TRAGÉDIA

Um mês após morte de família em Jaboatão, vizinhos denunciam falta de amparo público contra deslizamentos de barreira

Osvaldo, Silvia, Otávio e Isabeli Siqueira foram mortos há um mês pela queda de uma barreira na 6ª Travessa Murilo Braga, em Jaboatão dos Guararapes. Vizinhos da família temem novos casos no local

Katarina Moraes
Katarina Moraes
Publicado em 15/06/2021 às 9:54
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TIÃO SIQUEIRA/TV JORNAL
A queda da barreira que atingiu as duas casas da família Siqueira na 6ª Travessa Murilo Braga aconteceu no dia 13 de maio de 2021, durante um forte temporal - FOTO: TIÃO SIQUEIRA/TV JORNAL
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Com informações do repórter Leonardo Baltar, da TV Jornal

No dia 15 de maio de 2021, autoridades encontravam os corpos dos últimos da família “Siqueira”. A chuva intensa que caía na Região Metropolitana do Recife naquela semana causou o deslizamento da barreira que sustentava a casa de pai, mãe, filho e filha, - Osvaldo, Silvia, Otávio e Isabeli - no bairro de Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes. Histórias como essas são escritas ano após ano durante o período de maior precipitação na região pernambucana; o que muda são apenas as vítimas. Um mês após o caso, os moradores da 6ª Travessa Murilo Braga temem ser os próximos, e relatam falta de amparo do poder público.

Sem ter onde morar, Moabe Francisco precisou voltar para sua casa na Travessa após ter sido aconselhado a sair pelos riscos estruturais. Atrás de onde vive com a esposa, uma barreira ameaça cair. “Começaram a fazer o muro de arrimo e não terminaram o resto. A barreira está caindo. Eu não tive oportunidade nem de comprar um plástico, que é barato. Minha esposa, que faz unhas, que fez das tripas, coração, para comprar”, relatou.

Por estarem em área de risco, 12 imóveis da área foram interditados pela Defesa Civil de Jaboatão. A essas famílias, a Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes vem pagando R$ 150 de auxílio moradia, valor insuficiente para a dona de casa Ivani Gomes, de 36 anos, que está morando de favor na casa da mãe junto ao esposo e à filha. “Auxílio é dar direito a alguém de morar em algum lugar, e esse é um valor muito baixo, não tem como”, disse. Ela cobra respostas da gestão sobre a possibilidade de retorno ao local. “O que eles vão fazer em relação a essas barreiras? O acidente com a família não pode ficar em vão”, questionou.

Nos escombros da casa onde a família morava, roupas e travesseiros são marcas da vida, escondidas entre as tantas ainda presentes do deslizamento, que aconteceu no dia 13 de maio de 2021, entre 17h e 17h30, durante um forte temporal. Antes da chegada dos bombeiros, vizinhos se mobilizaram para tentar salvar os moradores da casa em meio à chuva, e continuaram ajudando mesmo com a presença da equipe. Durante as buscas, retroescavadeiras auxiliaram na retirada do concreto e do barro.

O primeiro corpo a ser encontrado foi o do filho, Otávio Pessoa de Siqueira, 16 anos, horas após a queda da barreira de mais de 50 metros. Na sexta (14) de manhã, equipes de resgate encontraram o corpo da mãe, Sílvia Regina da Silva, 36 anos. No dia 15 de maio, o Corpo de Bombeiros localizou os corpos de Osvaldo Pessoa de Siqueira, 39 anos, e Isabeli Pessoa de Siqueira, 12 anos, filha dele. Segundo os bombeiros, ambos morreram abraçados no sofá da sala.

Eles foram enterrados no domingo (16) no Cemitério do Pacheco, na mesma cidade, em cerimônia em clima de revolta e emoção e custeada pela Prefeitura de Jaboatão dos Guararapes. Irmã de Osvaldo, a dona de casa Patrícia Pessoa de Siqueira, afirmou durante o velório ter "uma sensação horrível" em ver quatro pessoas da sua família mortas por causa de um deslizamento da barreira. Ela é irmã de Osvaldo. "É um pedaço da gente que se foi. Vai ficar faltando. É um momento de reflexão pra que isso não venha a ocorrer com outras pessoas", afirmou.

À época, a Defesa Civil da cidade disse que a chuva abriu uma fenda de aproximadamente 100 metros na barreira, o que veio a causar o deslizamento. No dia 13 de maio, a Agência Pernambucana de Águas e Climas (Apac) noticiou que nas últimas 24h teria tido um acumulado de 133 mm de precipitação em Jaboatão dos Guararapes.

REPRODUÇÃO/TV JORNAL
Atual situação do terreno onde duas casas da mesma família foram destruídas na 6ª Travessa Murilo Braga, em Jaboatão dos Guararapes - REPRODUÇÃO/TV JORNAL
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Atual situação do terreno onde duas casas da mesma família foram destruídas na 6ª Travessa Murilo Braga, em Jaboatão dos Guararapes - REPRODUÇÃO/TV JORNAL
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Atual situação do terreno onde duas casas da mesma família foram destruídas na 6ª Travessa Murilo Braga, em Jaboatão dos Guararapes - REPRODUÇÃO/TV JORNAL
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Atual situação do terreno onde duas casas da mesma família foram destruídas na 6ª Travessa Murilo Braga, em Jaboatão dos Guararapes - REPRODUÇÃO/TV JORNAL
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Atual situação do terreno onde duas casas da mesma família foram destruídas na 6ª Travessa Murilo Braga, em Jaboatão dos Guararapes - REPRODUÇÃO/TV JORNAL

Hoje, uma parede branca foi o que restou do terreno que abrigava as duas casas dos Siqueira. Os vizinhos denunciam que após o acidente apenas uma equipe contratada pela prefeitura foi até a 6ª Travessa. Funcionários cortaram as árvores da barreira, mas não removeram os troncos e outros entulhos.

Por nota, a Secretaria Municipal de Infraestrutura de Jaboatão dos Guararapes informou que o “projeto para execução de obras estruturantes para contenção da barreira se encontra em fase de conclusão”, e que, “em seguida, e em caráter de urgência, vai ser feita a captação de recursos junto ao Governo Federal para o início dos trabalhos na área”. Além disso, salientou que “as famílias cujos imóveis foram interditados pela Defesa Civil, em face do risco apresentado à segurança das pessoas, estão sendo assistidas com auxílio moradia e distribuição de mantimentos”.

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