mais de lado.”

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