MORADIA

Quando o sonho começa a rachar e afundar: o drama dos moradores do Residencial Beira-Rio reflete déficit habitacional do Recife

Cinco meses após terem que deixar suas casas, os moradores do habitacional já sentem saudades do triste passado, marcado pela perda de móveis e até alimentos, por causa das cheias do Rio Beberibe

Marcelo Aprígio
Marcelo Aprígio
Publicado em 16/09/2021 às 15:40
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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O relógio ainda nem marcava 8h da manhã quando, naquele sábado, dia 17 de abril de 2021, no Conjunto Habitacional Beira-Rio, localizado no bairro do Arruda, Zona Norte do Recife, a vida de 64 famílias mudou drasticamente: o que enfim parecia a tão sonhada casa própria começou a rachar e afundar, restando apenas a desabitação como saída.

“Esse não é um problema que surgiu de ontem para hoje. Desde 2018, a gente vinha solicitando uma vistoria da prefeitura. Isso só veio ocorrer em abril, numa sexta-feira. Os técnicos vieram aqui e disseram que não era preciso deixarmos nossas casas. Mas no dia seguinte, antes das 8h, fomos acordados com eles nas nossas portas, pedindo que deixássemos o prédio com urgência”, conta Eliane Gomes, 58, que desde lá vem enfrentando a situação com ajuda médica e à base de remédios. “Eu não consigo dormir sabendo que posso perder a única coisa que conquistei na vida”, diz.

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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. (ELIANE GOMES) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Assim, os moradores dos blocos A e B do residencial, que estão com suas estruturas comprometidas, precisaram recorrer ao aluguel para ter um teto que os abrigasse. Para isso, receberam da Prefeitura do Recife um auxílio financeiro de R$ 1,5 mil, dividido em três parcelas de R$ 500, e a promessa de que os prédios seriam reformados.

Hoje, há cinco meses desde que os apartamentos foram esvaziados, nada mudou, exceto o auxílio que os moradores recebem para pagar o aluguel, que agora é R$ 200. Um valor que, muitas vezes, não cobre nem a metade dos custos com a locação de casas, cuja média é de R$ 500, sem contar os gastos com energia elétrica e água.

“Por favor, se alguém souber, me diga: onde que vamos conseguir alugar uma casa com apenas esse valor? Isso não existe em lugar nenhum. Hoje, um bujão de gás é R$ 100. Não tem como sustentar a casa e pagar aluguel com esse valor”, afirma a dona de casa Edla Gomes, 36.

A diretora executiva da ONG Habitat Brasil, Socorro Leite, concorda com os moradores acerca do valor do aluguel e cobra da administração municipal uma medida mais efetiva para ajudar as pessoas afetadas pelos problemas estruturais do residencial. “De fato pagar auxílio moradia de R$ 200 para as famílias buscarem uma moradia, sem saber por quanto tempo, não deveria ser uma solução”, argumenta.

“Oferecer um valor para as famílias, que não viabiliza o pagamento do aluguel, é jogá-las na rua. A prefeitura deveria manter pelo menos o valor acordado inicialmente, até que elas possam voltar para suas casas”, defende Socorro Leite.

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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. (EDLA GOMES) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

“Por isso, voltamos para cá, apesar dos riscos. Não temos mais para onde ir. Eu era feliz em Chão de Estrelas e não sabia, mesmo com água quase no peito, tendo que carregar meus filhos nos ombros, mas pelo menos lá era meu, era minha casa”, conta Edla, que também integra uma comissão de negociação com a prefeitura.

Saudades de um passado difícil

Apesar de triste, o passado, marcado pela perda de móveis, eletrodomésticos e até alimentos,  por causa das cheias do Rio Beberibe, agora desperta saudades não apenas em Edla, mas também na aposentada Fátima Silveira, 66, que questiona se foi válido deixar a antiga realidade.

