CIDADE

Mudanças no nome de vias do Recife causam polêmica e resultam em perda histórica e urbanística

Câmara Municipal do Recife pôs em discussão três projetos de lei para alterar nomes de ruas da capital pernambucana. No último sábado (8), um trecho da Avenida Beira Rio passou a ser chamado de "Avenida Beira Rio Governador Eduardo Campos". Especialistas criticam mudanças

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 14/05/2021 às 14:56
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ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
TROCA Avenida Norte recebeu o acréscimo de 'Miguel Arraes de Alencar', em memória ao ex-governador - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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Uma simples vila de pescadores conhecida como arrecife dos navios foi nomeando, a partir do seu cotidiano, vivências e tradições, os becos, vielas, travessas e ruas que hoje formam a cidade do Recife. Tais títulos, tanto os poéticos, quanto os jocosos, imprimiam a história do seu povo, mas, com o passar dos séculos, foram sendo alterados, apagando a memória do que, um dia, a região já foi. Esta tendência segue até hoje. Só em 2021, a Câmara Municipal do Recife pôs em discussão, em meio a uma pandemia, três projetos de lei para alterar nomes de ruas da capital pernambucana. E, no último sábado (8), um trecho da Avenida Beira Rio passou a ser chamado de “Avenida Beira Rio Governador Eduardo Campos”.

O projeto da Avenida Beira Rio foi criado pelo vereador Samuel Salazar (MDB), líder do prefeito João Campos (PSB) na Câmara. Em pauta, está a mudança da Rua Sete de Setembro, no bairro da Boa Vista, Centro da cidade, para "Rua Livreiro Tarcísio Pereira", em homenagem ao fundador da Livro 7, proposta pela vereadora Cida Pedrosa (PCdoB). Já o vereador Marco Aurélio Filho (PRTB) solicitou a alteração da atual Rua Engenheiro Moacyr Parahyba, na Iputinga, para “Rua Cantor Augusto César”; mas, tempo depois, retirou a pauta. Para o mesmo cantor, o vereador Fabiano Ferraz (Avante) pediu a denominação da tradicional Rua Nova, no bairro de Santo Antônio, como “Rua Nova Cantor Augusto César”.

Mas não é a primeira vez que isso acontece. Registros da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) demonstram que a ‘moda’ começou em 1870 após a Guerra do Paraguai. “A Rua do Crespo passou a chamar-se Primeiro de Março, numa referência ao dia final daquele conflito; a antiga Estrada do Chora Menino passou a chamar-se Rua do Paissandu; a antiga Rua do Canal, de Rua do Riachuelo e o Beco da Lapa, no bairro da Boa Vista, de Travessa do Tuiuti.” Exemplo recente também foi a mudança da Avenida Norte, que liga o Centro à Zona Norte, para Avenida Norte Miguel Arraes de Alencar, nome do antigo governador do Estado.

O arquiteto José Luiz Mota Menezes critica as alterações e argumenta que os nomes das ruas e avenidas precisam ter uma “lógica entre o morador e onde ela se localiza”. “Tem que haver uma justificativa forte. A denominação acaba sendo uma homenagem vazia se a população não acatá-la. É o povo que tem o direito de denominar a rua. As pessoas acham que podem mudar a qualquer hora o nome das vias e isso cria um problema seríssimo porque você não tem como adivinhar que aquela rua mudou de nome. Pior: muitas não só mudaram de nome, mas também de localização”, afirma.

Leia também: Qual a prioridade na hora de batizar as ruas do Recife, conveniência política?

A lei municipal de número 1223 estabelece que os logradouros públicos “já consagrados pelo uso do povo devem ser mantidos e quando possível restaurados”, mas que, para isso ser feito, deve-se ouvir o Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano (IAHGP). No entanto, segundo o membro da Comissão de História do IAHGP, Carlos Bezerra Cavalcanti, isso nem sempre acontece. “Eles teimam em fazer isso. Eu sou totalmente contrário, deviam procurar fazer coisas mais úteis fazer pela cidade. Essa [mudança] da Rua Nova é um absurdo, não pode acontecer. Ela praticamente surgiu junto ao Recife”, defende.

BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
CENTRO DO RECIFE Ontem à tarde, movimento pelas ruas era fraco e as lojas, com serviços considerados não essenciais, estavam fechadas - BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
Reprodução/Google Street View
Cruzamento da Avenida Beira Rio com a Rua Demóstenes de Olinda - Reprodução/Google Street View

Para a antropóloga Fátima Quintas, a ideia de mudar os nomes das ruas e avenidas para homenagear personalidades demonstra uma “falta de louvor à tradição”. “A cultura precisa ser preservada para ter uma identidade, que vai espelhar a realidade de um conjunto de pessoas. Quando a gente começa a mudar [os nomes das vias], perdemos isso. Preservar a cultura é uma forma de abraçar a tradição e de louvar a identidade de uma população ou região. Se não for conservada, mantida e reverenciada, vai se transformando permanentemente e vamos perdendo a fotografia da própria localidade.”

Autor de livros sobre a construção do Recife, o escritor e jornalista Leonardo Dantas Silva constatou, durante pesquisa em arquivo da Prefeitura da Cidade do Recife, a mudança de 1.487 nomes de ruas tradicionais, “em que pese que algumas, apesar do texto legal, nunca foram obedecidas pela população.” O especialista também aponta as alterações dos endereços como “prejuízo total para a história da cidade”, e espera que a capital pernambucana seja “salva da insensatez que é mudar [os nomes] das ruas” e que não se aprofunde na realidade de um “Recife como terra do foi e não é mais”.

A mesma preocupação já pertencia a nomes como Manuel Bandeira. “Rua da União... Como eram lindos os montes das ruas da minha infância. Rua do Sol (Tenho medo que hoje se chame de dr. Fulano de Tal)”, escrevia no início do século passado. Sentimento compartilhado também por Gilberto Freyre, em seu guia sobre o Recife, ao criticar a troca de títulos de vias tradicionais pelos nomes de homens “mais ou menos ilustres ou de datas mais ou menos gloriosas". “[São] homenagens justas, mas que deveriam realizar-se sem o sacrifício daqueles nomes impregnados de experiência recifense", dizia o escritor.

O que dizem os vereadores

O vereador Samuel Salazar (MDB) explicou que a proposta foi lançada em 2020 e veio a partir da indagação dos próprios moradores locais. “Alguns moradores me procuraram dizendo que havia confusão, porque a Avenida Beira Rio é formada por três trechos: na Madalena, Torre e próximo ao Sport Club do Recife. Conversando, pensamos em fazer essas homenagens a Osvaldo Coelho, Eduardo Campos e Geneton Moraes, que não tinham vias com seus nomes. Peguei parecer favorável do instituto para fazer as identificações”, afirmou.

O vereador Marco Aurélio Filho (PRTB) explicou que retirou o projeto de pauta após ter procurado o IAHGP. Agora, a rua terá o nome mantido, mas será colocada nela uma placa indicando que o cantor Augusto César foi um residente da via. "[O projeto] se manteve no sistema, mas não sou a favor que se mude o nome das ruas. Tanto que fiz um discurso parabenizando a atação e a resposta que o Instituto me deu", disse.

A assessoria do vereador Fabiano Ferraz (Avante) disse que a iniciativa do parlamentar teve o intuito de homenagear o cantor, e que não houve consulta a órgãos para a abertura do projeto. 

Já a vereadora Cida Pedrosa (PCdoB) justifica que "por todo o legado cultural e educacional, Tarcísio Pereira deixou uma marca indelével na Rua Sete de Setembro". "Sua memória estará para sempre vinculada àquele espaço onde estimulou o florescimento de tantos jovens talentos. Diante do exposto, solicitamos o apoio dos ilustres Pares para a aprovação da proposição", afirma. 

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