“Passamos por tanta coisa difícil lá em Chão de Estrelas. Duas ou três vezes no ano, víamos a água invadir nossas casas, arrastando e acabando com tudo. Aí viemos para cá, achando que teríamos uma vida boa, como merecemos, depois de tantos anos, acontece uma coisa dessa. Aí me pergunto: valeu a pena? Acho que não. Até eles [a prefeitura] dizem que isso não é nosso, é da Caixa. Por que viemos para cá, então? Antes, me deixasse na minha casinha na beira do rio.”

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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. (FÁTIMA SILVEIRA) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

Mesmo com vontade de voltar à comunidade em que viviam, os moradores também não podem fazer isso, visto que, segundo eles, as suas antigas casas já não estão mais de pé, principalmente aquelas atingidas por um incêndio em 2013 e que já foram demolidas pela Defesa Civil.

“Nem para beira do rio podemos voltar mais, porque derrubaram nossas casas lá. Por isso, a gente dormiu aqui ontem. Um cochilava e o outro ficava observando a estrutura. Ninguém está aqui porque quer. Estamos aqui, porque fomos desamparados e não temos para onde ir”, diz a autônoma Wilma Arruda, 51.

Esperança e sonho rachados

Sem perspectivas de solução para o problema em curto prazo, os moradores do Conjunto Habitacional Beira-Rio, vêem o sonho de ter um lugar para chamar de seu escapar pelas mãos sem poder fazer muita coisa e, assim, perdem a esperança de reabitar os apartamentos, que, dia após dia, racham e afundam cada vez mais. 

“A casa que estou até dá para viver, mas não é minha. Todo mês, a dona está na porta, me cobrando o aluguel. A casa não é minha, não é dos meus filhos. Quando mandaram a gente para cá, eu achava que quando eu morresse, meu filhos teriam uma casa para ficar, mas hoje nós não temos mais nada”, diz Edla Gomes. “Por isso, eu queria, pelo menos, que a prefeitura me indenizasse para que eu vá atrás de um lugar para deixar para os meus filhos. Porque acho que não vamos conseguir voltar para aqui mais”, completa.

Déficit habitacional com mais pressão

Diante dessa situação, os moradores do residencial voltam a pressionar o déficit habitacional da cidade e se unem às famílias recifenses que não têm uma casa para chamar de sua, segundo dados da ONG Habitat Brasil. Um número que tende a aumentar impulsionado pelos impactos econômicos causados pela pandemia de covid-19. "Recife tem mais de 70 mil famílias precisando de moradia adequada. A renda das pessoas está afetada pela crise econômica e muitas não estão conseguindo pagar aluguel", afirma Socorro Leite.

Para ela, a construção de novos residenciais — com planejamento e materiais de qualidade — poder ser uma solução para o problema habitacional da capital pernambucana, que ergueu apenas 10.072 moradias populares até o final de 2020, número que fica bem distante da necessidade da cidade.

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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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RETORNO Após protesto, na quarta, moradores desabrigados voltaram para seus antigos apartamentos - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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CONDENADO Conjunto está tomado por rachaduras e outros problemas estruturais que põem em risco a vida das pessoas - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. (WILMA ARRUDA) - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Moradores desabrigados, retornam para seus antigos apartamentos condenados no Arruda. Prefeitura do Recife, alerta para o risco de desabamento. - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

De 2001 a 2004, na primeira gestão do então prefeito João Paulo (atualmente do PCdoB), foram entregues 2.045. De 2009 a 2012, sob a governança do prefeito João da Costa (PT), o saldo foi de 3.019 novas moradias. De 2013 a 2016, a atual gestão entregou 1.379 unidades habitacionais. De 2017 até o fim de 2020, foram mais 1.032. Com maioria das obras no âmbito do programa Minha Casa Minha Vida, em parte há justificativas em relação à falta de verba, mas isso não explica tudo.

“Não tem necessariamente a ver com recursos do governo federal. Agora tem, porque estamos com esse vazio em relação ao programa habitacional, mas a gestão municipal não aproveitou nem os melhores anos de recursos, por exemplo do PAC e MCMV, apresentando produção de moradia muito baixa para uma cidade como o Recife", afirma a diretora executiva da ONG Habitat Brasil, Socorro Leite.

"Construir novas moradias é uma das soluções para os problemas habitacionais do Recife. Mas também existem muitas moradias nas comunidades que precisam ser melhoradas e precisam de infraestrutura", defende a especialista.

Obras em Andamento – 1.080 Unidades Habitacionais

  • Pilar – 256 unidades
  • Conjunto Habitacional Sérgio Loreto – 224 unidades - São José
  • Habitacional Encanta Moça I e II (Bode) - 600 unidades - Pina
  • Obras a serem iniciadas – 448 UHs
  • Conjunto Habitacional Vila Brasil I - 128 unidades - São José
  • Vila Brasil II – 320 unidades - São José

Entregas:

2013 a 2016

  • Conjunto habitacional - Unidades habitacionais (UHs) - bairro
  • Pilar – 192 – Bairro do Recife
  • Travessa do Gusmão – 160 - São José
  • Beira Rio – 320 - Arruda
  • Vereador Miguel Batista – 51 - Arruda
  • Naná Vasconcelos – 64 - Linha do Tiro
  • Eduardo Campos – 224 - Linha do Tiro
  • Solano Trindade – 35 - Porto da Madeira
  • Vila Minerva – 8 - Dois Unidos
  • Santo Antônio – 128 - Arruda
  • Felicidade – 40 - Fundão
  • Miguel Arraes – 131 - Passarinho
  • Beberibe – 26 - Porto da Madeira

Total – 1.379

2017 a 2019

  • Conjunto habitacional - Unidades habitacionais (UHs) - bairro
  • Residencial Deputado Guilherme Uchôa – 36 - Campo Grande
  • Casarão do Barbalho - 384 - Iputinga
  • Miguel Arraes – 173 - Passarinho
  • Irmã Terezinha – 69 - Campina do Barreto
  • Padre José Edwaldo Gomes – 192 - Casa Forte
  • Conselheiro Romeu da Fonte – 17 -Campina do Barreto
  • Conjunto Residencial Vereador Liberato Costa Júnior - 65 - Campo Grande
  • Residencial Engenheiro Henoch Coutinho – 96 - Porto da Madeira

Total – 1.032

Fonte: PCR

O que diz a prefeitura

O JC procurou a Secretaria de Saneamento (Sesan) do Recife, pasta responsável pelas obras do habitacional, entregue em junho de 2014. 

À reportagem, a Sesan informou que a recuperação estrutural dos blocos afetados está prevista para começar em outubro, com prazo de conclusão de quatro meses. “Os moradores continuarão recebendo o Auxílio-Moradia até que os serviços de recuperação sejam concluídos e eles possam retornar aos apartamentos”, disse a pasta por meio de nota.

A secretaria afirmou ainda que as famílias precisaram desocupar os apartamentos receberam pecúnia, no valor de R$ 1,5 mil. Além disso, elas receberão seis parcelas do auxílio-moradia, retroativo a abril, no valor total de R$ 1,2 mil. “A verba já foi enviada para o banco e R$ 1 mil deverão ser creditados até esta sexta-feira, com os R$ 200 restantes, referentes a setembro, já programados para o fim do mês.”

A Sesan disse também que o valor do auxílio-moradia nunca chegou a R$ 500. “Esse valor não existe na PCR. Só os R$ 1,5 mil pagos em parcela única e os 200 por mês.” Sobre a acusação de ter demorado agir para sanar os problemas, segundo os moradores, a secretaria disse que a PCR agiu pra retirar os moradores do habitacional assim que foi identificado o risco estrutural. Em relação àtitularidade da propriedade dos apartamentos, a Sesan disse queos moradoresreceberão os títulos de propriedade após a recuperação dos blocos.

Até a última atualização desta reportagem, a pasta, porém, não havia respondido aos questionamentos da reportagem acerca de uma possível indenização aos moradores. 

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